5 ideias para melhorar a saúde em Goiânia

Médicos, gestores de cooperativas e ex-diretores de hospitais apontam principais problemas do setor na capital e caminho para corrigi-los

Devido à pandemia, a saúde está atualmente no topo da lista de preocupações da população. O sentimento reverbera entre candidatos a prefeito, que colocam o tema como prioritário em suas campanhas. O Jornal Opção ouviu médicos, gestores de cooperativas e ex-diretores de hospitais para descobrir quais são – em suas opiniões – os principais problemas da saúde pública na capital e qual seria o caminho para resolvê-los no âmbito do município de forma simples ou sem custos.

Plano de Carreira

Para o médico Boaventura Braz de Queiroz, referência em infectologia no Estado, o principal problema é a desvalorização das carreiras da área da saúde no setor público. Médicos, enfermeiros e demais profissionais não enxergam mais o atendimento da população como uma opção profissional pela falta de certeza de que estarão empregados. Ao contrário, passaram a encarar plantões e atendimentos em postos de saúde como “bicos” provisórios.

Alano Queiroz, diretor da Unimed Goiânia, explica que essa transformação aconteceu com a tomada da gestão da saúde por Organizações Sociais. “As OSs optam por cortar custos em recursos humanos contratando pessoas jurídicas”, complementa Alano Queiroz.

Para corrigir este problema, bastaria que o prefeito exigisse que as Organizações Sociais firmassem contratos com empregados segundo normas da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. “Basta o gestor colocar no contrato que recursos humanos devem ter um contrato de trabalho formal. Isso não teria custo algum.” Como consequência, poderia-se esperar melhor qualidade da equipe de saúde, já que este recurso melhora com o tempo desde que haja a formação continuada.

Boaventura Braz de Queiroz afirma que os recursos humanos são a base de sustentação para todo sistema de saúde | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Boaventura afirma que os recursos humanos são a base de sustentação para todo sistema de saúde. “Enquanto não tivermos um projeto de carreira para o profissional progredir e poder apostar que terá um retorno no futuro trabalhando na saúde pública, vamos vivenciar a instabilidade. Veremos todos os finais de ano relatos de Centros de Atenção Integrada à Saúde (Cais) sem médicos para dar plantão, já que este trabalho é visto apenas como bico provisório.”

Farmácia Central

Segundo Alano, o município não tem controle ou conhecimento adequado de quantos insumos, medicamentos e equipamentos são comprados por unidades de saúde. “Um departamento de compra qualificado para lidar com informação poderia centralizar os dados para saber quanto cada posto de saúde possui em estoque. Desta forma se evitaria o vencimento de medicamentos, a falta de produtos e compras desnecessárias”, descreve o diretor da Unimed.

Concorda com a proposta o médico obstetra Laerte Guedes: “Não há controle centralizado de diagnósticos, tratamento, exames ou condições de trabalho. Nós precisamos uniformizar os protocolos”. O profissional afirma que é necessário o uso racional, orientado pela ciência, dos recursos. “Precisamos de programas e coordenações centralizadas orientados pela academia. Em todo o mundo é a ciência quem indica o melhor protocolo a ser seguido. Por que aqui cada procedimento é feito de uma forma, a depender do prestígio do médico responsável, como se disputássemos títulos de nobreza?”

Maiores horários de atendimento

De acordo com Alano, já existe projeto do governo federal para ampliar o horário de atendimento dos postos de saúde. Seria uma medida sem grandes custos ao município e traria alto retorno, afirma o diretor da Unimed Goiânia. “Os postos de saúde acabariam atendendo pessoas em suas próprias regiões sem a necessidade de ir à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou ao Cais. Assim, até 40% dos atendimentos de urgência feitos em UPAs e Cais seriam redirecionados aos postinhos de saúde, o que reduziria as filas, a superlotação e a sobrecarga sobre a equipe médica”, afirma.

Transparência

As solicitações de cirurgias e atendimentos eletivos feitos por médicos vão para as centrais de autorização das secretarias municipais de Saúde. Mesmo que o procedimento seja realizado em outra cidade, hospitais os realizam apenas quando o pedido já está autorizada no local de origem.

O processo tem defeitos, pois a fila de solicitações é muito maior do que a capacidade de autorização dos municípios, explica Alano. “Como resultado, o cidadão não sabe quando será operado, o que gera um transtorno gigantesco. Imagine não saber se fará uma cirurgia em uma semana ou em um ano! Precisamos dar celeridade e transparência para que o paciente possa acessar um site que lhe diga em que lugar na fila está.”

A posição obscura que se ocupa na fila de autorizações também levanta suspeitas sobre quem tem poder o suficiente para passar um paciente na frente de outro. Mais transparência sanaria dúvidas a respeito da integridade do processo.

Mutirão da saúde

O diretor da Unimed sugere aproveitar a ociosidade da estrutura física dos hospitais de Goiânia para realizar atendimentos públicos por meio de uma parceria público-privada. “Talvez o maior exemplo disso seja o que [o governador] João Doria (PSDB) fez em São Paulo. Foi eficiente para desafogar a fila de atendimentos acumulada.” A parceria entre iniciativa privada e sistema público poderia ocupar a estrutura física particular em horários alternativos, como a madrugada, para acelerar atendimentos da rede pública.

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