De janeiro a junho de 2021, número de ocorrências ao Corpo de Bombeiros relacionadas a incêndio florestal tiveram alta de 14% em relação ao ano anterior

Anualmente, ver constantes imagens de paisagens brasileiras em chamas se tornou rotina. Do bioma mais úmido ao mais seco, fotografias que antes tinham como paleta de cor predominante os mais diversos tons de verde, adquirem fortes cores quentes, do alaranjado ao vermelho, e o tom escuro das cinzas que passam a cobrir milhares de hectares Brasil afora. Somente em julho, de acordo com informações preliminares divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a própria Amazônia registrou cerca de 4,9 mil focos de incêndio.

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Mesmo que no dia 28 de junho o Governo Federal tenha, por meio de decreto de nº 10.735/2021, suspendido a prática de queimadas por 120 dias em todo o território nacional, o número se mostrou significativo. Em Goiás, que é 70% coberto pelo bioma Cerrado – o segundo maior bioma brasileiro, que fica atrás somente da Amazônia –, o Corpo de Bombeiros registrou aumento de 14% nas ocorrências relacionadas a incêndio florestal, quando comparado com o ano anterior.

Ao todo, nos primeiros seis meses de 2020, ano com maior quantidade de registros de incêndio da última década, no estado, 2.156 ocorrências foram realizadas aos bombeiros, número que subiu para 2.502 em 2021. Já no mês de julho, somente na primeira semana, 148 ocorrências foram realizadas. Apesar do aumento significativo, a preocupação dos especialistas é principalmente voltada ao segundo semestre, período que tradicionalmente ocorrem ainda mais focos que no primeiro. “Costumamos dizer que existe uma combinação de fatores que surge um cenário propicio para o surgimento e para propagação dos incêndios e vegetação, que é a atuação do fator ’30 30 30’: ventos acima de 30km/h, temperatura acima de 30ºC e umidade relativa do ar abaixo de 30%. A preocupação para os meses de agosto a novembro é grande porque estamos em um período de estiagem bem rigoroso, então vamos ter esses fatores com maior periculosidade de apuração dos incêndios”, pontuou o tenente Jefferson Ferreira.

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Apesar dos fatores climáticos que contribuem para espalhar e aumentar incêndios, José Fernando Rebello, que é gerente do fogo no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros desde 2005, monitorou uma área de 120 mil hectares até 2016, acredita que a maior parte da responsabilidade pelas queimadas é humana. “99% desses incêndios foram criminosos no período de seca. O cerrado e o pantanal são biomas que tem uma seca forte, mas isso não seria motivo para incêndio, porque a estação seca, pensando em termos ecológicos, é um momento de descanso para a vegetação. Um dos principais motivos desses incêndios é queimar o pasto nativo para pôr gado e para agricultura”, pontua Fernando.

Gerente do fogo no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, José Fernando Rebello | Foto: Arquivo pessoal

“Os agricultores queimam ano sim, ano não, porque se queimar todo ano não tem massa suficiente para o gado comer. E eles viram que só tem biomassa suficiente depois de 2 anos. então os fogos aqui são comuns, a cada três ou quatro anos tem um grande incêndio. Além disso, o pecuarista põe fogo e não controla para onde ele vai”, exemplifica. Em um resgate histórico do que acompanhou nos últimos anos, o gerente do fogo no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros relembra que, antes, o período de seca no cerrado tinha duração de três a quatro meses, não de cinco a seis, como atualmente.

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“Antigamente chovia em agosto, em agosto, que era a chamada chuva do caju, mas desde 2007 as chuvas vêm caindo. Segundo os dados que temos, em Goiás chovia 2 mil milímetros por ano, em 2007 cai para 1500 e em 2010 para 700. Em 2014 o nível retorna para 900, mas em 2017 tivemos um incêndio gigantesco e até hoje a vegetação não se recuperou, uma vez que as matas ciliares e as turfas foram queimadas”, explica. Sendo assim, como observado por Rebello, a baixa incidência de queimadas naturais se dá em razão de sua própria origem, que é relacionada à chuva. “O fogo natural existe, já vi muito incêndio causado por raio, mas só tem raio se tem chuva. No entanto, o período de chuvas passou a começar pelo mês de novembro, sendo que os piores incêndios ocorrem nos meses de agosto e setembro”, pontua.

Para Fernando, a própria academia tem grande responsabilidade nessa movimentação de incêndio, já que “os pesquisadores queimam o cerrado e coletam os dados a partir do que eles queimaram”. “Eles não vão estudar o fogo natural do cerrado, eles fazem queima, a cada um dois, quatros anos. A partir disso, falam que aumentou a diversidade de formigas, aranhas, mas com isso estamos andando para trás. Se não há queima, vai aumentar a diversidade de felinos, mamíferos de porte grande, macacos, veados”, diz.

2° Tenente e chefe da seção de instrução e capacitação do 8° Batalhão Bombeiro Militar, Jefferson Ferreira | Foto: Arquivo pessoal

Além da própria perca de biodiversidade de espécies endêmicas na fauna e na flora do Cerrado, que por si só prejudica o bioma como um todo, as consequências do desmatamento e das queimadas se mostram presentes no cotidiano da população goiana e brasileira, como um todo. Entre elas, o tenente Jefferson ressalta o prejuízo econômico aos próprios agricultores, que perdem suas lavouras quando um incêndio acomete sua propriedade – algo que pode motivar um desmatamento ainda maior – e ao ar que a população respira, propiciando o desenvolvimento de doenças respiratórias.

“Com esses extremos, o preço da comida vai subir. Hoje a saca de soja está saindo R$ 140. Há um ano e meio, estava a R$ 70. Só que quando o preço sobe muito, os agricultores desmatam mais pela linha do preço do grão. Isso estimula ainda mais o desmatamento. Estamos em um ciclo de reforço negativo que é uma tragédia ao nosso país, acrescenta Fernando. O gerente do fogo no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, ainda ressalta o aumento da liberação de gás carbônico, que aumenta a poluição e intensificam o efeito estufa – piorando ainda mais as mudanças climáticas no país e no mundo. “Se tirar o ser humano do Brasil, em 30 anos ele vira floresta de novo. Nós somos o grande empecilho”, complementou.

Ações de proteção, um trabalho conjunto

Cerrado em chamas | Foto: Reprodução

Na atuação do combate ao fogo em Goiás, que precisou ser cada vez mais intensa em razão do aumento das queimadas nos últimos anos, o tenente do Corpo de Bombeiros, Jefferson Ferreira relata a importância da Operação Cerrado Vivo, realizada anualmente pela corporação. Em todos os anos, a ação se divide em duas etapas, a de prevenção e a de resposta, sendo a primeira de janeiro a junho, e a segunda de julho a dezembro.

De acordo com Jefferson, enquanto no período de prevenção o objetivo é tentar conscientizar a população sobre os cuidados com os lotes dentro das áreas urbanas e com as propriedades rurais, de preparação e capacitação da tropa e adquirir equipamentos, na etapa de resposta, toda a preparação realizada no primeiro semestre do ano é colocada em prática. “Assim, quando é localizado um foco de incêndio, nossas equipes se deslocam de imediato para verificar a dimensão daquele foco, se será necessária uma força tarefa mais especializada para o combate”, pontua.

Dada a grande quantidade de alertas levantados durante o período de escassez hídrica, que pode contribuir com o alto risco de queimadas, a subsecretária de Desenvolvimento Sustentável, Proteção Ambiental e Unidades de Conservação da Secretaria de Estado de Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Vanessa Fernanda Schmitt, afirma que, só esse ano, foram investidos mais de R$ 5 milhões para o combate aos incêndios. Entre os atos de preparação, foram adquiridos equipamentos, preparados aceiros, elaborados de planos operativos de prevenção e combate aos incêndios a cada uma das unidades de conservação, contratação de maquinários, instrumentos. drones, queimadores florestais, sopradores, roçadeiras, entre outros.

Subsecretária de Desenvolvimento Sustentável, Proteção Ambiental e Unidades de Conservação da Semad, Vanessa Fernanda Schmitt | Foto: Semad

“Também fizemos alguns acordos de cooperação técnica, como com a ONG Aliança da Terra, que vem realizando cursos de capacitação dos nossos servidores, e adquirimos sistemas de comunicação via rádio, que facilita toda comunicação aqui que durante esse período que é tão triste para o estado de Goiás”, complementa Vanessa, ao relembrar da publicação da Instrução Normativa nº 11, que atualizou os procedimentos para requerimento e emissão de autorização para queima controlada, e ampliou os mecanismos de controle sobre a prática.

Apesar das ações implementadas, os profissionais ressaltam a importância da colaboração da sociedade civil para a preservação dos solos e do bioma como um todo. “Passar por esse período é um trabalho conjunto, com a ação de cada um na ponta, seja pelo desperdício de água ou pelo incêndio, que muitas vezes é impensado, mas que pode trazer grandes consequências”, diz Vanessa. Ao sugerir práticas adequadas de plantio, José Fernando explica que, ao queimar o solo, a destruição da vida é completa, já que a matéria orgânica, que cobre e alimenta esse solo, os fungos e as bactérias – que são alimentos da cadeia trófica –, passa a ser eliminada.

“As florestas são o airbag das mudanças climáticas. Ao tirar essa cobertura do solo, a chuva faz com que a água lave o solo, e não se infiltre. Quando chove, a água escorre, vai para os rios e não abastece os lençóis freáticos, além de arrastar o solo por ganhar energia cinética. Com isso, vai entupir e destruir os rios, causando erosões. Isso aumenta as enchentes e destrói pontes”, esclarece. No entanto, ele ressalta a possibilidade de se produzir soja ou milho, por exemplo, sem destruir as florestas. “Basta plantar filas de árvores e abandonar o transgênico, que é uma tragédia pela quantidade de veneno. Muitos agricultores do grupo de associados a agricultura sustentável reduziram o glifosato não usando nenhum tipo de fungicida inseticida, já que viram que tem que tem que ter fungo no solo, para que as plantas sejam saudáveis”, diz.

Além, inclusive, dos cuidados nas grandes produções, as ações conscientes devem ser adotadas em todas as esferas, incluindo nas ações cotidianas da sociedade civil. “Hoje temos que seguir cuidados mínimos e pensar que uma simples ação pode promover grande perdas para a natureza e para o nosso cerrado como um todo. Se pensarmos que natureza é vida, o cerrado tem é a nossa vida aqui no centro oeste e no estado de Goiás”, acrescenta. Vanessa ainda ressalta a necessidade de se utilizar de forma consciente dos recursos naturais que são limitados para as demandas ilimitadas do ser humano.