Além da mentira, o cinismo

Depois de confessar incapacidade para perceber o que todos viam, presidente anuncia reforma meia-boca que não vai resolver a crise

Presidente Dilma Rousseff: negação da crise econômica no ano passado como estratégia eleitoral; agora, o corte nos ministérios que antes ela criticou e que há um mês falou que era “lorota” | Foto:  Lula Marques/ Fotos Públicas

Presidente Dilma Rousseff: negação da crise econômica no ano passado como estratégia eleitoral; agora, o corte nos ministérios que antes ela criticou e que há um mês falou que era “lorota” | Foto: Lula Marques/ Fotos Públicas

Cezar Santos

Então, finalmente, Dilma Rousseff se deu conta de que o país vive uma grave crise e que é preciso fazer alguma coisa, o que todo o Brasil e o mundo já sabem há muito. O governo de Dilma está perdido — a conversa de voltar a CPMF mostra isso — e ela, que parece viver numa galáxia à parte, resolveu baixar ao país que deveria presidir, ensaiando um mea-culpa e admitindo que errou na avaliação da situação econômica durante a campanha eleitoral do ano passado, demorando a perceber a gravidade da crise.

Em entrevista a três jornais na semana passada, a petista afirmou que as dificuldades só ficaram mais claras entre os meses de novembro e dezembro de 2014, depois da sua reeleição. Deve ser um caso único no mundo de um presidente que demora tanto tempo para perceber o quadro real econômico e político de seu país. Em tudo o que Dilma Rousseff fala, há a marca da imprecisão, do descaso com os brasileiros e da mentira pura e simples.

O que saltou aos olhos agora foi a inequívoca carga de cinismo de Dilma Rousseff, fazendo pouco caso da inteligência dos brasileiros, ao dizer que o governo demorou em reconhecer a gravidade da crise econômica no ano passado. Não é que demorou, na verdade, o governo optou por esconder uma realidade que estava escancarada, sobejamente mostrada pela imprensa.

E fez isso pura simplesmente por medo de perder a eleição. Admitir que os adversários, principalmente o tucano Aécio Neves, estavam certos em falar da gravidade da situação econômica, seria desastroso para uma campanha em que Dilma tinha dito — recorde-se, leitor — que “faria o diabo”.

Lembremos o que a presidente disse na segunda-feira passada: “Vocês sempre me perguntam: no que você errou? Eu fico pensando o que podia ser. Em ter demorado tanto para perceber que a situação poderia ser mais grave do que imaginávamos. E, portanto, tivéssemos que ter começado a fazer uma inflexão antes. Não dava para saber ainda em agosto (do ano passado). Porque não tinha indício de uma coisa dessa envergadura. A gente vê pelos dados. Setembro, outubro, novembro. Nós levamos muitos sustos. Nós não imaginávamos. Primeiro, que teria uma queda da arrecadação tão profunda. Ninguém imaginava isso. Nós sustentamos o investimento. Nós mantivemos a desoneração da folha. Desoneramos a cesta básica. Tem coisas que não voltamos atrás, como cesta básica.

printPoderíamos ter reajustado alguma dessas coisas. Cada vez que faço isso, diminuo a política de investimentos. Fizemos a política pró-cíclica. Para preservar emprego e renda. O que é possível considerar é que poderia ter começado uma escadinha. Agora, nunca imaginaria, ninguém imaginaria, que o preço do petróleo cairia de 105 (dólares) em abril, 102 em agosto, para 43 hoje. A crise começa em agosto, mas só vai ficar grave mesmo entre novembro e dezembro. É quando todos os Estados percebem que a arrecadação caiu.”

Não há nenhuma verdade nas palavras da petista. O pior é que ela sabe que os brasileiros sabem que ela está mentindo. Mas não se abala com isso, é o cinismo elevado ao paroxismo. Aliás, Dilma é uma mentirosa contumaz.

A crise de hoje que se aprofunda a cada dia começou há pelo menos dois anos. Ao longo de 2014, então, os indicativos estavam todos lá e Dilma mesma afirmou na campanha, mais de uma vez, que Aécio iria tomar as medidas que ela sabia que seriam necessárias, mas negou que tomaria.

A presidente se disse surpresa com a queda da arrecadação. O jornalista Reinaldo Azevedo coligiu alguns dados que reproduzo (e antes que alguém diga que Azevedo é antipetista, o que ele realmente é, a coluna abre espaço a quem queira refutar os números).

“Em julho de 2014, ela (a arrecadação) já havia caído 1,6% em relação ao mesmo mês em 2013. Sem os R$ 7,130 bilhões do Refis em agosto do ano passado, a redução teria sido de 2,43%, mas o governo maquiou e apontou um aumento de 5,54%. Pedalada arrecadatória. Em setembro daquele ano, novo truque: o Refis entrou outra vez na conta, e a queda de 0,89% virou elevação. No mês seguinte, outubro, a queda real foi de 2,88%, mas tome a mágica do Refis, e se viu um aumento de 1,33%. Em novembro de 2014, as falácias da arrecadação extra haviam chegado ao fim, e a despencada foi de espantosos 12,86% na comparação com igual mês do ano anterior. Em dezembro, novo tombo: 8,9%.

Vale dizer: em razão da desaceleração da economia e da desastrada política de desonerações do governo, a receita fechou 2014 com queda real de 1,79% na comparação com 2013 — queda iniciada em julho. E Dilma vem agora falar que foi surpreendida?”

A presidente também falou sobre uma reforma ministerial que pretende fazer. Segundo ela, o corte no número de ministérios enxugará 5% do total de cargos comissionados – de livre nomeação e exoneração na gestão pública. Disse que a reforma ministerial vai extinguir cerca de mil — isso mesmo, mil —, dos cerca de 22.500 cargos comissionados.

“Queremos melhorar gestão, detectar em quais pontos há sobreposição de função. Obviamente, você tem uma derivada por obter eficiência, que é resultar na redução de gastos. Se não fica demagógico. Você não faz só isso. Temos uma meta. Achamos, à primeira vista, porque precisamos fazer todos os cruzamentos, que conseguimos reduzir dez ministérios. Mas não é só ministério que a gente quer reduzir. Em cada um dos ministérios, mesmo aqueles que, eventualmente, não serão objeto da reforma, teremos uma ação sobre eles. Queremos reduzir secretarias. Queremos reduzir sobreposição de órgãos nesses ministérios. Tem ministério com número de secretarias que foram sendo ampliadas ao longo dos anos. Então, agora, vamos passar todos os ministérios a limpo. Olhando, justamente a dimensão.”

Aqui, o cinismo de Dilma Rousseff vai às alturas. Na campanha eleitoral do ano passado, lembremos, a petista foi muito enfática em dizer que reduzir ministérios era coisa de mentalidades tecnocráticas, criticando os adversários. O programa eleitoral de Aécio Neves falava em cortar cerca de 20 ministérios. Também Eduardo Campos, do PSB, tinha essa proposta em seu programa.

E a convicção de Dilma com equipe inchada e ineficiente persistiu após a eleição. No mês passado mesmo, ela concedeu uma entrevista à Folha em que classificava essa proposta de “lorota”. Então, a “lorota” de um mês atrás tornou-se imperativo para melhorar a gestão?
A verdade é que a administração de Dilma Rousseff continuará lenta, ineficiente e onerosa para o contribuinte brasileiro, como foi nos quatro anos do primeiro mandato. Não adianta cortar mil cargos, se o restante, na maioria, continuará ocupado por gente que não trabalha, indicados políticos no chamado aparelhamento do Estado.

Corrupção

E não poderia faltar corrupção na fala de Dilma, visto que o governo dela hoje está sendo comandado pela operação Lava Jato, da Polícia Federal e Ministério Público Federal. Aí, mais mentira e cinismo, quando Dilma afirma ter se surpreendido com o envolvimento de petistas na roubalheira da Petrobrás.

“Não imaginava [pessoas ligadas ao PT envolvidas com irregularidades na Petrobrás]. Fui surpreendida. Lamento profundamente…”

Surpresa? Como assim?

Volto a Reinaldo Azevedo, para concluir essa coluna.

“O que não dá para engolir é a surpresa, não é mesmo? Especial-mente porque a cúpula do seu partido já tinha ido parar na cadeia por causa do mensalão. Atenção! A Operação Lava-Jato havia começado em março. Sabem quando a então candidata à reeleição Dilma Rousseff admitiu pela primeira vez a possibilidade de roubalheira na Petrobras? Só no dia 18 de outubro, faltando apenas oito dias para o segundo turno das eleições e 13 depois do primeiro. As pesquisas apontavam uma possível dianteira de Aécio Neves.

E não que ela tenha sido clara, peremptória. Disse então:

“Eu farei todo o meu possível para ressarcir o país. Se houve desvio de dinheiro público, nós queremos ele de volta. Se houve, não: houve, viu?”.

Notaram o “se”? Paulo Roberto Costa decidira fazer delação premiada em agosto, comprometendo-se a devolver R$ 70 milhões. Alberto Youssef, em setembro. Em outubro, a candidata do PT ainda tinha dúvidas sobre o envolvimento do seu partido na sem-vergonhice.
A presidente Dilma deveria ter um pouco mais de respeito pela inteligência alheia. Até então, o PT tratava as denúncias de roubalheira na Petrobras como um grande complô para privatizar a empresa.”

Uma resposta para “Além da mentira, o cinismo”

  1. Avatar Caio Maior disse:

    Caro Cezar Santos. A qualidade dos textos que você escreve é indiscutível: objetivos, coerentes, temporâneos. O conteúdo da sua argumentação – sempre com suporte fático – esbanja lógica. Entretanto – me perdoe a impertinência! – ouso fazer uma observação quanto ao título desta reportagem visando contribuir à melhor compreensão. Penso que neste caso não se trata propriamente de “cinismo” – em respeito ao “nome” da corrente filosófica fundada por Antístenes (discípulo de Sócrates) tendo como propósito “viver na virtude”, cujo representante mais conhecido foi Diógenes de Sínope que viveu por volta de 400 a.C. e fez da sua vida um exemplo prático da proposta de desapego aos bens materiais e “valores externos”. Afinal, o pensamento cínico se relaciona à busca da verdade via da autenticidade: o cínico diz o que pensa sem valer-se de artifícios, de eufemismos; ao contrário, o compromisso com a integridade moral o impede de camuflar a realidade para apresentá-la atraente – e busca a revelação do essencial de modo direto. Sugiro portanto que o termo adequado à delimitação do campo para além da mentira onde transita o governo Dilma é o do “deboche”: a depravação caracterizada pela ausência de regras; a má conduta permeando a devassidão; a libertinagem acompanhada da zombaria e do escárnio.

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