A vacina sozinha é capaz de deter o coronavírus?

O que a experiência de países que confiaram unicamente na vacinação diz sobre as tentativas de conter a pandemia?

Foto: Reprodução

Na quinta-feira, 24, o Brasil recebeu a maior doação direta de vacinas contra a Covid-19 já anunciada. Foram três milhões de doses cedidas pelo governo dos Estados Unidos do imunizante Janssen. Além da chegada das novas doses, o dia 24 foi marcado por alta na média de doses aplicadas: pela primeira vez, o número médio ultrapassou a marca de um milhão de pessoas imunizadas diariamente. 

Atualmente, a taxa é de 1.074.543 doses aplicadas a cada 24 horas. Cerca de 32,3% da população brasileira recebeu pelo menos uma dose (68.465.736 de pessoas) e 11,8% já foi completamente imunizada com todas as doses necessárias. Esses números significam que o país está em 68º no ranking mundial de vacinas por habitantes e em 4º no ranking de total de vacinas aplicadas. Especialistas afirmam que o Sistema Único de Saúde (Sus), por meio do Programa Nacional de Imunização (PNI), tem capacidade de distribuir e aplicar ainda mais doses diariamente por todo o país, caso haja estoque de vacinas. 

A farmacêutica Johnson&Johnson é a produtora da vacina Janssen, imunizante de dose única e aprovado pela Anvisa para uso emergencial. A empresa Johnson&Johnson é associada à Amcham Brasil – câmara de comércio que facilita negócios entre Brasil e Estados Unidos. Deborah Vieitas, CEO da Amcham Brasil, afirmou a respeito do carregamento de vacinas que partiu de Fort Lauderdale, no estado americano da Flórida, com destino ao aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP):

“Recebemos com esperança renovada o anúncio da chegada dessas vacinas, que contribuirão para proteger as vidas de 3 milhões de brasileiros. Trata-se de um gesto nobre dos Estados Unidos que corrobora os nossos laços de parceria e simboliza o desejo americano de que o povo brasileiro consiga superar a pandemia.”

A doação de 3 milhões de doses destinadas ao Brasil se soma às quantidades anunciadas recentemente pelos Estados Unidos de distribuir 20 milhões de doses de vacinas a países da América Latina e Caribe, incluindo o Brasil, por meio do mecanismo Covax Facility, programa de compartilhamento de vacinas contra a Covid-19 coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Poréns 

Gran Torre Santiago, um dos cartões postais chilenos | Foto: Reprodução / Wikicommons

Os crescentes números da vacinação no Brasil se convertem na esperança de que a imunidade coletiva possa vir em breve, e que a razão de infecções do coronavírus (Sars-CoV-2) diminua. Entretanto, o cenário futuro pode não ser tão simples. 

O Chile, com 19 milhões de habitantes, tem a campanha de vacinação mais veloz da América Latina: tendo aplicado 20,1 milhões de doses, é o terceiro colocado no ranking de países que mais vacinaram em razão da população. 114 doses foram administradas para cada 100 pessoas. Isso significa que metade da população já recebeu duas doses e 14% já recebeu uma dose.

Ainda assim, o Chile foi vítima de um surto de coronavírus que começou em março que só diminuiu em maio e junho. No pior momento da pandemia, em abril deste ano, foram mais de 8.000 contágios diários e lotação dos leitos de UTI, apesar de 45% da população estar vacinada à época. 

Diversos fatores explicam os números decepcionantes. O país confia principalmente na vacina CoronaVac (que chamam de SinoVac). No Brasil, a vacina foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro com eficácia global verificada de 50,4%. De acordo com um levantamento feito pela Universidade do Chile em abril, a eficácia na prevenção do contágio entre quem recebeu as duas doses foi de 56,5%. Entre aqueles que tomaram apenas uma injeção, entretanto, a taxa caiu para apenas 3%.

A sensação de invulnerabilidade após a primeira dose é uma das explicações para o relaxamento dos chilenos com as medidas não-farmacológicas (uso de máscaras, higiene, distanciamento social). Outros fatores são: o aumento da circulação por pressão de setores da indústria e comércio; novas variantes; e pela fadiga com os 15 meses de restrições.

O Dr. Cesar Cortes, médico emergencista do hospital da Universidade do Chile, disse que as pessoas que ficaram em casa no ano passado agora têm mais medo de ficar sem trabalhar. “No ano passado havia baixa circulação e as medidas de confinamento eram mais eficazes porque as pessoas tinham medo de morrer”, disse. “Isso não está acontecendo agora.” Sem as vacinas, o Chile estaria muito pior, disse ele. “A situação complicada que estamos vendo agora seria catastrófica”, afirmou.

Ruas de Santiago voltaram a ser esvaziadas pelo lockdown no começo de junho de 2021 | Foto: Reprodução / EBC

O órgão regulador de saúde do Chile, o Instituto de Saúde Pública, publicou que o sequenciamento do genoma das infecções entre dezembro e junho confirmou que a variante gamma (P.1, cepa originada em Manaus, Brasil) era a mais prevalente no país e duas vezes mais contagiosa que a cepa original.  O Chile agora está embarcando na vacinação de adolescentes. Há duas semanas, introduziu green cards para conferir maior liberdade aos vacinados, em uma tentativa de encorajar os hesitantes a se prontificarem para a imunização.

“Cerca de 10% das pessoas, mesmo vacinadas, não estarão protegidas contra doenças graves. São centenas de milhares de pessoas indo para UTI ”, disse Cesar Cortes. “E quando nosso sistema de saúde é forçado ao limite como está agora, essa porcentagem por si só é suficiente para sobrecarregá-los.”

Michael Touchton, do Observatório para Contenção de Covid-19 da Universidade de Miami nas Américas, afirmou: “O país pode ter estado muito otimista após o lançamento da vacina e se abriu muito rapidamente, especialmente para viagens internas durante a temporada de férias de verão”. O Chile reabriu suas fronteiras em novembro de 2020, quando as infecções caíram do pico de junho para cerca de 1.400 casos por dia. O país também permitiu viagens domésticas durante a temporada de férias de dezembro a fevereiro deste ano, quando restaurantes, lojas e resorts de férias reabriram.

“No início da campanha de vacinação, havia uma mensagem do governo de que ‘as vacinas estão a caminho, então a pandemia vai acabar logo’. Todos pararam de se cuidar, pararam de usar máscaras e se juntaram a grandes multidões durante a temporada de férias”, disse Claudia Cortés, especialista em doenças infecciosas da Universidade do Chile.

Em artigo publicado no dia 20 de abril, Ennio Vivaldi, reitor da universidade, analisou os resultados da vacinação chilena e o aumento de novos casos de Covid-19. O reitor concluiu que até duas semanas após a segunda dose ser administrada, a vacina “não tem efeito significativo”. Ele acrescentou: “Temos que ter empatia, cuidar de nós mesmos, usar máscaras, seguir medidas de saúde e ficar em casa mesmo que tenhamos a vacina. Essa é a única maneira de sairmos da pandemia. ”

América Latina

Novas infecções por coronavírus seguem aumentando na Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela, disse a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em um comunicado à imprensa latinoamericana. A diretora da OPAS, Carissa Etienne, pediu aos governos que se concentrem em medidas de saúde pública para controlar a crise e não depender de vacinas. “Não posso deixar de enfatizar isso o suficiente: para a maioria dos países, as vacinas não vão impedir essa onda de pandemia”, disse ela.

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