9 em cada 10 eleitores goianienses não definem seus candidatos pelo gênero

Levantamento demonstra percepção machista sobre a política, entretanto, eleitorado da capital guarda espaço para votos femininos

A conquista feminina de votar e ser votado completa 90 anos no próximo dia 24 de fevereiro. O fim legal do feudo masculino na política veio com o Código Eleitoral assinado pelo presidente Getúlio Vargas. Entretanto, o que está na lei não se reflete em palanques ou nas posições representativas. 

Minoria entre as opções nas urnas, as mulheres representam 52,5% do eleitorado do país. Mas quando se fala em posições de comando, esse índice cai drasticamente. Exemplo é o comando feminino de cargos Executivos estaduais. Apenas oito foram eleitas governadoras no Brasil. A primeira foi há 28 anos, quando Roseana Sarney venceu no Maranhão. O avanço é a passos miúdos. O país tem hoje apenas Fátima Bezerra (PT) à frente de dum governo estadual –  ela é governadora de Rio Grande do Norte. 

Falar em representatividade feminina se tratando de presidência reduz ainda mais a participação. A única mulher eleita foi Dilma Rousseff (PT) e neste ano, no atual cenário, apenas Simone Tebet (MDB) é pré-candidata.

A taxa de representação feminina no Congresso brasileiro não chega nem a metade da média dos outros países da América Latina e do Caribe. Por aqui, elas são apenas 15% dos parlamentares. Na Câmara, as mulheres ocupam somente 77 das 513 cadeiras. Dos 81 senadores eleitos em 2018 no Brasil, apenas 12 são mulheres.

É possível ver esse panorama mais de perto. Em Goiás, nas eleições de 2020, as mulheres foram vitoriosas em 34 cidades. Em 2016 esse número foi  32 e em 2012 foram apenas 25. Levando-se em conta que 52,3% do eleitorado goiano é feminino, a conclusão é de que ainda há um longo caminho a percorrer para elas conseguirem ter sua representação garantida. 

Na Câmara Municipal de Goiânia são ao todo 35 vereadores. Apenas cinco são mulheres: Aava Santiago (PSDB), Gabriela Rodart (DC), Léia Klébia (PSC), Lucíula do Recanto (PSD e Sabrina Garcez (PSD). Na Assembleia Legislativa de Goiás, em meio a 41 deputados estaduais, a representatividade feminina está a cargo apenas de Delegada Adriana Accorsi (PT) e Lêda Borges (PSDB).

Pesquisa

Uma pesquisa encomendada pelo PSD Mulher, e executada pela Santa Dica pesquisas de opinião e mercado, mostra que o eleitorado goianiense se diz disposto a votar em mulheres. Segundo o levantamento, 9 em cada 10 goianienses não definem seus candidatos pelo gênero. Ao todo, 91% dos 614 entrevistados disseram que não utilizam o sexo cono critério na hora da escolha na urna, contra 5,9% que dizem escolher o candidato conforme seu gênero. 3,1% não avaliou. 

O levantamento demonstra que o perfil do eleitorado que menos se baseia no gênero do candidato para definir o voto é feminino, com menos de 30 anos, renda entre 3 e 6 salários e com alinhamento político como sendo de Centro. 

Os 5,9% de eleitores que afirmam que sexto interfere na escolha do candidato, foram questionados se a preferência seria por políticos homens ou mulheres. Este grupo se dividiu. 44% escolhem homens. 41,7% preferem candidatas mulheres. 

Eleitores que se declaram de esquerda tem maior preferência pelas candidatas mulheres – 57,1% votam nelas. Quem se identifica com a direita tem maior tendência em escolher homens – 60% optam por eles.

A pesquisa também traz um extrato entre os eleitores e suas religiões. Os evangélicos se dizem mais confortáveis em escolher candidatos homens (64%). Já entre os católicos há um equilíbrio –  35% votam em homens e 42% preferem as mulheres. 

O levantamento ainda abordou o histórico  do eleitorado em relação as suas opções eleitorais quanto ao gênero. Os entrevistados foram questionados se já votou alguma vez em mulheres. Entre os entrevistados 35,3% disseram que nunca votou em candidatas femininas. Esse percentual cai para 31% entre o eleitorado feminino. Já entre apenas entre o eleitorado masculino esse índice sobe para 40,2%. 

A paridade de gênero é uma questão em pauta para a reforma política eleitoral, em razão disso, os entrevistados foram questionados se sobre a proposta de reservar metade das candidaturas para as mulheres. Para 14,3% a proposta não deve avançar. Entre os homens, 70% apoiam a ideia. O percentual cresce entre as mulheres – 83,%.

O pesquisador Kaumer do Nascimento explica que o levantamento mostrou que há um grande potencial em Goiânia para candidaturas femininas, mas que embora exista esse espaço, o eleitorado tem sentido falta de uma liderança. “As mulheres que se pré-dispõe a serem candidatas a deputada federal vai encontrar espaço em Goiânia. É preciso alinhar o discurso com o eleitorado. Esses eleitores estão carentes, querem escolher, mas não estão encontrando lideranças”, diz. 

Na opinião do pesquisador, o levantamento também mostra que as mulheres têm conseguido avançar na política, embora de forma lenta, a população tem cada dia mais assimilado a necessidade da representatividade feminina em posições-chave. “A pesquisa demonstra qual o público está mais propenso agora a votar em mulher e onde ela já tem maiores oportunidades. Percebemos que isso é mais recorrente entre jovens, e elas podem ganhar mais espaço eleição após eleição”, diz Kaumer. “Estamos em um momento pré-eleitoral em que ainda podem surgir essas lideranças com chances de conquistar esse eleitorado que é favorável a eleição das mulheres. Há forte potencial”, completa.

A pesquisa foi feita a pedido do PSD, que é presidido em Goiás por Vilmar Rocha. Na opinião do líder partidário, o levantamento tem o foco de demonstrar para as mulheres que há espaços para candidaturas femininas. “O PSD há muito estabeleceu diretrizes para apoiar e incentivar para a mulher na política. Sabemos haver espaços, como a pesquisa demonstra, e isso será feito de forma concreta”, avalia. 

Segundo Vilmar Rocha, o levantamento vai ser usado como base para estruturar as candidaturas de mulheres em chapas que o PSD está montando para assembleia Legislativa de Goiás e para a Câmara Federal. “Estamos usando esses dados para estimular candidaturas de mulheres em Goiânia e no interior”, diz. 

Sobre a pesquisa, Kaumer explica haver um cuidado com a amostragem não levantamento. “Goiânia tem perfis distintos, é preciso ter um cuidado na distribuição amostral para não ter viés na pesquisa. Se eu ouço mais pessoas da região oeste em detrimento da região leste, vou ter um erro. Também não poderia entrevistar mais homens, sendo que o eleitorado feminino é maior. Além disse é preciso fazer uma distribuição por faixa etária. Tudo foi feito de forma equilibrada”. O levantamento foi feito com pessoas com mais de 16 anos, entre os dias 30 de novembro e 5 de dezembro de 2021. Tem margem de erro de 4 pontos percentuais. 

Percepção feminina

O deficit representativo na democracia, sem camadas diversas nos espaços decisórios, é resultado da falta de políticas públicas que busquem reduzir a desigualdade. O modelo acaba se perpetuando porque as composições dos legislativos e executivos facilita agendas conservadoras e a aprovação de reformas que prejudicam o setor mais vulnerável.

“Se analisar a quantidade de candidatos homens e mulheres vamos ter uma discrepância enorme. Tem chapas que não conseguem garantir os 30% de mulheres estabelecido em lei”, expõe a vereadora Sabrina Garcez. “Óbvio que se tem mais homens candidatos, há mais opção masculina para o eleitorado. Com isso as mulheres têm suas chances diminuídas já no início do processo”, completa. 

A democracia depende da existência de um padrão de igualdade entre os cidadãos. Caso contrário haverá uma influência desproporcional sobre aqueles que se encontram em posição de governo. Entretanto, por ser um problema histórico, a percepção das mulheres que estão na política é de que os avanços são lentos. “Historicamente temos problemas para entrar na política. Há tripla e até quarta jornada das mulheres. Mulheres tem o tempo reduzido para se dedicar a movimentos partidários. A falta de mulheres nas estruturas partidárias com papel de definir candidaturas e distribuição de recursos também é problema. A aposta e investimento em candidatura de mulheres é uma barreira”, lembra a parlamentar.

Ambiente hostil

Durante uma sessão ordinária na Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia, a vereadora Camila Rosa (PSD) teve o microfone cortado a pedido do presidente da Casa, André Fortaleza (MDB). A situação aconteceu durante uma discussão entre os parlamentares a respeito de cotas de gênero. 

“Merecia um tiro na cara”. Essa foi a fala do deputado estadual Amauri Ribeiro (Patriota) em um discurso de intimidação contra a vereadora Luciola do Recanto (PSD)

Dois casos recentes que ilustram bem como a política ainda é um ambiente machista e hostil para as mulheres. Existem diversos aspectos da violência política de gênero — entendida como toda e qualquer atitude que visa dificultar, constranger, intimidar, desqualificar, obstaculizar e até impedir mulheres de ocuparem espaços de poder e de decisão. 

O resultado dessa hostilidade está expresso na baixa representatividade já apontada neste texto. Depois de anos de luta para ter direito a voto e depois a ocupar espaços, as mulheres, que representam metade do eleitorado, são minoria nos espaços de poder. Os motivos dessa discrepância residem, em grande parte, na violência política de gênero.

“O machismo está agonizando. Está esperneando. Mas a mudança está ocorrendo. Infelizmente não acontece de uma hora para outra”, aponta Vilmar Rocha.

Mudanças

No ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou o novo Código Eleitoral, que tem sua vigência a partir da eleição deste ano. O texto traz cinco proposições com mudanças na legislação eleitoral e partidária. Entre elas, uma contagem em dobro, exclusivamente para fins de distribuição entre os partidos dos recursos dos fundos eleitoral e partidário dos votos dados às candidatas mulheres ou a candidatos negros para a Câmara dos Deputados.

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