Acordar, sim, é preciso. Muito bom acordar no seu ruído, nas suas cores. Melhor assim, pois, antes, o que me fazia acordar eram os ruídos dos carros, das sirenes ou das motos apressadas. Tinha que ser rápida, porque o sol já batia na janela, transformando a cama e o quarto em forno quente. Nunca tive ar-condicionado – não gostava, pois me deixava sempre rouca e de nariz congestionado. O intento era sair rápido e alcançar a Rua 10, rumo à universidade, a toda velocidade. Era preciso chegar à Universidade, mesmo que com pé pesado a mais de 980 km por hora, velocidade não recomendada e levando todas as multas. Quase sempre, multa por excesso de velocidade. Chegar cedinho para encontrar vaga no estacionamento. A pressa era tanta que não prestava atenção no que estava em volta… só indo…indo. Pronto: cheguei, estacionei, bati o ponto. Agora posso respirar. Depois de uma boa respirada, mais uma e mais uma, posso ir para sala de aula. São muitos os alunos para orientar. Às vezes, você tem que pegar na mão de alguns – modo de dizer, claro –, para ensiná-lo a raciocinar e a enxergar no tridimensional, treiná-lo para isso. Ver em volume, como obra acabada ou não, mas quase. É preciso enxergar o idealizado.

Uma missão que durou 39 anos, com intervalos: férias, viagens, mestrado, doutorado, licenças não remuneradas, pois ninguém é de ferro. Também com muitos estudos e vontade de conhecer mais e mais, ler, estudar, descobrir, debater em congressos, avançar. E, sem muita consciência e percepção, o tempo passou entre maquetes, premiações, projetos, reuniões, preparações de aulas, correções de trabalhos, fichários de notas: assim fui percebendo sem perceber o tempo. O tempo é inexorável, avança sem pausa.

Agora, quem me acorda? Quem me acorda são as Araras, com suas cores e ruídos, no voo da manhã, e eu saio voando com elas, entre carros apressados, sinaleiros lentos e ruas engessadas de autos. Eu, no meu carro, e minha alma inquieta, que quer mais, quer pintar, cantar, viajar, mergulhar no mar e em rios de águas frias, nas águas do Bugre, quer ter muitos amigos, quer namorar – será que é tarde? Mas ela quer, quer sorrir, quer brincar, quer ser grande, quer ter saúde, quer se sentar no jardim, no Shopping, quer jantar na varanda, quer ver o sol nascer, ouvir o pássaro cantar, estar com a família e passar tempo com seus amores.

E a alma vai aguentando. As novidades surgem, e não são poucas, e a cabeça pira de pirar, enlouquecer. Algo trava, para avisar: “tem que ir devagar, que o Santo é de Barro, delicado, frágil. Apesar de ser imortal, é mortal e, a qualquer hora, vai embora”.

Vá devagar! Vá inventando e sonhando, inventando e realizando, inventando e surpreendendo até a si mesmo, pesquisando e acordando para a existência. A vida é o que É, não temos como mudar o seu Norte. Ou será que temos? O melhor é que vamos seguindo apinhado de sonhos: fazer um museu para o autor do Plano de Goiânia; recuperar as matas ciliares, para que voltem a ser verdes e permeáveis – minha cidade precisa disso, temos chuvas torrenciais. Adoro essa palavra. É assustadora, mas o que fazer? Ela está lá, na origem do plano idealizado, como aviso – ninguém foi desavisado. Agora, estamos assustados, claro! Muitas vidas rolaram nas águas torrenciais.

Mas, na edição sonhada, as margens dos rios são verdes e nunca edificadas. Cota de inundação reconhecida – respeito absoluto. Assim, as águas da chuva sabem bem para onde ir. As ciliares nas margens são também caminhos, passeios e lugar de morada de pássaros que hoje não têm onde viver, pois que, nos arredores, não mais existem matas. Mas é claro que dá para

recuperar córregos e nascentes em suas belezas, para tornar tudo bonito, na beleza da recuperação, do reconhecimento, do respeito à cidade que quer ser modelo verde de águas cristalinas, como deve ser o meio ambiente.

Não importa: tudo vai e vem! E vem outra manhã, com minha Arara Canindé a me acordar com seu ruído e cores! Levanto e olho pela janela, quero ver o seu voo e voar com ela. Mas ela, muito rápida, se foi, me abandonando. Novo dia e mais ações: uma olhada na agenda para ver o que vai ser: reunião, almoço, família, encontro com um amigo no café, caminhar à tarde [é preciso fazer aeróbica], o filme que quero ver e que não está mais anunciado. Vai ficar para outro dia. Visitar um apartamento. Ah!! estou buscando um. Preciso me mudar daqui. O problema é deixar os amigos e as araras. Se eu me mudar, quem vai me acordar? Pode ser outro pássaro, mas não será o mesmo ruído rouco, estridente das minhas araras. Elas que gostam de se comunicar com os indivíduos que estão passando. Voam forte, em linha reta, e é lindo seu voo! Como voam alto, dá para ver seu peito amarelo-dourado contrastando com o azul intenso das asas. Sempre voam acompanhadas, pois são criaturas sociais e monogâmicas, têm amor para uma vida. O que eu admiro. No meu novo apartamento, sei que vou precisar que elas venham me visitar.

Jacira Rosa Pires. – Acadêmica da AFLAG

2ª titular

Cadeira: 19

Natural de Goiânia – Goiás. Escritora, pesquisadora, professora. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo (1974), PUC Goiás – Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Seu foco é a preservação histórica e urbana de Goiânia. Carreira docente no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC/GO (1979-2018). Realizou doutorado na Universitat Politècnica de Catalunya – Barcelona/Espanha (2006). Publicou em 2009 o livro: “Goiânia – Cidade Pré-Moderna do Cerrado 1922- 1938” e várias outras publicações em coautorias. Sócia de várias instituições culturais, tais como IHGG – Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; AFLAG – Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, entre outras. Tem vínculo com instituições culturais de Salvador BA e Rio de Janeiro RJ e recebeu homenagens de várias instituições, tais como: 2020 – Comenda Municipal de Mérito Arquitetônico e Urbanístico Attílio Correa Lima; 2018 – Mulheres