Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

William Wordsworth e a poesia imortal

Ler a poesia de Wordsworth é um bálsamo neste momento de torpedos e contra torpedos eleitorais. Além de preencher uma lacuna em minha formação de leitor, o livro “William Wordsworth: Poesia Selecionada[i]” tem me proporcionado uma emoção estética única em sua edição bilíngue, que conta com o talento do professor, crítico e tradutor Paulo Vizioli. Sinto-me como o Poeta da Natureza: “desencantado com o radicalismo feroz dos embates políticos, a solução cada vez mais me parece um retorno à Poesia.”

Wordsworth em retrato de 1842, por Benjamin Haydon

William Wordsworth na velhice, Retrato, 1842, por Benjamin Haydon

Desde o prefácio “William Wordsworth: o sublime egocêntrico”, Vizioli nos premia com o talento de comentarista especializado em poesia de língua inglesa. Como se sabe, Vizioli dedicou sua vida acadêmica ao conhecimento e à tradução de poesia inglesa e norte-americana. Ele nasceu em Piracicaba, São Paulo, em 1934, foi professor da Universidade de São Paulo (USP), crítico literário e tradutor de poesia inglesa e americana. Em 1994, recebeu o prêmio Jabuti pela tradução de W. Blake. Morreu em 1999.

Neste livro que tenho sobre a mesa enquanto escrevo esta crônica, aprendo no estudo, embora sucinto, da personalidade e da vida do poeta inglês que “mais que qualquer outro grande escritor, mesmo romântico, Wordsworth estava voltado para dentro de si próprio” e, embora o poeta tenha sido conhecido pelo título de “O Poeta da Natureza” –, o que interessava mesmo a Wordsworth eram suas próprias emoções; e “ele encontrava muito maior deleite na observação de suas reações à paisagem do que na descrição do que via”.

Wordsworth nasceu em Cockermouth, região dos Lagos ao norte da Inglaterra, em 1770, tendo ficado órfão de mãe aos oito anos, e de pai aos treze, passando, em decorrência, a viver em Penrith, sob a severa tutela dos avós e, depois, em Hawkshead, de 1778 a 1791, onde cursou a escola local. A estreia de Wordsworth se dá em 1793 e em 1795 uma herança garante ao poeta a dedicação total à Poesia.

Os críticos biográficos de Wordsworth buscam, baseados em pressupostos, explicações sobre a sua (dele) carreira poética – seu desenvolvimento, auge e decadência – e atribuem peso maior do que o devido a um ou outro acontecimento ocorrido ao poeta”: relacionamentos, envolvimentos com a Revolução Francesa e ou pessoas (com o amigo Coleridge, com a amante Annette Vallon etc.). Mas Lionel Trilling despreza estas explicações por acha-las “simples e mecânicas”.

Em lugar disso, Trilling nos propõe ler, fruir e analisar a “Ode: Sugestões de Imortalidade Através de Recordações da Primeira Infância” como o resultado poético de “nada menos do que a mente toda, de todo o homem”; o homem Wordsworth para quem “o conhecimento implica em liberdade e poder”.

E mais: “O conhecimento da mortalidade do homem – isto deve ser cuidadosamente observado! – num poema que se presume ser sobre a imortalidade – ele substitui a “glória” como agente de coisas significativas e preciosas“.

Vizioli, por sua vez, afirma que o poeta inglês “na verdade queria recuperar a imagem do homem como um ser digno, capaz de justiça e de amor”. E sublinha: “Desencantado com o radicalismo feroz dos embates políticos, a solução cada vez mais lhe parecia [a Wordsworth] um retorno do indivíduo à Natureza, através da qual ele pode intuir a verdade e reencontrar a dignidade”.

Bastaria ao leitor apressado as duas primeiras estrofes da longa Ode para constatar a grandiosidade do poeta inglês, mas a tradução completa feita, recentemente, pelo jovem tradutor goiano Matheus de Sousa Almeida (Mavericco) está disponível online[ii].

Matheus Mavericco traduz Wordsworth

Na revista digital “Escamandro” o talento de um jovem tradutor goiano

Fica provado no longo poema que Wordsworth atingiu o que desejava: apropriar-se de uma “noção da pré-existência como tendo fundamentos suficientes na humanidade pra que me autorizassem a fazer de meu propósito o melhor uso que pudesse fazer enquanto Poeta”:

I

Houve um tempo em que o prado, o bosque, o manancial
A terra e o que nela se via,
Tudo me parecia
Envolto em luz celestial,
Um sonho de esplendor e louçania.
Agora ficou tudo para trás…
Em todos os locais,
Ou noite ou dia,

As coisas que antes via ora não vejo mais.

II
O arco-íris vem e vai,
E a rosa ainda me atrai.

A lua olha encantada,
Quando o céu está limpo, ao redor dela;
A água em noite estrelada
Brilha formosa e bela;
Glorioso nascimento é a aurora;
No entanto claro está, aonde quer que eu vá,

Que desta terra um esplendor se foi embora.

[…]

Mas o cerne desta famosíssima Ode estaria mesmo nas estrofes V e VI, assim traduzidas por Vizioli:

V
Nosso nascer é sono e esquecimento:
Esta alma, o sol da vida em seu levante,
Se pôs noutro momento,
E vem de bem distante:
Não em completo olvido,
Espírito despido,
Mas nuvens de esplendor traz a arrastar
De Deus, que é nosso lar:

O céu conosco em nossa infância mora!
Sobre o Menino logo caem, porém,
As sombras da prisão,
Embora

Ele ainda fite a luz, e de onde vem,

Em sua excitação;
Mesmo a afastar-se dessa aurora acesa,
O Moço ainda oficia à Natureza,
E a visão inflamada
Assiste-o na jornada;
O Adulto, enfim, sua morte presencia,
E ela se esvai à luz comum do dia.

VI

Às graças de seu colo a Terra nos convida;

Mostra anelar por sua espécie natural,

E, com algo da mente maternal,
E até com nobre anseio,
A rústica Babá faz tudo de bom grado
Para que o Homem, seu Vizinho e seu Enteado,
Esqueça toda glória conhecida
E o palácio imperial de onde ele veio.

A longa vida deste poema de Wordsworth deu lugar a uma diversidade de interpretações. Para muitos críticos notáveis, como afirma Dean Sperry, “a Ode representa a despedida consciente de Wordsworth com relação à sua arte, uma endecha cantada sobre seus dons se apartando”. Lionel Trilling que transcreve a citação de Sperry discorda dessa afirmação e argumenta que “a Ode de Wordsworth não só não representa uma endecha cantada em torno de dons que se afastam, mas, na verdade, constitui uma dedicatória a novos dons. Wordsworth, certamente, não chegou a realizar as suas esperanças nesses novos dons, mas isto é uma questão muito diferente[iii]”.

Se causa discussões críticas até hoje, este poema de Wordsworth prova que “se a sensibilidade e a compreensão se encontram entre os dons poéticos, que mais estaria Wordsworth afirmando no fim do seu poema do que o fato de dispor, naquele momento, de mais sensibilidade e compreensão do que nunca? A ‘mente filosófica’ não perdera intensidade, mas, pelo contrário, aumentara o poder de sentir”, afirma Trilling.

XI
E oh vós, colinas, fontes, bosques, prados,
Não pressagieis ruptura em nossos fados!
No cerne de meu cerne está vosso poder;
Eu renunciei a apenas um prazer
Por vossa mais comum soberania.
Amo o arroio, que chora no seu leito,
Mais que quando eu também veloz corria;
O inocente esplendor de um novo dia
Ainda é perfeito;
As nuvens ao redor do sol poente
Tomam os tons sombrios de um olhar
Que à existência mortal pôde vigiar;
Finda a prova, há outras palmas pela frente.
Graças ao nosso humano coração,
Sua ternura e júbilo e fraqueza,
Até as florzinhas ínfimas me dão
Cismas fundas demais para a tristeza.

Eis a amostra de um poeta consciente da mortalidade, para quem “o mundo se torna significativo e preciso” e assim “até as florzinhas ínfimas” tornam-se significativas no poema que, segundo Trilling, “é um poema sobre o amadurecimento; incidentalmente, é um poema sobre óptica e, em consequência, sobre epistemologia”, tudo isso pairando bem acima de uma questão de envelhecimento do poeta ou do homem (o leitor).

O Wordsworth maduro comprova o que dizem “que todos nós tendemos a ser incendiários na juventude; e bombeiros na velhice”. Vizioli afirma que Wordsworth não foi exceção. Após muitas buscas e tantas incertezas, Wordsworth se reconverteria, lentamente, a convicções políticas conservadoras e ao anglicanismo. Em 1838, recebeu um título honorário de “Doctor of Civil Law”, da Durham University, e a mesma honraria da Oxford University no ano seguinte.

E quando aponto para o encerramento desta crônica, penso no Wordsworth sonetista – e ele o foi – conforme ao que nos diz Matheus Mavericco no artigo citado: “Wordsworth foi, por exemplo, um dos maiores sonetistas de língua inglesa, e é dele aquela frase, ‘Scorn not the sonnet’ (Não despreze o soneto). Merece, pois, o leitor conhecer este “Composto na Ponte de Westminster[iv]”. Na tradução de Paulo Vizioli:

Mostrar não pode a terra maior graça;
Insensível quem não parasse diante
De um quadro de grandeza tão tocante:
A esta cidade, como veste, enlaça
O encanto da manhã; a quieta massa
De naves, templos, torres, neste instante
Abre-se para o campo e o céu distante;
Tudo brilha e reluz no ar sem fumaça.
A rochas, vales, montes sol como esse
Jamais banhou no seu fulgor loução;
Eu nada vi que tanta paz me desse!
Flui o rio à sua doce inclinação;
Deus! Mesmo o casario dormir parece…
E está quieto o pujante coração!

Capa do livro que inspirou o texto da coluna Destarte | Foto: Adalberto de Queiroz

E para encerrar, um pequenino poema que merece ser decorado e trazido conosco por muito tempo, até por estar na gênese da “Ode à Imortalidade” que comentei hoje com o apoio de alguns críticos de minha preferência – “Eu sinto o coração bater mais forte[v]”:

Eu sinto o coração bater mais forte
Quando o arco-íris posso ver.
Assim foi quando a vida começou,
Assim é agora quando adulto sou,
E assim será quando eu envelhecer…
Senão, melhor a morte!
O menino é o pai do homem;
E eu hei de atar meus dias, cada qual,
Com elos da piedade natural.

 

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e Poeta. Autor, entre outros, de “O Rio Incontornável” (poemas), Mondrongo, 2017.

[i] VIZIOLI, Paulo. “William Wordsworth. Poesia Selecionada”, ed. bilíngue. Apres., trad. e notas de Paulo Vizioli. São Paulo, Edições Mandacaru, 1988, 91 páginas.

[ii] MAVERICCO, Matheus, trecho de prefácio de Wordsworth a “Baladas Líricas”, transcrito na revista digital “Escamandro”, cf. link https://escamandro.wordpress.com/2015/03/12/ode-prenuncios-imortalidade-wordsworth/ O famoso prefácio foi traduzido e consta em apêndice por Paulo Vizioli no livro citado em i.

[iii] TRILLING, Lionel. “Literatura e Sociedade” (orig. “The Liberal Imagination”), Trad. Rubem Rocha Filho. Edit. Lidador, Rio de Janeiro, 1965, p. 153 et passim (ensaio “A Ode à Imortalidade”).

[iv] Conforme nota i. pág. 67.

[v] Conforme nota i. pág. 49.

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