Vozes femininas — Célia Coutinho Seixo de Britto: A alquimia poética e a ecopoesia precursora de Célia Coutinho
12 setembro 2026 às 21h00

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Elizabeth Abreu Caldeira Brito
Célia Coutinho Seixo de Britto, nascida na Cidade de Goiás, em 1914, faleceu em 1994, aos 80 anos, em Goiânia. Fez o curso Normal em sua cidade natal.
A escritora formou-se em Artes Visuais, pela Escola Goiana de Belas Artes. Foi professora, poetisa, artista visual, biógrafa e cronista. Integrou a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e a Academia Trindadense de Letras. Esposa de Hélio Seixo de Britto, ela foi primeira-dama de Goiânia de janeiro de 1961 a janeiro de 1966.
Por meio do verso e da prosa, articulou paisagens, voz feminina e a história de um tempo. Sua obra transita entre os domínios da literatura e das artes visuais, confirmando a unidade estética entre texto e imagem
Célia Coutinho ocupou lugar de fala entre as vozes femininas que souberam entrelaçar, com rara sensibilidade, a palavra e o mundo.

Por meio do verso e da prosa, articulou paisagens, voz feminina e a história de um tempo.
Escritora, cronista, biógrafa e poetisa de alma pictórica, sua obra transita entre os domínios da literatura e das artes visuais, confirmando a unidade estética entre texto e imagem.
A escrita, da artista revela uma agudeza de consciência do papel social e ético da literatura. Nesse sentido, dialoga, com a visão sartriana da arte como engajamento.
O escritor, historiador e estudioso das vozes femininas na literatura em Goiás Bento Fleury, em texto sobre Célia Coutinho e sua obra, afirma que, para Jean-Paul Sartre (1948), “o escritor sempre pode ajudar a evitar que o pior aconteça”.

Nesse aspecto Célia, ao historicizar a paisagem de Goiás, converteu a palavra em resistência, no sentido de resistir contra o esquecimento, o silenciamento da mulher e da natureza e, ainda, contra o apagamento das vozes do Cerrado.
Sua obra “A Mulher, a História e Goiás” (1982) sintetiza esse gesto político e poético: a palavra feminina que interpreta, transforma e eterniza o tempo e o espaço.
O referido escritor discorreu sobre a primeira publicação da autora: “Em 1973, deu publicidade a seu primeiro livro de merecido êxito, ‘A Mulher, a História e Goiás’, que enfeixa 32 biografias de mulheres goianas do século passado e o trabalho maravilhoso de cada uma delas dentro do cenário da cultura goiana”.

O historiador discorre sobre as biografias que compõem o livro que, além do trabalho artístico das ilustrações, apresentam uma linguagem carinhosa, viva, latente, distanciando-se do modelo formal desse gênero.
A natureza vira texto, que devolve voz à natureza. A alquimia entre o orgânico e o literário encontra eco na concepção do crítico Gilberto Mendonça Teles, para quem a poesia é “a forma suprema de dizer o indizível”
No poema “As ninphas goianas e o papiro” (1974), há uma verdadeira epifania lírico-épica do Cerrado.
O escritor e pesquisador Bento Fleury apresentou um belíssimo ensaio sobre o texto poético. O crítico abordou as nuances do eu lírico quando insere no espaço poético um cenário goiano personificado por ninfas, náiades e oréadas que dançam sobre a Serra Dourada, cenário mítico onde natureza e divindade se confundem.
Entretanto, o idílio se rompe com a chegada do homem, o bandeirante colonizador, metáfora da ruptura ecológica e civilizatória. As ninfas deixam de ser alegorias da fertilidade e da harmonia, para se tronarem símbolos da perda e da transformação.

Como observa Tovar (2014, p. 6), “o homem civilizado esqueceu-se de ser filho da Mãe Terra e se fez senhor da natureza”. Nesse sentido, a voz poética de Célia antecipa, em linguagem alegórica, uma reflexão ambiental e existencial de impressionante atualidade — a ecopoesia.
O final apoteótico e metamorfósico do poema quando as ninfas, em fuga, convertem-se em papiros, árvores do papel, encerrando o poema com um gesto simbólico de eternização: o papel, suporte da escrita, torna-se corpo e memória da paisagem, guardião da Serra Dourada.
Então, o ciclo se fecha: a natureza vira texto, e o texto devolve voz à natureza. Essa alquimia entre o orgânico e o literário encontra eco na concepção de Gilberto Mendonça Teles (1992), para quem a poesia é “a forma suprema de dizer o indizível, o modo de dar corpo ao invisível”.
Embora tenha se dedicado mais às crônicas e às biografias, Célia Coutinho demonstra, na tessitura poética, uma habilidade rara de articular mito, história e geografia, aproximando-se das interpretações de Suertegaray (2005) sobre a construção simbólica das paisagens brasileiras: “Naquele momento histórico, tais paisagens se apresentavam como resultantes de um longo processo geológico e de constituição da vida […] apropriadas e expropriadas pela colonização portuguesa da natureza e dos habitantes”.

É, pois, na confluência entre memória e imaginação, alquimia poética e ecologia, que reside a força de sua arte. Célia Coutinho Seixo de Britto, além de cantar o Cerrado, o restitui como território de encantamento, mito e resistência.
A obra da escritora dialoga com a poética do sublime, com a tradição barroca e com o lirismo feminino que, segundo Antonio Candido (1976), “recria a experiência humana na linguagem e devolve ao homem o sentido do humano”.
Assim, as narrativas de Célia Coutinho Seixo de Brito tornaram-se um canto que resiste ao tempo, transformam a dor da perda em beleza, e reafirmam a mulher como guardiã da palavra, da memória e da paisagem goiana.
Publicações de Célia Seixo de Britto
1
“A mulher, a história e Goiás” (2ª edição, Goiânia, 1982).
2
Os livros: “Estrangeiros Radicados em Vila Boa e Outras Terras de Goyaz” e “Nossos Vestidos Brancos” são obras póstumas lançadas simultaneamente em Goiânia no ano de 2019. A partir de manuscritos deixados em vida pela autora, o material foi resgatado, organizado, reescrito e complementado pelo escritor, geógrafo e pesquisador professor-doutor Bento Alves Araújo Jaime Fleury Curado.
Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag) e filiada à União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. É colaboradora do Jornal Opção.


