Goiás conta atualmente com 5.126. 435 eleitores, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Neste universo, há duas regiões que, juntas, somam quase metade do eleitorado goiano, sendo elas a Grande Goiânia e Região Metropolitana do Entorno do Distrito Federal. A primeira conta com 20 municípios fora a capital, sendo eles: Abadia de Goiás, Aparecida de Goiânia, Bela Vista de Goiás, Bonfinópolis, Brazabrantes, Caldazinha, Caturaí, Goianápolis, Goianira, Guapó, HIdrolândia, Inhumas, Nerópolis, Nova Veneza, Santa Bárbara de Goiás, Santo Antônio de Goiás, Senador Canedo, Trindade e Terezópolis de Goiás, que totalizam 1.819.711 eleitores.

Já a segunda é formada pelas cidades de Águas Lindas de Goiás, Cidade Ocidental, Cocalzinho de Goiás, Cristalina, Formosa, Luziânia, Novo Gama, Padre Bernardo, Planaltina de Goiás, Santo Antônio do Descoberto e Valparaíso de Goiás, onde somam 731.201 eleitores. Para além de grandes conglomerados urbanos, as duas regiões se tornaram pilares estratégicos eleitorais para qualquer candidato que venha disputar as eleições deste ano. Em outras palavras, o postulante que conquistar a população dessas região sai vitorioso da disputa.

Para esmiuçar ainda mais a importância da Grande Goiânia e da Região Metropolitana do Distrito Federal, o Jornal Opção ouviu nomes com fortes ligações com essas regiões e traçar um panorama sobre história, presente e futuro e como elas, para além de números, podem ser decisivas para a vitória do próximo governador.

O presidente da Associação Goiana dos Municípios (AGM) e o prefeito de Hidrolândia, Zé Délio (UB), destaca que a Região Metropolitana de Goiânia e o Entorno do Distrito Federal consolidaram, ao longo dos anos, um protagonismo eleitoral decisivo em Goiás, impulsionado principalmente pelo crescimento populacional e pela migração.

“A região metropolitana hoje concentra o maior número de votos da história, enquanto o Entorno cresce de forma muito acelerada. Pela proximidade com Brasília, são cidades estratégicas, polos importantes que acabam influenciando diretamente o cenário político.”

Segundo ele, o avanço populacional está diretamente ligado à atração de migrantes em busca de oportunidades. “Goiás é um dos estados que mais recebe pessoas de outras regiões do país. Isso mostra a pujança econômica e o crescimento dos municípios. Naturalmente, onde há mais gente, há mais peso político.”

Zé Délio reconhece a relevância de outras regiões de Goiás, mas reforça que o fator decisivo nas eleições passa por esses dois eixos urbanos. “Todas as regiões são importantes, mas, do ponto de vista eleitoral, quem decide uma eleição hoje são o Entorno de Brasília e a Grande Goiânia.”

A vice-presidente da Federação Goiana dos Municípios (FGM) e prefeita de Rio Quente, Ana Paula de Oliveira, descreve a Região Metropolitana do Distrito Federal como “coração pulsante” de Goiás e a Grande Goiânia como o “principal polo econômico”.  “Enquanto a Grande Goiânia é o centro de serviços e indústria, essa região integrada ao DF é a nossa conexão direta com o centro das decisões nacionais. São regiões extremamente populosas que, juntas, ditam o ritmo do crescimento de Goiás”, explica.

Para ela, o desenvolvimento dessas regiões atua como um “cartão de visita” para qualquer político. “A densidade eleitoral é altíssima: depois da Região Metropolitana, a região integrada ao DF tem a segunda maior votação do Estado. O candidato que consegue entregar infraestrutura, segurança e saúde nessas localidades demonstra capacidade de gestão para o estado inteiro. O sucesso eleitoral está diretamente ligado à percepção de melhoria na qualidade de vida de quem vive nessas regiões”, pontua.

Ana Paula destaca ainda que é necessário se pensar cada vez mais em políticas públicas que levem ainda mais benefícios e renovem, a cada dia, o sentimento de pertencimento das pessoas que ali moram. “Como temos acompanhado nesta gestão. O eleitor acaba seguindo as convenções partidárias, mas busca, no fundo, alguém que resolva o pragmatismo do dia a dia, que esteja presente em ações e cuidados”, destaca.

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Ana Paula destaca que as duas regiões tendem a inclinar a balança eleitoral | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Senador Canedo como força eleitoral emergente

Uma das cidades que mais cresceu no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023, onde atingiu um índice de 84,32% superior aos resultados do estudo anterior realizado em 2010.

Para o prefeito da cidade, Fernando Pellozo (UB), o crescimento acelerado de Senador Canedo transformou o município em um dos principais polos eleitorais de Goiás, com impacto direto nas disputas majoritárias.

“Senador Canedo, além de ser a oitava maior cidade do Estado, é um dos maiores colégios eleitorais. A proximidade com Goiânia e esse boom de crescimento populacional e econômico qualificam a cidade para ter um peso importante nas decisões eleitorais. Hoje, Canedo alcançou protagonismo no processo político, influenciando escolhas como governador e deputados.”

Pellozo afirma que houve ainda uma mudança cultural dos eleitores, que têm se mostrado mais crítico e menos suscetível a promessas genéricas. “O crescimento não é só populacional, é também de mentalidade. O eleitor hoje está mais exigente, mais informado, principalmente por causa das redes sociais. Ele deixou de ser tão inocente. Não acredita mais em qualquer conversa ou promessa. Coloca na balança o que o candidato realmente pode entregar.”

Para o prefeito, os investimentos realizados nos últimos em diversas áreas, como o Social, Educação, Saúde e Segurança Pública – tidas como fatores decisivos em uma eleição -, estão sendo levados em consideração pelo eleitor, que tem demostrado cada vez um sentimento de continuidade dessas políticas públicas. É o famoso ditado: “Em time que se está ganhando, não se mexe”.

“O eleitor ficou mal acostumado com coisa boa. Hoje, ele não quer perder o nível de segurança que Goiás alcançou, nem os avanços na educação e no social. Isso virou um parâmetro. Existem momentos em que a mudança é necessária, mas agora o que a população quer é estabilidade, manter as conquistas e avançar a partir delas.”

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Fernando Pellozo destaca protagonismo de Senador Canedo nas eleições gerais | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Cidades pequenas sofreriam asfixia nas finanças sem ajuda do governo estadual

O presidente da AGM destaca ainda um fato importante: a contribuição do governo estadual para ajudar alguns municípios, principalmente os menores, a não entrarem em colapso financeiro.

“Os municípios estão perdendo arrecadação, principalmente com mudanças tributárias e isenções. Ao mesmo tempo, aumentam as despesas, com pisos salariais e responsabilidades em áreas como saúde e educação. Hoje muitos municípios só conseguem realizar obras e investimentos por causa do suporte do Estado, com programas sociais, habitação, recapeamento e apoio à zona rural. Sem isso, muitos conseguiriam apenas pagar a folha.”

Zé Délio corrobora com o Fernando Pellozo e destaca que o sentimento da população é que o avanço sentido na prática continue, sem qualquer tipo de intervenção radical que possa levar a uma paralisação ou atraso das assistências já prestadas.

“Sou defensor da continuidade de um governo que deu certo. Os municípios só estão conseguindo avançar graças ao apoio do Estado, que leva obras e benefícios para todas as cidades. Visitei mais de 190 municípios e posso afirmar que Goiás está no caminho do desenvolvimento.”

O presidente da AGM ainda afirma que é importantes os gestores levaram em consideração o peso do municipalismo nas eleições gerais deste ano. “Os problemas acontecem nos municípios — é lá que a população sente. E é por isso que políticas públicas precisam olhar para essa realidade. É o que o governo atual tem feito e deve continuar fazendo.”

Zé Délio fala da importância do Estado para evitar que municípios pequenos entrem em colapso financeiro | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Entorno: região que passou da invisibilidade para o protagonismo

Por muitos anos, antes de ganhar essa configuração legal de Região Metropolitana do Distrito Federal, a região do Entorno vivia em um dilema: a qual unidade federativa era pertencente? Os moradores das cidades não se sentiam assistidos nem pelo Governo de Goiás e nem pelo do DF.

Entretanto, essa situação mudou completamente nos últimos anos, conforme expõe o ex-prefeito de Valparaíso de Goiás e ex-secretário do Entorno, Pábio Mossoró, onde a região deixou de ser dependente de Brasília e passou a desenvolver identidade própria, impulsionada pelo crescimento populacional e econômico ao longo das últimas décadas.

“O Entorno tem um potencial de crescimento habitacional acima da média nacional. A região se desenvolveu inicialmente com a transferência da capital para o Centro-Oeste, mas hoje as cidades deixaram de ser dormitórios. Elas criaram identidade própria, independência econômica, com comércio forte e infraestrutura avançada, incluindo shoppings. Isso transformou o entorno em um grande potencial de desenvolvimento econômico, especialmente pela proximidade com Brasília.”

O secretário destaca que o dinheiro passou a circular entre as cidades e, para além do comércio, o Entorno tem ampliado suas frentes de desenvolvimento em áreas como turismo, gastronomia e cultura, consolidando-se como região produtiva e atrativa.

“O Entorno tem potencial turístico, gastronômico, artístico e cultural muito forte. Somado ao crescimento populacional, isso faz com que a região seja vista com outros olhos. Hoje não é mais apenas um local de passagem, mas um espaço produtivo, com identidade e capacidade de gerar riqueza.”

Pábio reforça que o investimento do governo estadual em eixos estruturantes, como educação, saúde e segurança pública, contribuiu para uma elevação do peso político o Entorno. “Houve muito investimento na educação, na manutenção administrativa e em várias áreas. Com isso, o entorno passou a ser referência. Como são cidades muito próximas e com quase um milhão de eleitores, a região se tornou decisiva nas eleições, como vimos nas últimas disputas para o governo, inclusive com vitórias em primeiro turno.”

Para Pábio, as mudanças estruturais geraram o sentimento de pertencimento e fortaleceram a identidade regional. “A população reconhece essa melhora. Durante muito tempo, as pessoas não sabiam se eram de Goiás ou de Brasília. Hoje existe um sentimento de pertencimento, de orgulho de ser goiano e de fazer parte do Entorno.”

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Pábio Mossoró: ex-secretário do Entorno de Brasília e ex-prefeito de Valparaíso de Goiás | Foto: Guilherme Alves/ Jornal Opção

Conquista da criação da Secretaria de Estado do Entorno do DF

Em 2023, saiu do papel uma das promessas políticas que o então governador Ronaldo Caiado (PSD) fez durante sua campanha de reeleição: a criação da Secretaria de Estado do Entorno do Distrito Federal. A pasta é apontada como um passo importante na governança regional, embora ainda haja desafios estruturais.

“A Secretaria tem um papel estratégico dentro do Governo de Goiás. Foi criada em 2023 para aproximar a gestão das demandas da região. Ainda precisa ser fortalecida, com orçamento próprio e capacidade de firmar convênios, mas tem um potencial gigantesco para melhorar a governança e a articulação entre Estado e municípios.”

Pábio afirma ainda que a preocupação do próximo governante é em dar mais autonomia para a Secretaria e fortalecer ainda mais o eixo com membros do DF. “Defendemos um consórcio interfederativo para resolver problemas históricos da região. Também queremos avançar em ações estruturantes, como a criação de mecanismos legais que permitam ao Fundo Constitucional do Distrito Federal atender o entorno em áreas como segurança, saúde, educação e infraestrutura.”

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Valparaíso de Goiás, cidade do Entorno em que Pábio Mossoró foi ex-prefeito | Foto: Daniel Medeiros

Luziânia – cidade que deu início ao Entorno

A cidade que completa 280 anos em 2026 ocupa um papel central na formação e no desenvolvimento da região do Entorno do Distrito Federal — tanto do ponto de vista histórico quanto político.

“Luziânia é, de fato, uma cidade histórica de Goiás. Estamos falando de uma cidade quase tricentenária. Eu costumo dizer, como prefeito e como filho dessa terra, que ela é a capital do Entorno, porque praticamente todos os municípios da região se emanciparam a partir daqui”, destaca o prefeito da cidade, Diego Sorgatto (UB).

“Luziânia cedeu terras, inclusive, para a construção da capital federal. Cidades como Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto e tantas outras têm ligação direta com a nossa origem. Isso mostra a importância histórica que carregamos”, complementa.

Diego destaca que a relevância também se traduz em protagonismo político ao longo das décadas. “Daqui saíram grandes lideranças, como Joaquim Roriz, que teve atuação marcante em Goiás e no Distrito Federal. Tivemos também o doutor Orlando Roriz, com forte articulação política nacional. Além disso, temos a Fazendinha JK, que foi residência de campo do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Tudo isso consolida Luziânia como uma cidade importante não só para o Estado, mas para o país.”

Diego Sorgatto conta a importância de Luziânia no processo de criação das demais cidades do Entorno | Foto: Guilherme Alves/ Jornal Opção

Diego reforça que os investimentos realizados nos últimos anos, principalmente nas áreas de segurança pública, educação e social contribuíram para uma transformação significativa para a cidade. “Quem viveu aqui alguns anos atrás sabe que não passava um dia sem notícia de crime: homicídios, assaltos, roubos de veículos. Era uma realidade dura.”

“Na educação, acabamos com o chamado ‘turno da fome’. Hoje temos escolas estruturadas, alunos com uniforme, equipamentos e melhores condições de aprendizado. e o Goiás Social, liderado pela ex-primeira-dama Gracinha Caiado, criou uma rede de proteção muito forte. Programas como o Cartão Mães de Goiás, o Dignidade e o Aluguel Social alcançam milhares de famílias aqui na região.”

Isso, segundo Sorgatto, contribuiu para uma mudança de perfil das cidades do Entorno: de coadjuvantes para protagonistas. “Hoje não somos mais cidades-dormitório. Temos comércio forte, empresas chegando e geração de emprego. Isso acontece porque estamos em uma posição logística privilegiada. “Conseguimos trazer indústrias, especialmente no setor alimentício, que hoje geram centenas de empregos. Também viabilizamos a instalação de um curso de medicina da UniRV, que movimenta a economia local.”

Para ele, diante de tantos resultados, a possibilidade da população não querer uma continuação dos trabalhos é quase nula. “Nunca foi tão fácil escolher um lado. O governo atual tem um nível de aprovação muito alto, próximo de 90% em várias regiões. Isso é resultado do trabalho entregue”, afirma.

Portal de entrada de Luziânia | Foto: Reprodução/Prefeitura de Luziânia

Deputado reforça que Entorno vai além do próprio entorno

Um dos representantes da região do Entorno na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), o deputado Wilde Cambão (UB) afirma que o crescimento acelerado, sem planejamento urbano adequado no passado, gerou problemas estruturais que ainda impactam a região. “Criou-se essas mazelas por falta de infraestrutura urbana. A população cresce mais de 300 mil habitantes a cada 10 anos e isso gera uma demanda de serviços maior do que qualquer outra região do Estado.”

Cambão aponta que a região era marcada pelo abandono e violência, mas que isso ficou para trás devido aos avanços significativos conquistados após os investimentos realizados nos últimos anos. “Era uma região de muitas promessas vazias, onde não chegava segurança pública. Tínhamos quatro das cidades mais violentas da América Latina. Hoje a realidade mudou. O Entorno tem melhor educação e a dependência de Brasília está diminuindo.”

Wilde Cambão fala da transformação do Entorno | Foto: Leo Iran/Jornal Opção

“Hoje temos hospitais em Águas Lindas, Formosa e Luziânia, que antes não existiam. As pessoas saíam do Entorno para estudar em Brasília. Hoje é o contrário. O governo também investiu em recapeamento e integração entre cidades.”

Hospital Estadual de Formosa Dr. César Saad Fayad é referência para casos de média e alta complexidade de 31 municípios da região | Foto: SES

Além disso, Cambão reforça que o Entorno vai além da visão limitada às cidades mais conhecidas e tem forte peso econômico e estratégico para o Estado. “O Entorno não é só Valparaíso, Luziânia ou Águas Lindas. É uma região agrícola muito grande. Se você juntar Luziânia, Cristalina, Formosa, Planaltina, Santo Antônio e Abadiânia, é uma das maiores rendas per capita do Estado. É uma região que distribui renda para Goiás como um todo e tem uma localização geográfica muito importante.”

Para Cambão, a população não cai mais na ideia do “voto de cabresto”, que é aquele que o eleitor escolhe devido à pressão de um chefe político ou cabo eleitoral, além da conhecida compra de votos. O deputado também defende que a Secretaria de Estado do Entorno do Distrito Federal tenha mais autonomia financeira para levar um maior volume de investimentos à região. “Precisamos de uma Secretaria do Entorno com recursos próprios para investir em drenagem, asfalto e infraestrutura urbana.”

Grandes pesos, mas de proporções diferentes

Que o Entorno do DF e a Grande Goiânia são fundamentais para Goiás não é mais novidade, mas isso acontece por razões destintas, segundo a doutora em Ciência Política e especialista em Direito Eleitoral, Marcela Machado.

“Do ponto de vista estratégico, estamos falando de áreas muito importantes para Goiás, mas por motivos distintos. A Grande Goiânia é o centro político e econômico do Estado, onde estão os serviços, a capacidade de decisão, a renda e onde a população acompanha mais diretamente a implementação das políticas públicas.”

Ela complementa: “Já o Entorno é uma região muito conectada a Brasília. Muitas pessoas moram ali, mas trabalham no DF e dependem dos serviços e da infraestrutura do Distrito Federal. Ao mesmo tempo, essa população não está totalmente integrada nem a Brasília nem a Goiás. Isso cria uma espécie de zona de transição, com muitos desafios.”

Para ela, tanto a Grande Goiânia quanto o Entorno funcionam como peças-chave no tabuleiro eleitoral goiano. “Os dois são fiéis da balança, por motivos diferentes. A Grande Goiânia concentra uma parcela significativa do eleitorado, com alto adensamento de votos, o que naturalmente influencia o rumo das eleições.”

“O entorno vem em crescimento populacional constante e, a cada eleição, aumenta sua relevância, especialmente pelo número de eleitores, mas também pelo impacto político das suas demandas”, complementa.

Marcela avisa que ignorar essas duas regiões é inviável para qualquer candidatura competitiva. “Na prática, nenhuma campanha pode ignorar essas regiões. Quem quer ganhar eleição em Goiás precisa estar muito presente tanto na Grande Goiânia quanto no Entorno.”

Marcela Machado avisa que ignorar essas duas regiões é inviável para qualquer candidatura competitiva | Foto arquivo pessoal

Diálogo facilitado dá mais chances de vitória

Marcela traz um fator importante: que candidatos que tenham capacidade de articulação com o governo do DF e federal “tendem a ter vantagem no Entorno, porque isso é visto como um caminho real para resolver problemas de uma população que muitas vezes se sente invisibilizada.”

Marcela traz ainda os perfis diferentes existentes na Grande Goiânia e na Grande DF. “Em Goiânia, o eleitor tende a estar mais exposto à informação e a acompanhar mais o debate político, o que torna o voto mais volátil, já que as opiniões podem mudar com mais facilidade.”

“No Entorno, o eleitor é mais pragmático. Ele olha para o que afeta diretamente o seu dia a dia: quem resolve problemas, quem entrega resultados, quem está atento às demandas locais”, reforça.

Crescimento reprimido e dependência estrutural

Apesar do atual desenvolvimento, o Entorno do Distrito Federal carrega um histórico de desenvolvimento desigual, marcado por limitações estruturais desde a construção de Brasília. E a ausência de diversificação econômica acabou agravando esse cenário ao longo do tempo.

“O Entorno do DF é uma região com problemas grandes. É muito marcada pela violência, mas também teve seu desenvolvimento represado desde a construção de Brasília, passando a funcionar como fornecedora de mão de obra, sobretudo para o setor de serviços, muitas vezes precarizados”, destaca o cientista político, Guilherme Carvalho.

Já Goiânia, na sua visão, tem um nível mais elevado de desenvolvimento, mas que aponta algumas fragilidades. “Goiânia também não é uma cidade industrial. É uma cidade de serviços, mais desenvolvida, mas que foi planejada para ser um centro administrativo, não o centro pulsante da economia goiana.”

Guilherme afirma que, apesar das diferentes de origem, as duas regiões compartilham desafios estruturais. “São regiões muito populosas que cresceram por motivos distintos: Goiânia como centro administrativo e o Entorno de Brasília como fornecedor de mão de obra. Mas ambas têm déficits de desenvolvimento, ainda que em níveis diferentes.”

Voto fisiológico

Carvalho associa o perfil socioeconômico do Entorno do DF a um padrão específico de comportamento eleitoral. “Por ser uma região mais subdesenvolvida, há uma tendência maior ao voto fisiológico, já que a população depende mais de quem tem acesso a recursos públicos.”

“O Entorno consegue eleger seus próprios candidatos, tanto para deputado estadual quanto federal, e também influenciar a composição do poder estadual”, completa.

Diante disso, Guilherme aponta que o Entorno do DF se destaca como peça-chave nas eleições devido ao seu tamanho populacional e à sua dependência de recursos públicos. “Governadores e candidatos ao governo precisam estar bem posicionados ali. Se o Entorno votar de forma minimamente unificada, ele se torna um bloco decisivo para o sucesso eleitoral.”

Já em Goiânia, para ele, o comportamento do eleitor é diferente, com votos fragmentados e menos dependente. “Goiânia é uma cidade mais diversa e menos dependente de emendas. Isso faz com que o perfil das candidaturas seja mais plural. O jogo político na capital é mais apertado, porque há menos dependência direta do Estado e mais foco em políticas públicas. A tendência é de uma votação mais fragmentada, diferente do que ocorre no Entorno do DF.”

Além disso, ele destaca que Goiás se insere em uma lógica que já está sendo observada no país. “Os dados da ciência política mostram que quanto mais subdesenvolvida é uma região e mais dependente do Estado, maior tende a ser o voto clientelista”, finaliza.

Os dados da ciência política mostram que quanto mais subdesenvolvida é uma região e mais dependente do Estado, maior tende a ser o voto clientelista”, finaliza Guilherme Carvalho | Foto: Guilherme Carvalho

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