A morte de Marielle escancara a hipocrisia de quem questiona a comoção

A quem interessa a despessoalização da morte da vereadora que representava os mais desprotegidos da sociedade em que atuava?

Marielle Franco, vereadora morta no Rio: tentativa de questionar a comoção é hipocrisia | Foto: Reprodução

A abordagem maldosamente polêmica sobre o papel dos direitos humanos voltou a recrudescer com a morte brutal de uma de suas maiores defensoras no Rio de Janeiro. Mas Marielle Franco, re­pre­sentante do PSOL na Câmara ca­rioca, era um nome nacionalmente desconhecido até a noite de quarta-feira, 14. Infelizmente, só ficou famosa “post mortem”, com quatro tiros na cabeça que obrigaram a realização de seu velório com caixão fechado. Antes de sua exe­cução, pouquíssimos haviam notado o trabalho de denúncia que, como vereadora, fazia contra as arbitrariedades que afetavam os menos favorecidos, os de sua origem – os preferidos pela foice da morte repentina que também a atingiu.

Assim, não teria como o tema “direitos humanos” deixar de chegar ao centro do debate: era a mor­te de uma mulher negra, com ori­gem na Favela da Maré – localidade que serviu de “palco” para uma espécie de prévia da atual in­ter­venção federal sob o controle das Forças Armadas – e que vinha fazendo alarde contra a matança de pessoas. Um incômodo que foi sua sentença.

Sim, com ela morreu também Anderson Pedro Gomes, seu mo­to­rista. E a ausência do nome dele dos dois primeiros parágrafos foi proposital. É que, se a dor pela morte pode ser igualmente desmedida – quem chorou mais, os familiares e amigos de Ma­riel­le ou os de Anderson? –, não se podem equalizar os papéis que as pessoas desempenham durante a vida.
Por isso soa descaradamente hipócrita que os críticos do socialismo – que, segundo esses, prega o fim do indivíduo – tentem “igualar” os dois mortos dentro daquele carro branco na noite da quarta-feira fatídica. Ou comparar os 60 mil assassinatos anuais à perda da vereadora Marielle Franco. A tática é questionar para despessoalizar: “por que a comoção só por ela, se tantos morrem?”.

Vamos a uma série de “porquês” da mesma forma, então?

Por que tanta lágrima por Ayrton Senna, será que não se lembram que também morreu aquele outro piloto [o austríaco Roland Ratzen­ber­ger] no mesmo fim de semana? Por que chorar pelos Mamonas As­sassinas enquanto morrem tantas pessoas em acidentes aéreos e nem são lembradas? Por que o ve­ló­rio de Tancredo Neves teve até mú­sica-tema, só porque seria presidente da República? Ou, como diria Zeca Camargo, por que tanto agito por um tal Cristiano Araújo que eu nem conhecia?

Afinal, por que aqueles que acreditam na força do mérito, no va­lor do sujeito, no “self-made man”, estariam agora coletivizando mor­tes? Ora, as mortes são iguais apenas para quem morre. O efeito de cada morte é diferente e vai da nulidade (por exemplo, alguém que se jogou da ponte e morreu indigente sem nunca ninguém reclamar seu corpo) à promoção de uma revolução. Foi o que ocorreu com Mohamed Bouazizi, o vendedor de frutas tunisiano que ateou fogo ao próprio corpo e, com isso, involuntariamente deu início à Primavera Árabe, que teve consequências radicais – e mesmo desastrosas – em vários países islâmicos da África e do Oriente Médio.

Do exagero à insuficiência
Às perguntas sobre um suposto exagero na comoção – que na verdade é muito mais indignação que qualquer outra coisa – se interpõem outras, sobre faltas e carências: quantos políticos há no Brasil que nasceram em uma favela? Quantas mulheres saídas de favelas estão na vida pública em câmaras e assembleias? E, dessas, quantas são negras com um mandato representativo em uma cidade grande? Talvez só sobrasse Marielle. Até quarta-feira. Agora, vem o questionamento reverso: qual é a proporção de negros e brancos na população brasileira e nas casas de governo e de leis? E nas favelas? Qual é a cor do poder? Qual é a cor do presídio?

Nesse sentido, a tentativa de querer “igualar mortes” é de um cinismo que só não é pleno porque há quem o dissemine por ignorância ou ingenuidade – até porque a doutrinação contra o pensamento de esquerda (e tudo o que possa parecer de esquerda, mesmo que não seja) é que está a pleno vapor no Brasil, e não o contrário. Alguns chegam a dizer que a vereadora Marielle Franco morreu pelas mãos dos bandidos que ela “defendia” e tem quem arrisque ter sido castigo divino por ela se atrever a se envolver com os “direitos humanos de vagabundos” (em tempo: os mais lunáticos, provavelmente inclinados também ao terraplanismo, creem que foi um atentado provocado por camaradas interessados em criar uma mártir; podem também não ser lunáticos, verificando-lhes o caráter).

Voltaire, Thomas Jefferson, Eleanor Roosevelt e todos os que deram vida e ideias para que fosse assegurado um piso único de dignidade às pessoas pelo mundo devem se revirar no túmulo quando se apresenta esse discurso construído no Brasil para definir os direitos humanos. Personificando-os – faltam apenas chamar de “o” Direitos Humanos –, fizeram deles o melhor amigo dos “bandidos”: “o” Direitos Humanos” se tornou um “facilitador de crimes”, um “acobertador de traficantes”, um “impedidor do cumprimento da lei”, um “fazedor de impunidades”.

Será preciso realmente retomar o que preconiza a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o que determina a Constituição Federal logo em seu início – de modo especial no Artigo 5º. Seria preciso não a volta de uma disciplina como Educação Moral e Cívica aos currículos, como já se ensaia, mas a catequização das populações estudantis com a Carta Magna. É dentro dela que estão os direitos humanos. Sua aplicação – e não sua personificação burra – é o que poderia assegurar a paz social que o Brasil precisa.

Um passeio pela trilogia formada por “Casa-Grande & Senzala” (Gilberto Freyre), “Raízes do Brasil” (Sérgio Buarque de Holan­da) e “Formação do Brasil Con­temporâneo” (Caio Prado Jr.) também poderia ampliar a visão embaçada de alguns sobre as causas do momento atual e do que chamam de “tentativa de dividir” os brasileiros – como não se vivessem no País que ainda mantém o elevador de serviço e o quarto da empregada como instituições.

Por isso tudo, a vida da vereadora do PSOL não valia nem poderia valer mais do que a de ninguém. Mas sua morte, por tudo o que representa, precisa, sim, valer muito mais do que qualquer outra, até pelo momento que o País atravessa. Sua curta trajetória e sua vida pública mais curta ainda estiveram a serviço da verdade e da defesa do Estado democrático de Direito. Ao contrário do que querem insinuar seus detratores ideológicos – desde o sub-reptício Movimento Brasil Livre (MBL) às declarações de uma desembargadora e um deputado federal, entre outros –, Marielle era transparente e não fazia acepção de pessoas ser procurada, como relataram a mãe de um policial assassinado e um respeitado coronel da PM do Rio, que fizeram sua defesa. Ela não “defendia” bandido nem policial: defendia pessoas de um estado de exceção que, infelizmente, abre cada vez mais suas asas obscuras sobre o Brasil

Tudo o que o Brasil precisa é de que as gentes de todas as ideologias se portem como Marielle Franco diante da plataforma dos direitos humanos. Ela foi um símbolo de uma luta não só importante, mas fundamental. Ela se comovia e se indignava contra esses 60 mil assassinatos por ano que todo mundo cita, mas ignora até que algo triste assim ocorra com alguém próximo. Por isso, é justa a comoção/indignação. O resto é só má-fé e hipocrisia guiando a ignorância em rede social.

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Luciano Almeida

?????

Adalberto de Queiroz

Mesmo discordando do argumento central, admito que o texto tem brilho próprio .

Denise Miguel

Isso…. ???excelente releitura