“50 Tons de Cinza”: a desorientação de homens e mulheres diante da liberdade sexual

O sucesso de venda e bilheteria de uma obra tão clichê prova: a sexualidade masculina e a feminina mudaram ao sair de sua posição tradicional, mas se perderam no meio do caminho

Ana e seu sr. Grey: a história do conto de fadas que causa frisson por causa do apelo sexual | Foto: Reprodução/Universal Pictures

Ana e seu sr. Grey: a história do conto de fadas que causa frisson por causa do apelo sexual | Foto: Reprodução/Universal Pictures

Elder Dias

Se o dito “falem mal, mas falem de mim” fosse destinado a um filme, certamente “50 Tons de Cinza” estaria no centro da mira. Mais de dois anos depois de o livro homônimo se tornar um estrondoso best-seller, o lançamento de sua versão cinematográfica movimentou tanto salas de cinema como redes sociais em torno do tema: uma versão para a telona conduzida por uma mulher (a diretora Sam Taylor-Johnson) para uma obra escrita por outra (a também inglesa E. L. James), com o tema sadomasoquismo na berlinda.

Tanto o livro quanto o filme são “sub” em seus gêneros. Mas não têm a menor pretensão artística; pelo contrário, são descaradamente comerciais. Ocorre que, até para se tornarem fenômeno nesse quesito, precisam ter algo de substancial que outras produções não alcançaram. É isso que o Jornal Opção foi buscar: o que houve de tão especial e que não tinha sido captado até então para que a odisseia do galã milionário e esquisitão Christian Grey se tornasse febre?

Um debate com a psicóloga Auriane Rissi, a jornalista Cássia Fernandes e a sommelier e colunista Edna Gomes, promovido na sede do jornal, foi a chave. De comum entre as três mulheres, o fato de serem independentes, conectadas e escritoras. Se não desvendou de todo o mistério, a conversa descontraída abriu muitas portas para entendê-lo. Com muitas risadas e um consenso: tanto o homem quanto a mulher de nosso tempo estão deslocados da zona de conforto e têm sede de se estabilizar. Enquanto isso, atraem e confundem. E são atraídos e confundidos.

mulheres

Cássia Fernandes: “Há intimidade sexual sem intimidade de alma”; Edna Gomes: “A mulher de hoje perdeu muito de sua feminilidade” | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Apesar de ser entremeado por um tema tão pesado como é o sadomasoquismo, “50 Tons de Cinza” não é um filme que basicamente moderniza o conto de fadas?

Edna Gomes – O personagem Christian Grey é basicamente um romântico, apesar de não admitir isso. Basta ver o que ele promove para a garota que conquista – viagem de helicóptero, jantar romântico, surpresas.

O que liga as mulheres a esse universo do filme? O que as faz ir assisti-lo? Não é exatamente essa proximidade com o conto de fadas?

Auriane Rissi – Salta aos olhos, na preferência feminina, o fato de o filme ser excitante. A questão da dominação acaba em segundo plano. O fenômeno, para as mulheres, é poder abordar algo que havia em teoria e não “na prática” nas salas de cinema. Pornografia para mulher não ocorre explicitamente. Existem revistas masculinas e voltadas ao público gay, mas voltada exclusivamente à mulher, não. Hoje há dados estatísticos a respeito do livro e do filme que causam uma transformação nesse universo feminino. É fato, não achismo. O filme excita a mulher, é um pornô-mulher.

Cássia Fernandes – É um pornô-mommy, um pornô leve, para mães, mulheres casadas, para divertir quem está com a vida conjugal talvez um pouco tediosa.

Edna Gomes – Uma versão picante de um romance de Cinderela.

Auriane Rissi – Conversei com várias mulheres, até fazendo uma minienquete. Senhoras que queriam viver a Ana [Anastasia Steele, a protagonista], que queriam que o marido fosse o Christian. Isso no universo íntimo é produtivo.

Cássia Fernandes – Mulheres cansadas daquele marido de calção no domingo, depois de ter tomado cerveja o dia inteiro assistindo futebol. (risos)

Mas o que leva a mulher ao cinema? O que a faz sair de sua rotina não é mais a carência do romance conjugal do que ir ver um filme pornô-soft?

Cássia Fernandes – Não sei o que exatamente levou essas mulheres a assistir ao filme. Os comentários que ouvi falam em “pornozinho fraco”, feito para quem está levando uma vida um tanto tediosa. Então, não é um pornô para quem está “na selva”, para quem vive suas aventuras como solteiro. Antes de ver o filme — ressalto que não li o livro — havia essa conversa de “ah, é um cara lindo e rico que faz uma moça submissa a suas fantasias de dominação”. Isso não me animou, porque ouço relatos muito mais picantes de meu sobrinho de 20 anos. Também não se pode dizer que, como literatura, a mulher não teve a expressão de seu erotismo. Teve, mas isso é pouco conhecido. Por exemplo, temos Anaïs Nin [escritora francesa], com “Delta de Vênus”. Tenho um livro, chamado “Erotica Universalis”, que tem imagens de sexo registradas desde a idade das cavernas, passando por todos os períodos da história da humanidade. São gravuras, esculturas, pinturas. Lá se mostram dominação, sadomasoquismo, sexo grupal. Um livro para ficar escondido no fundo da estante. (risos)

Edna Gomes – O que esse filme faz de melhor é trazer exatamente esse encorajamento das mulheres.

Auriane Rissi – Ana é uma mulher possível. É bonita, mas sem autoestima. Ela acaba por causar um espelhamento gigantesco nas mulheres, que se percebem nela — sendo “possível” como tantas, desperta assim um tal sentimento naquele Sr. Perfeito que, excetuando-se sua parte dominadora, é um estereótipo da perfeição.

Sim, um homem riquíssimo, poderoso, bonito, inteligente…

Cássia Fernandes – E toca piano, é um príncipe. (risos gerais)

Parece é que, apesar de ele se proclamar dominador, é ele quem a satisfaz. Um homem que agrada a mulher, que quer lhe dar prazer.

Edna Gomes – É como ele mesmo diz no filme, “não quero fazer amor, eu quero f…”. Isso atiça a fantasia.

Auriane Rissi – E ela, virgem, é deflorada de uma maneira mágica.

Cássia Fernandes — Mas é um clichê. Eu não imaginava assistir a um “conto de f…” (risos), pelo que já tinham comentado, mas também não esperava que fosse um conto de fada. E é um conto de fada, uma comédia romântica. Anotei alguns pontos clichês de sensualidade do filme: lápis na boca escrito “Grey”, mordida nos lábios, a timidez e a pureza da garota, a arrogância do homem, um desmaio dela, o lenço que ele lhe oferece. Ele a “salva” e a “alimenta”. A combinação de jovem estudante de jornalismo com executivo bem-sucedido que se encontram em uma entrevista também já é bem utilizada. E ele então a leva para passear de helicóptero e, mais ainda, é o piloto!

E também por aí mexe com a fantasia da mulher, o que mantém o clichê. Difícil uma mulher que não goste de um piloto ou um bombeiro.

Cássia Fernandes – (risos) Sim, a farda é um fetiche, a mulher tem uma tara ancestral por fardas. (risos)

E o terno, é algo que vocês considerariam como uma espécie de farda?

Cássia Fernandes – Com certeza. É o lugar que ele ocupa. Na trama há também elementos literários que se entrelaçam. Como na hora em que ele pergunta a ela por que resolveu fazer o curso de Literatura Inglesa, se foi por Charlotte Brontë, Jane Austen ou Thomas Hardy. Ela responde que foi por Hardy e ele diz “engraçado, pensei que fosse por causa de Austen”. O que Jane Austen escreve? Histórias de amor bem sucedidas. O herói de “Orgulho e Preconceito” é o sr. Darcy, que tem o mesmo perfil de Christian Grey: é muito rico, orgulhoso e arrogante, com fama de mau coração, mas que faz caridade. A personagem feminina, Elizabeth Bennet, se apaixona por ele. É bem “Jane Austen”, a trama. Um amigo ator diz, com propriedade, que esse filme não leva a lugar nenhum. E explica: você sabe que é uma comédia romântica, mas ele acaba com um desfecho infeliz. Assim, não é nem um conto de f… também.

Edna Gomes – Na verdade, um filme como “9½ Semanas de Amor”  [de 1986, com Mickey Rourke e Kim Basinger] é muito mais pesado do que esse, penso eu. E é bem menos romântico, basicamente só sexo, ao contrário de “50 Tons de Cinza”.

Auriane Rissi – Em “50 Tons de Cinza” os personagens são muito caricatos: o Sr. Perfeito e a mocinha sonsa. Há muito machismo também rolando nas redes sociais por algo que não corresponde ao que mostra o filme. Os desavisados veem coisas que não existem no filme, talvez por pegar ganchos em alguns comentários.

Cássia Fernandes – Há alguns que dizem “ah, queria ver se ele fosse pobre”. Eu já acho que estão por fora do que está acontecendo no mundo. Como estou na vida de solteira (risos), vejo muita coisa e me contam muitas histórias. Gente, esse mundo é uma selva! Essa coisa de “dar um tapinha” já está nos funks há tempos, como naquele de “um tapinha não dói”. Coisas como ménage à trois, frequentar clubes de swing, sexo grupal, isso tem sido muito mais comum no universo dos solteiros do que a gente imagina. Há um monte de sr. Grey por aí, não tão ricos nem tão bonitos, mas que estão a fim de sexo sem envolvimento. Há intimidade sexual sem intimidade de alma, não deixam encostar nos sentimentos. Mas a nudez do corpo está muito difundida. Vivemos “o amor nos tempos de cópula”, como já escrevi. Querem ter a nudez do corpo, mas não da alma. Mulheres reclamam que os homens só querem transar. Eu tenho uma explicação: dizem que mulher dava sexo para ter amor e homem dava amor para ter sexo. Quando ela passa a fazer isso simplesmente para ter prazer, muitos homens aproveitam para ter uma mulher a cada dia. Não precisam mais cativar, seduzir. O que Ana faz com Grey, como diferencial, é querer a retribuição: se você não me der amor, eu também não vou dar sexo.

Auriane Rissi — É uma linha fantástica de raciocínio. A conquista está em extinção, tudo está muito pronto: tipo “Vamos? Vamos!”. Ninguém se esforça. Apesar de o sr. Grey querer trazer Ana para seu próprio universo de prazer, ele tem um lado de cuidado, de proteção com ela. Isso é muito afeito ao feminino, mesmo com toda a revolução que houve, com Simone de Beauvoir e seu “segundo sexo”, minissaia, pílula e tudo o mais. A mulher ainda nutre essas questões.

Cássia Fernandes – As mulheres querem sexo, mas continuam em perseguição ao amor. Até dizem fazer sexo por sexo, mas isso é uma mentira.

Mas do lado do homem também é uma mentira, porque o sexo pelo sexo é uma fuga, ou uma demonstração de poder para outro homem do bando. Beber, conquistar, fazer sexo, tudo isso faz parte de um papel. Mas uma hora ele se vê velho, sozinho, dependente dessa imagem e acaba adoecendo de alguma forma.

Auriane Rissi – O macho está perdido diante dessa nova fêmea. Está perdido desde a revolução feminina. Basta ver o que ocorre no filme. Até que ponto o sr. Grey consegue ser o dominador? O homem continua machista. Ele diz para ela que não o toque; em resposta, ela diz, “ok, então você não terá sexo”.

Edna Gomes – No filme, ele dá prazer a ela. Na vida real, homem costuma não sair do convencional, tem muita dificuldade para coisas novas.

Vou fazer o “jogo do contra”. Essa mulher moderna também não está perdida? O que me parece é que houve um deslocamento dos dois papéis e ambos, homem e mulher, estão fora de lugar. Essa talvez não é a mensagem mais importante do filme?

Edna Gomes — A mulher de hoje perdeu muito de sua feminilidade, de sua elegância, de seu romantismo. Essa liberdade que ela conquistou a fez perder muito sua forma de olhar o homem, de se relacionar. Está tão igual que não consegue perceber seu parceiro. Então, está se perdendo.

Cássia Fernandes – A mulher acaba não sabendo como se comportar. Dizem que ela tem de ser uma dama na sala e uma prostituta na cama. Os versos de Múcio Góes [poeta] dizem isso: “Dona de uma fineza absoluta/ Na sala, Sartre; na cama, Sutra.” (risos) Isso tem uma versão minha, que é a seguinte: “Antes de despir Sherazade, um Pablo Neruda; depois de desnuda, um Marquês de Sade” (risadas e aplausos). A mulher realmente também está perdida: gosta de sexo, mas como conquistar o homem? Tem de ser sensual? Como é esse “sensual”? Uma “cachorra”? Devo transar na primeira noite, se eu estiver a fim? São dilemas antigos, em que o homem também acaba se envolvendo. A mulher pensa então “com o homem que eu quiser namorar tenho de ser mais difícil; aquele que não me interessa, com este posso ser mais fácil”. A cabeça da mulher é mais complexa do que pensa o homem, não é porque ela transou de primeira que ela não precise ser conquistada, por exemplo.

Auriane Rissi – Aí a mulher transfere algo para o outro que é de sua responsabilidade. Deixar gostinho de “quero mais” faz a coisa evoluir naturalmente, desde que o outro não seja um quadrado. No filme, há algo muito interessante: a intimidade. Hoje, casados há anos ou décadas não consegue a intimidade que eles conseguem em poucos dias. A Ana do filme é tão transparente que não dá para saber se é sonsa ou dissimulada.

A Ana de “50 Tons” não é uma mulher simples e, creio, não tem nada de sonsa. Não é a mulher antiga nem a moderna, mas uma junção das duas. Ela é virgem, mas também muito centrada. Decide a hora de se conectar, de reconectar ou de parar.

Edna Gomes – Até mesmo quando ela parece se submeter, ela “quebra” o seu pretenso dominador, chamando-o de mandão, de chato, de arrogante.

Sabemos que o filme não é uma obra de arte, nem feito para ganhar Oscar. Que avaliação final fazer dele, dentro da proposta que encerra?

Edna Gomes – É um filme de muita leveza, apesar da temática. Se alguém quer filme pornográfico, que vá à locadora. A direção foi muito feliz, provocou o romantismo e não esqueceu o prazer, com um “sado” leve. E a trilha sonora é belíssima.

Cássia Fernandes – Eu acho que as pessoas interessadas deveriam aproveitar “50 Tons de Cinza” para se introduzir em obras mais densas: “Contos Proibidos do Marquês de Sade” [dirigido por Philip Kaufman], “Lua de Fel” [filme de Roman Polanski], “Delta de Vênus” [adaptado do livro de Anaïs Nin ao cinema por Zalman King], “Henry & June” [filme de Philip Kaufman, do livro de Anaïs Nin]. A literatura que “50 Tons” tem é na verdade uma subliteratura, comercial. Agora saíram “50 Tons” de tudo quanto é coisa. Mas é preciso avançar no tema também com livros que são lindos, fortes e altamente eróticos, apesar de não terem sido escritos por mulheres. É o caso de “O Amante de Lady Chatterley”, de D. H. Lawrence — que é excepcional de tão erótico — e o já citado “Delta de Vênus”.

Auriane Rissi – Eu também citaria “Travessuras da Menina Má” [Prêmio Nobel de Literatura de 2010], de Mario Vargas Llosa, tem cenas nele que excitam muito mais. Eu o li simultaneamente a “50 Tons de Cinza” e fiquei pensando que essa mulher [a escritora E. L. James] tinha de ter lido Vargas Llosa, para saber o que é realmente literatura desse nível.

Cássia Fernandes — O que fica, como observação, é a carência de literatura e cinematografia erótica feminina, com a perspectiva da mulher.

Auriane Rissi – Se há algo que possa estimular a libido, que seja bem-vindo.

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Nice Rodrigues Silveira

Adorei sobretudo as suas perguntas, Elder, muito inteligentes e instigantes. Essas mulheres são fascinantes no modo de se expressarem, sobretudo Auriane e Cássia.Amei!!! E vou indicar

tatiana potrich

Penso que “50 TONS…” está para as balzaquianas, assim como “A Saga Crepúsculo” está para as adolescentes. Não sei se concordo com a Cassia sobre esse lance do status financeiro não contar, bom lembrar que o vampirão também era lindo e riquíssimo. Na minha opinião, esse negócio de “só um tapinha não dói” é só em música (e será que isso é música?!). Fizeram até um trocadilho: quando mulher apanha é “Maria da Penha”, quando homem bate é “50 tons de cinza”, vai vendo. Elder, pra botar pilha na discussão, encaminho um texto formidável: http://www.revistabula.com/1520-todo-charme-simpatia-e-burrice-da-mulher-brasileira/

Malu

REALMENTE A MULHER NÃO COSTUMA FALAR DESSE TIPO DE TEMA, É UM TABU, MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE POR LER UM LIVRO OU VER UM FILME, TEMOS QUE PRATICA-LO. GOSTO DA HISTORIA, MAS O EROTISMO EXAGERADO ME INCOMODA.