Acredite: o bolsonarismo é mais velho (e maior) do que Bolsonaro

Uns dizem que a história tem movimento pendular; outros lembram que o mundo gira e volta ao mesmo lugar. O fato é que os “patriotas” das ruas hoje têm muito a ver com as origens da República

Palácio da Alvorada. Nem é tão alvorada assim quando o inquilino principal deixa o palácio para encarar o séquito de sempre. Lá no cercadinho dos fãs, encontra uma senhora fanática e aflita. Transcrição quase literal:

– Presidente, o sr. é o chefe da Nação, o sr. é o chefe das Forças Armadas. Por que deixa o povo sofrer assim, seus ministros sofrer, o sr. sofrer?

– Você passou 30 anos votando em quem?

– Hã?!

– Você passou 30 anos votando em que tipo de gente?

– (…)

– Calma lá, vamos com calma nesse negócio aí! Se quer ditadura, não é comigo!

– Eles ‘tão’ sangrando o povo, ‘tão’ sangrando o povo!

– (…)

– Quem não tá contente comigo tem Lula em 22!

– Todo mundo tá contente, muito contente! Não é eles que mandam não, presidente!

O encontro acaba por aí. Mas nos deixa uma amostra bem emblemática do mais indefectível bolsonarismo. Na imagem dos apoiadores, é quase como o contato com a razão de existir. Algo que vai muito além da política.

Mas o bolsonarismo é um fenômeno que já existia há muito mais tempo do que você provavelmente imagina – obviamente, não com essa nomenclatura. Compõe algo que pareceu – só mesmo pareceu – ter desencarnado há décadas passadas. Mas nada, estava lá, quietinho como um vírus fossilizado, e voltou batizado de outra forma.

Apoiadores de Bolsonaro se reúnem próximo a bandeira com a foto do presidente na manifestação de 15 de maio | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Na prática, esse comportamento político-social que hoje é chamado de bolsonarismo começou a ressurgir em 2013, ainda como algo bem esquisito e até engraçado à época. Em meio à série de pautas desconexas entre si naquelas chamadas “Jornadas de Junho”, começou a se imiscuir o autoritarismo, primeiramente com a defenestração de quem se apresentasse como militante de algum partido. Depois, os sintomas do fenômeno começaram a se agravar com cartazes e pequenas manifestações clamando pela volta do regime militar, uso e abuso dos símbolos pátrios, religiosidade direcionando ações, elogios a medidas de repressão (“bandido bom é bandido morto”, por exemplo) e outras pautas de uma direita radical.

Acredite, o bolsonarismo é bem anterior ao aparecimento de Jair Bolsonaro. Mais: o bolsonarismo é o “remake” de nossa própria história, como algo que a perpassa e se instala desde a origem da própria República.

O que não tinha era o nome pelo qual veio a ser conhecido, o “ismo” do sobrenome de seu principal representante, hoje, por acaso e acidente de percurso democrático, também presidente da República no meio de uma pandemia. Um período que, daqui a algum tempo histórico, será lembrado como a maior tragicomédia da política brasileira, em um enredo em que se fundiam o pastelão, o abusivo e o perverso.

Florianismo, o movimento precursor
Esse bolsonarismo que se envolve em uma capa atraente para muitos, em seu rótulo, e se vende como um pacote conservador, vem de mais de 130 anos atrás: nesse tempo, havia um movimento arraigado a valores morais da sociedade e da família, permeado pelos princípios religiosos, envolto de amor à Pátria e reverente ao militarismo. Era o pacote que levou o povo a aclamar Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, como o primeiro líder popular da era republicana brasileira. Um pacote que se chamava florianismo.

É isto: no nascedouro da República, um militar chegava ao poder em condições semelhantes à de Bolsonaro em 2018 – país em crise política, incertezas na economia e carência de líderes. No caso, sucedendo outro militar: como vice-presidente, Floriano assume depois da controversa renúncia de Deodoro da Fonseca, eleito após o governo provisório que comandava e do qual seu sucessor era ministro da Guerra (hoje equivalente ao Comando do Exército).

De origem humilde em Alagoas, um dos dez filhos de seus pais Manuel Peixoto e Ana Joaquina, Floriano foi criado pelo tio, o coronel do Exército José Vieira Peixoto, e fez carreira brilhante na instituição, notadamente na Guerra do Paraguai. Aqui, uma diferença clara em relação a Bolsonaro: ao contrário do “Mito”, ele é visto como um militar que honrou bravamente a farda que vestiu.

Mas, como o atual presidente, o marechal Floriano tinha grande empatia com parte da classe média da população e dos militares, especialmente do Exército. Esse relato aparece em estudos como o da professora Elisabete Leal, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em um artigo publicado, “Floriano Peixoto e seus Consagradores: Um Estudo sobre Cultura Cívica Republicana (1891-1894)”, ela escreve que “a propaganda florianista difundia a ideia de que o Marechal não estava só, tinha o ‘povo’ a seu lado. Isto é o que dava legitimidade à sua obra política e coletiva. Era [segundo o também historiador Lincoln de Abreu Penna] uma ‘relação dialética que se justificava porque Floriano Peixoto e florianistas se apropriavam reciprocamente’.”

Assim como a igreja – especialmente em sua versão pentecostal – tem um papel fundamental no apoio a Bolsonaro, uma denominação em especial cunhava os princípios morais do governo de Floriano: era a Igreja Positivista do Brasil (IPB). O positivismo se baseava nas ideias do filósofo francês Auguste Comte e se baseava na interpretação científica da realidade de tal forma a tornar isso um culto. A reverência dos positivistas àquelas que consideravam grandes figuras da história brasileira fez com que personagens como Tiradentes ganhassem um papel preponderante a partir dessa época. Ou seja: se hoje você tem folga em 21 de abril, agradeça aos positivistas.

Multidão registrada no funeral de Floriano Peixoto | Foto: Reprodução

Os florianistas, no entanto, não eram necessariamente positivistas. Aliás, é importante ressaltar, que eles, assim como os bolsonaristas, gostavam de tomar as ruas para expor seu ideário. As manifestações públicas dessa espécie de louvor a Floriano Peixoto se seguiram à morte dele, em 1895, seis meses depois de deixar a Presidência. Seu funeral foi o maior da história do Rio de Janeiro até então.

Dez anos depois, em 1904, militares florianistas e positivistas, como Lauro Sodré, que também era senador, protagonizariam uma tentativa de golpe durante a Revolta da Vacina. Coincidência com os tempos atuais ou não, havia uma grande discussão sobre imunização, contra a varíola – doença altamente contagiosa e mortal, hoje erradicada no mundo. O governo havia aprovado a obrigatoriedade  – contra a qual os políticos ligados ao florianismo se voltaram. Houve tumultos e militares, liderados por Sodré, tentaram um golpe, fracassado.

Como se vê, a República tem o gene do militarismo: se efetivou por um golpe protagonizado pelo Exército, com o apoio da classe empresarial e das elites carioca e paulista. A mistura entre religião, fardas e Pátria continuaria durante o transcorrer do século 20. A imagem mais icônica daqueles tempos foi a Marcha da Família, que, visando combater o comunismo, serviu de pretexto para o golpe de 1964.

Na lógica positivista há a crença em uma imortalidade subjetiva da alma. Segundo ela, os mortos continuam vivos por sua perpetuação no culto cívico de seu legado. Não por acaso, a máxima de Comte: “Os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos”.

Positivistas acreditavam na República, mas governada por uma liderança que julgassem sábia. Quiseram Benjamin Constant, mas tiveram Floriano Peixoto. Rechaçavam a democracia institucional e as eleições, justamente pelo fato de “substituírem” seu líder. Por isso, quando das eleições de 1894, tanto positivistas como florianistas esperaram do presidente a que veneravam um movimento no sentido de reagir ao pleito e ficar no poder. Ou seja, esperavam por um golpe que não veio. Floriano repassou a Presidência a Prudêncio de Morais. Preservou a democracia em vez de se deixar seduzir pela vaidade e pelo apego ao poder. Um bom lembrete, talvez inútil, para os tempos atuais.

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