Colaboraram João Paulo Alexandre e Mylenna Scheidegger

Aos 49 anos, a turismóloga e escritora Ana Santana afirma, sem hesitar, que ao longo da vida “nunca ficou sem trabalho”. “Sempre saía de um e entrava em outro”, resume. A frase pode ser interpretada quase literalmente. Filha de pais analfabetos, Ana conta que começou a trabalhar aos 10 anos para ajudar nas despesas de casa.

Não havia muito espaço para escolha. Em uma época em que a legislação trabalhista e a proteção a menores eram praticamente inexistentes, a jovem aceitava o que aparecesse: trabalhou em casas de família, confecções, padarias e depósitos de construção. Tudo para ajudar os pais e continuar estudando. “Eu estudava à noite e trabalhava o dia inteiro. E não era só por mim. Era pela minha mãe também, pelo meu pai, que teve câncer”, lembra.

Aos 12 anos, Ana se mudou para Goiânia, onde construiu a própria vida. Cresceu, conquistou bens como casa e carro próprios e se formou em Turismo. Mas ela, que se define como sonhadora e determinada, ainda queria mais. Foi nesse período que conheceu uma pessoa que lhe apresentou a oportunidade de expandir ainda mais os horizontes.

“Quando terminei o curso, meu grande sonho era montar uma empresa de turismo. Até então, eu queria trabalhar com shows e festas, porque sempre gostei muito de música e de estar cercada de pessoas.” Foi enquanto concluía a graduação, em 2005, que conheceu uma mulher que lhe contou sobre a vida que levava nos Estados Unidos, mais especificamente em Atlanta, na Geórgia.

Segundo Ana, a mulher, que até então era cliente das roupas que ela vendia, contou que viveu cinco anos nos Estados Unidos e descreveu o país como um lugar cheio de oportunidades para ganhar dinheiro. “Eu nunca tinha pensado em ir para lá, mas, vindo de uma família humilde, ouvir alguém dizer: ‘eu posso te ajudar, tenho contatos lá e vou te apoiar’, acabou despertando algo em mim.”

Atraída pela promessa de trabalhar em uma loja de roupas nos Estados Unidos, negociando com brasileiros e recebendo cerca de 200 dólares por dia, sem precisar pagar aluguel, Ana aceitou a proposta de deixar o Brasil ilegalmente.

Em cerca de 45 dias, já estava tudo organizado. Ela falou que ia me levar: eu sairia daqui para São Paulo e, de São Paulo, seguiria para o México. E realmente aconteceu exatamente assim. Nós fomos de avião normalmente, tudo certo, ficamos em hotel cinco estrelas. Mas, quando eu cheguei no México, as coisas começaram a mudar

Foi no México que começou o pesadelo da travessia ilegal. Ana conta que o grupo passou a ser transportado de um veículo para outro, entre vans, carros e esconderijos improvisados. Em vários momentos, os migrantes eram levados para motéis pequenos e precários, onde nove ou dez pessoas dividiam o mesmo quarto.

Ela relata que os viajantes eram constantemente repassados “de mão em mão”, enquanto novos grupos se juntavam ao trajeto clandestino. Além de brasileiros, havia hondurenhos e pessoas de outras nacionalidades hispânicas. Em um dos locais, segundo Ana, cerca de 40 pessoas ficaram espremidas em um apartamento de apenas um quarto, muitas delas sentadas no chão.

Depois de algum tempo, os chamados “coiotes” mandaram que os viajantes abandonassem as malas, alegando que elas não seriam mais necessárias. Para não perder os poucos pertences, Ana passou a vestir várias camadas de roupa ao mesmo tempo, entre leggings, calças jeans e blusas. Com ela, levava apenas uma pequena pochete presa ao corpo, onde guardava documentos e dinheiro.

“Quando a gente chega mais próximo, já não tem mais carro. A partir dali, é tudo a pé. Então, você começa a caminhar, correr, se esconder, se abaixar. É isso que a gente faz no deserto. Durante a noite, a gente corre; durante o dia, se esconde, porque não tem mato, não tem cobertura nenhuma. É deserto mesmo”, relembra.

Durante a travessia, o grupo não tinha acesso a água, banheiro ou alimentação adequada. Ana conta que sentia um mal-estar constante e um gosto ruim na boca, algo que atribuía à comida mexicana ou à falta dela. Mais tarde, descobriria a verdadeira razão: estava grávida e ainda não sabia.

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Ana Santana, durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: Rafael Messias/Jornal Opção

De um sonho no Brasil para uma armadilha nos EUA

Depois de 15 dias de uma travessia que define como “infernal”, Ana finalmente chegou aos Estados Unidos. Naquele momento, acreditava estar iniciando a vida que havia planejado: trabalhar por alguns anos, juntar dinheiro e retornar ao Brasil para abrir a própria empresa em Palmas. Mas foi ali que o verdadeiro pesadelo começou.

Segundo Ana, ao chegar em Atlanta, outra pessoa ligada ao esquema recebeu o grupo. “Ela pegou o dinheiro que estava preso no meu corpo, entrou no banheiro, tirou tudo e usou para pagar os coiotes”, lembra.

Dias depois, uma senhora brasileira que trabalhava na limpeza da casa onde Ana estava hospedada perguntou se ela havia sido levada para os Estados Unidos para trabalhar com prostituição. Ana respondeu que acreditava ter ido para trabalhar em uma loja, mas ouviu da mulher que o suposto emprego era apenas uma fachada. “Ela disse que todas as meninas que estavam lá faziam isso”, conta.

Foi naquele momento que Ana percebeu que havia sido enganada. Sem telefone e sem conseguir contato com a família, ela passou a viver na casa onde funcionava o esquema. A responsável pelo local insistia para que Ana frequentasse salões de beleza e participasse de sessões de fotos, convites que ela recusava repetidamente. Segundo a brasileira, aqueles seriam os preparativos para inseri-la na prostituição.

Nos fins de semana, relata Ana, eram frequentes as festas, churrascos e encontros realizados na casa. A maioria das mulheres saía cedo, passava em salões de beleza e depois seguia para encontrar clientes. Para escapar da prostituição, Ana tentava se ocupar com tarefas domésticas dentro da residência, mas afirma que a pressão continuava constante.

Eu vivi naquele ambiente por cinco meses, e foi muito difícil. Mesmo assim, eu fazia comida, limpava a casa, fazia de tudo para manter as coisas em paz

Meses depois, durante uma festa na piscina organizada por integrantes do esquema, Ana conheceu uma brasileira que realmente trabalhava com limpeza residencial e procurava uma ajudante. Ao começar a trabalhar com ela, contou tudo o que havia vivido desde a saída do Brasil.

A mulher já desconfiava que havia algo errado e, ao ouvir a história, afirmou categoricamente que Ana havia sido vítima de tráfico humano. O caso foi contado ao marido da brasileira, um americano ligado à Igreja Batista, e a partir dali começou o processo de resgate.

“Eles me resgataram e mandaram alguém me buscar naquela casa. Eu saí só com uma bolsa preta, com as poucas roupinhas que eu tinha, porque eu não tinha praticamente nada”, lembra.

Ana conta que foi levada para um hotel e, alguns dias depois, recebeu a visita de agentes do FBI, policiais e um intérprete. “Eu estava muito magra, muito debilitada e grávida. Não conseguia comer nada, vomitava muito e estava bem anêmica. Acho que eu pesava uns 48 quilos, talvez até menos.” Depois do depoimento, ela passou um período em um abrigo e, posteriormente, foi acolhida por uma família americana.

Ela afirma ainda que ajudou o FBI na investigação contra o esquema criminoso. “Eles me buscavam de manhã e passávamos o dia inteiro vigiando as mulheres, acompanhando onde elas entravam, com quem conversavam. Faziam fotos, vídeos, observavam tudo. Quando elas iam comer em algum lugar, alguém entrava junto, fingia ser cliente ou puxava conversa sobre roupas e outras coisas, só para conseguir informações.”

Um recomeço

Livre do esquema criminoso, Ana Santana recebeu autorização para permanecer nos Estados Unidos e começou a reconstruir a vida. Desta vez, nos moldes do sonho que imaginava quando decidiu deixar o Brasil.

“Depois que meu filho nasceu, minha vida mudou. Na verdade, quando ele ainda estava na minha barriga, eu já comecei a pensar diferente. Eu queria uma vida melhor para ele, queria que ele aprendesse a falar a língua e tivesse as coisas que eu não tive”, afirma.

Ela diz que acreditava que conseguiria crescer nos Estados Unidos porque enxergava oportunidades para quem estivesse disposto a trabalhar. Segundo Ana, recebeu ajuda de muitas pessoas ao longo da trajetória.

A partir daí, começou uma rotina intensa de trabalho. Acordava às cinco da manhã, deixava o filho na creche e seguia para os empregos. “Comecei limpando casas, colocando cartões de porta em porta, e aos poucos fui conseguindo mais trabalhos. Como eu não sabia falar inglês, fazia questão de limpar tudo perfeitamente para não ter reclamaações e não correr o risco de perder o trabalho.”

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Ana tem, hoje, uma empresa de serviços de limpeza | Foto: Rafael Messias/Jornal Opção

Ana também afirma que recebeu apoio do FBI e ajuda financeira do governo americano durante os primeiros meses após o resgate. “Durante cerca de três meses, eu recebi uma ajuda do governo, em torno de 350 dólares.”

Hoje, Ana Santana é dona de uma empresa de cleaning services e lidera equipes que atendem Atlanta e região. Paralelamente, construiu uma fonte sólida de renda por meio de investimentos imobiliários, resultado de anos de planejamento e trabalho.

Apesar de ter superado uma experiência que poderia ter terminado de forma trágica, Ana faz questão de manter viva a própria história. Ela escreveu o livro Still, I Bloomed, em tradução livre “Ainda assim, eu floresci”, no qual relata a trajetória como vítima de tráfico humano.

“Esse livro que eu escrevi é para ajudar outras pessoas, outras meninas, homens e crianças que passam por esse tipo de situação. Às vezes aparece alguém oferecendo algo muito fácil, uma oportunidade, e você acaba caindo, igual aconteceu comigo. São 21 anos desde tudo isso, e até hoje eu carrego os traumas. O que eu vivi eu não desejo que ninguém passe”, conclui.

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Ana Santana publicou o livro Still, I Bloomed, pela editora Montoro | Foto: Rafael Messias/Jornal Opção