Agregação de valor a matérias-primas deve ser foco na economia

Quem ganhar a eleição no ano que vem, seja da base aliada ou da oposição, não terá como fugir muito do que Marconi Perillo vem fazendo

Transformação de matérias-primas, como a soja, deve ser estimulada para potencializar a economia goiana

Cezar Santos

O acerto da condução da economia regional por parte do gover­no Mar­co­ni Perillo (PSDB) é um fato. Prova é que o Estado não sofre tanto como a maioria dos outros os efeitos da grave crise desencadeada a partir das políticas equivocadas da ex-presidente petista Dilma Rousseff, que causaram recessão e desemprego — é bom que se diga, no entanto, que também Lula cometeu erros crasso na política econômica, principalmente no segundo mandato.

Com todas as dificuldades que a economia goiana enfrenta — e elas são reais, não se pode negá-las —, em Goiás não está ocorrendo os problemas graves do Rio de Janeiro, por exemplo, com meses de salários atrasados do funcionalismo estadual e paralisação de grande parte dos serviços públicos. Rio Grande do Sul e Minas Gerais, entre outros, também passam por problemas difíceis.

Posto assim, e considerando que está em curso uma pré-campanha para a sucessão estadual, fica evidente que a política econômica dos governos tucanos em Goiás terá de ter continuidade. Quem vier a ganhar a eleição estadual de 2018, seja situação ou oposição, não poderá promover guinadas radicais de rumo, embora se imagine que correções e aprimoramentos poderão (e deverão) ser feitos, até por estilo e convicções do futuro vencedor.

Mas, uma pergunta cabe ser feita nesse momento: o próximo governador terá de mirar o quê, com vistas a uma agenda econômica que induza a resultados positivos além dos quatro anos de mandato apenas?

O economista e ex-deputado federal Valdivino Oliveira, um teórico – é professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) — e prático, é consultor e empresário, tendo ocupado vários cargos públicos na área de finanças em Brasília e Goiás, faz um diagnóstico rápido antes de situar a questão.

Ele lembra, por exemplo, que a economia goiana tem crescido mais rapidamente que a nacional, o que decorre, além de acertos no governo estadual, por diversos fatores. Valdivino elenca: área agricultável muito extensa, grande rebanho bovino, e produção de commodities interessantes, como carne, soja e milho, que são carro-chefe das exportações brasileiras, o que favorece a economia do Estado.

Economista Valdivino de Oliveira: “A China só compra o que não
tem valor agregado”

Além do mais, diz, Goiás sabe tratar as empresas que vêm para cá, dá incentivos fiscais interessantes. “Hoje, com a lei complementar federal que homologou esses benefícios fiscais, pacificou uma situação que chegou a ficar preocupante”, diz, referindo-se à Lei Complementar 160/2017, sancionada pelo presidente Michel Temer e publicada no dia 8 de agosto no Diário Oficial da União, convalidando os incentivos fiscais relativos ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) concedidos pelos Estados a empresas e indústrias.

— Por isso que, sempre que se faz estatísticas sobre geração e empregos, Goiás tem ficado na frente, o que ocorre também em relação a evolução do Produto Interno Bruto (PIB). Não se pode imaginar que, na crise que o país enfrenta, haja soluções tão diferentes das que Goiás tem tomado.

Uma agenda econômica nesse sentido não poderá ser imediatista, no curto prazo, porque os resultados estruturais, que levam a economia a crescer, gerar mais emprego e aumento da renda, estão mais a nível no governo federal. Nesse sentido, o Estado tem de assumir as diretrizes do governo federal, articulando de forma inteligente as possibilidades que o governo local possa ter dentro do aspecto macroeconômico.

Valdivino diz que um aspecto deverá ter prioridade para o futuro governante: agregar valor as nossas matérias-primas. Lembra que há um mercado emergente, que todo mundo cobiça, o mercado chinês.

— Todos querem vender para a China, mas ela só compra o que não tem valor agregado, matérias-primas e commodities, como arroz, soja, milho. Não compra os produtos derivados dessas commodities, porque eles que querem fazer o processo de adicionar valor. A China importa soja, mãos não importa óleo nem farelo de soja, que têm valor agregado.

O professor reforça que os goianos precisam agregar valor sim, não se conformar em ser apenas produtores de commodities, mas observa que há uma limitação de demanda do comércio mundial e isso tem de ser encarado de forma pragmática. Ou seja, se o mercado externo quer commodities, e nós produzimos bem commodities, então temos de reforçar nossa expertise nesse setor.

Valdivino lembra que alguns setores da economia brasileira têm de ser estimulados e em Goiás não é diferente.

— Por exemplo, 70% da farinha de trigo que Goiás consome vem de fora. E temos moinhos com capacidade ociosa. Será que não teria uma forma de incentivarmos a produção de trigo moído em Goiás? Fazer como a China faz, ela importa o trigo, mas não importa a farinha. Poderíamos até deixar entrar o trigo, mas dando uma condição melhor para fazer a moagem, nós agregaríamos esse valor. É um exemplo, mas temos vários outros nesse sentido.

Em resumo, o futuro governo terá de estimular ainda mais os setores em que já somos bons.

— Teríamos de ver quais áreas em que poderíamos agregar valor. Já temos setores de destaque nacional, como na produção de remédios, com laboratórios de ponta. Também somos fortes na indústria da carne. Mas também ainda importamos muita coisa. Quem sabe, o modelo chinês, de agregar valor, possa tomar conta dos goianos. É necessário incentivar determinadas áreas para isso. Trazer matérias-primas para transformá-las aqui. Já temos feito isso em algumas áreas e posso dizer que nossos exemplos são seguidos por alguns Estados.

“É preciso desconcentrar o PIB goiano”

Economista Everaldo Leite: “O setor público precisa continuar investindo em infraestrutura nas cidades-polo e entre as cidades-polo”

A receita para o crescimento e o desenvolvimento de Goiás, ensina o economista Everaldo Leite, depende de investimentos públicos e privados a serem realizados no curto, médio e longo prazos. “O setor público precisa continuar investindo em infraestrutura nas cidades-polo e entre as cidades-polo, privilegiando uma rede econômica interna, que consiga unificar territorialmente o Centro-Sul com o Centro-Norte e possibilitar o crescimento das cadeias produtivas dentro de Goiás.”

Everaldo afirma que, no médio prazo, essa rede será essencial para ampliação do número de municípios na participação da formação do Produto Interno Bruto (PIB) goiano, que se encontra hoje muito concentrado — “uns 10 municípios são relevantes economicamente e os outros 236 municípios sobrevivem a duras penas”. Evidentemente, pontua, o futuro governo deve continuar a estimular o eixo Goiânia-Aná­po­lis-Br­a­sí­lia, a Região Metro­olitana de Goiânia e implementar políticas multidimensionais na Região do Entorno do Distrito Federal.

— Os incentivos, doravante, precisam focar fortemente a cadeia dos agronegócios, visto que o Estado possui uma atividade agropecuária bastante significativa e potencialidade natural extraordinária para impulsionar os setores da indústria e dos serviços vinculados a ela. Isso é importante, especialmente, em função da possibilidade de extinção dos incentivos fiscais e a consequente evasão de investimentos diversos para regiões onde estão os mercados consumidores.

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