O preço do perdão: o padre e a cobrança de “impostos”
12 setembro 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Dizem que, nos primeiros tempos das minas dos Goyazes, quando Vila Boa ainda não era Vila Boa e o arraial de Sant’Ana mal se acomodava entre as encostas, o rio Vermelho e a inquietação dos homens que para ali acorriam em busca de fortuna, apareceu por aquelas bandas o padre doutor Pedro Ferreira Brandão. Era tempo em que quase tudo estava por fazer: abriam-se caminhos onde antes havia apenas trilhas; levantavam-se casas às pressas; demarcavam-se lavras; improvisavam-se autoridades e, com igual entusiasmo, fabricavam-se fortunas que às vezes duravam menos que a estação das chuvas.
O ouro fizera nascer o arraial e determinava o compasso de sua vida. Estava nas bateias, nas conversas, nas desavenças, nos negócios, nas esperanças e até nas orações, porque não faltava quem pedisse a Deus uma boa lavra com a mesma devoção com que outros lhe rogavam a salvação eterna. O precioso metal corria de mão em mão despertando cobiças, amizades, traições e vocações súbitas para a aventura, até desaparecer nos cofres da Coroa, nas algibeiras dos comerciantes ou em algum esconderijo cuja localização o proprietário, por prudência cristã, preferia não revelar aos cobradores do quinto.
Foi, pois, nesse mundo ainda sem acabamento que o padre Pedro Ferreira Brandão, no Ano da Graça de 1729, assumiu suas funções de vigário da vara. O título de doutor que acompanhava seu nome não era pouca coisa num sertão onde homens letrados eram mais raros que pepitas de bom tamanho e onde uma assinatura bem desenhada já bastava, muitas vezes, para conferir ao seu autor certa aura de sabedoria. Sendo padre e doutor, Brandão reunia numa única pessoa duas autoridades diante das quais o homem comum costumava moderar a voz: a primeira lhe permitia falar das coisas deste mundo com a segurança dos instruídos; a outra lhe dava jurisdição sobre assuntos infinitamente mais graves, que começavam na consciência e só terminavam na eternidade.
Alguns habitantes perceberam que o padre possuía talento para harmonizar as necessidades espirituais da freguesia com as possibilidades econômicas dos fregueses. Ninguém poderia acusá-lo de desprezar o ouro
Não se pode dizer que lhe faltasse matéria para o exercício de seu ministério. Os homens das minas bebiam, jogavam, blasfemavam, brigavam por dá cá aquela palha, viviam amancebados, cobiçavam as lavras dos vizinhos, escondiam ouro dos fiscais de Sua Majestade e, quando lhes sobrava tempo, praticavam pecados mais ordinários, desses que não dependem de mina alguma para florescer. Era, portanto, uma população que dava bastante trabalho a Deus e, por consequência, ao seu representante local.
Brandão entregou-se à tarefa com aplicação. Batizava os que chegavam ao mundo; casava os que se decidiam a regularizar neste mundo certas urgências da carne; confessava os arrependidos; encomendava os mortos e administrava os sacramentos com a gravidade própria do ofício. Além de tudo, talvez o mais importante, tratava de assentar nos registros paroquiais a demarcação de limites e o reconhecimento da legitimidade de posse e propriedade de sesmarias. Tudo isso, naturalmente, produzia emolumentos, espórtulas e conhecenças, pois até a salvação das almas, quando administrada por homens, exige livros, registros, sacristão, velas, vinho, farinha e outras despesas que a eternidade, talvez por estar excessivamente distante, nunca se ofereceu para pagar.
Não tardou, entretanto, para que alguns habitantes percebessem que o reverendo possuía talento particular para harmonizar as necessidades espirituais da freguesia com as possibilidades econômicas dos fregueses. Ninguém poderia acusá-lo de desprezar o ouro, mas tampouco seria justo dizer que o estimava por vulgar avareza. Brandão parecia considerá-lo antes como instrumento pastoral: uma substância terrena que, convenientemente transferida das mãos do pecador para finalidades eclesiásticas, podia adquirir surpreendentes virtudes expiatórias.
Foi então que se deu o caso de João Leite Ortiz.
Ortiz não era homem que passasse despercebido. Ligado aos primeiros tempos dos descobrimentos, acostumado aos sertões e aos negócios das minas, possuía prestígio suficiente para que muitos lhe tirassem o chapéu antes mesmo de saber se vinha de bom ou mau humor. Já enfrentara distâncias, doenças, disputas, indígenas, animais e autoridades régias, sendo estas últimas, conforme opinião corrente entre os mineradores, às vezes mais perigosas que todas as outras reunidas. Não seria, portanto, sujeito fácil de intimidar.
Alguém veio lhe dizer que o vigário o acusava de sacrilégio.
— Sacrilégio? — perguntou Ortiz, franzindo o cenho. — E que sacrilégio foi esse?
O portador do recado, que certamente não desejava tomar parte em disputa entre dois homens de tamanha importância, limitou-se a informar que o padre saberia explicar.
— Mas ele disse o que fiz?
— Não, senhor.
— Então como sabe que foi sacrilégio?
Quinhentas oitavas não eram uma penitência vulgar. Representavam uma quantidade de ouro capaz de despertar escrúpulos até num homem que tivesse cometido pecados com considerável entusiasmo
O homem pensou um pouco antes de responder:
— Porque o padre disse que foi.
Ortiz compreendeu que, pelo menos do ponto de vista lógico, aquela conversa não iria muito longe e resolveu procurar diretamente o vigário.
Encontrou Pedro Ferreira Brandão na igreja e apresentou-lhe a questão sem grandes rodeios. O padre confirmou que houvera sacrilégio e, pela gravidade com que pronunciou a palavra, deixou claro que não se tratava de uma dessas pequenas distrações morais que uma oração bem rezada pudesse corrigir.
— Vossa Reverência, posso jurar que não tive intenção de ofender a Deus — argumentou Ortiz, depois de ouvir a acusação.
Brandão olhou-o com aquela paciência reservada aos homens que, por ignorância, acreditam estar apresentando um argumento novo.
— Meu filho, se a ausência de intenção absolvesse todas as faltas, o inferno estaria muito mais vazio do que dizem os teólogos.

Ortiz, que entendia mais de ouro que de teologia, julgou prudente não discutir a população do inferno e perguntou de que modo poderia reparar o dano.
O semblante do vigário tornou-se então mais sereno, quase paternal. A Igreja, explicou ele, era mãe misericordiosa e sabia distinguir o pecador do pecado; sempre havia caminho para o arrependimento sincero, desde que o penitente estivesse disposto a dar prova concreta de sua contrição.
— E qual seria essa prova? — perguntou Ortiz.
— Quinhentas oitavas de ouro.
Por alguns instantes, João Leite permaneceu em silêncio, como se tentasse decidir se escutara corretamente. Quinhentas oitavas não eram uma penitência vulgar. Representavam uma quantidade de ouro capaz de despertar escrúpulos até num homem que tivesse cometido pecados com considerável entusiasmo.
— Quinhentas oitavas, Vossa Reverência?
— Exatamente.
— Tudo isso por causa de um sacrilégio?
— Meu filho, não diga “um sacrilégio” como quem fala de uma galinha roubada de quintais alheios.
Ortiz respirou fundo. A resposta não esclarecia propriamente a questão, mas indicava que o preço não estava aberto a barganha.
Tentou argumentar. Disse que a quantia lhe parecia desproporcional; que não tivera propósito de profanar coisa sagrada e que, até onde alcançava sua consciência, talvez o delito não fosse tão grande quanto o reverendo supunha. Brandão ouviu-o sem se alterar e, quando percebeu que a discussão ameaçava prolongar-se, pronunciou calmamente uma palavra que possuía naquele século eficácia maior que qualquer discurso: excomunhão!
De que servirá ao homem todo o ouro que juntar quando estiver diante do Altíssimo? Alguém respondeu: depende de quem estiver cobrando a entrada. Outro disse: Cala a boca. Quer arranjar um sacrilégio?
Para compreender o efeito que ela produziu em Ortiz é preciso esquecer por um momento o nosso tempo. A excomunhão não era apenas uma ameaça remota, destinada a produzir consequências depois da morte, quando já não houvesse possibilidade de recurso. Num pequeno arraial colonial, onde religião, prestígio, negócios e vida pública se entrelaçavam, ser apartado da comunhão dos fiéis podia converter-se numa espécie de morte social antecipada. Um homem excomungado continuava respirando, mas respirava mal acompanhado ou mesmo inteiramente só, isolado da comunidade em que vivia.
Ortiz conhecia os sertões e seus perigos. Sabia o que era enfrentar uma onça, atravessar rios cheios, negociar com funcionários régios e escapar à curiosidade dos cobradores do quinto, mas não desejava descobrir como seria conduzir seus negócios sob a suspeita de estar oficialmente mal relacionado com Deus.
Pagou. As quinhentas oitavas foram entregues, pesadas e recebidas. Podemos imaginar o silêncio daquele momento: o ouro passando de uma mão para outra, Ortiz acompanhando a operação com a melancolia própria de quem assiste à transferência de uma parte considerável de sua fortuna, enquanto o vigário verificava a quantia com a atenção que a boa administração dos assuntos espirituais certamente recomendava.
Quando tudo terminou, Ortiz perguntou:
— E agora, Vossa Reverência?
— Agora vosmecê está reconciliado com Deus.
João Leite olhou para o ouro que já não lhe pertencia e depois para o padre.
— Sinto-me mais leve.
Brandão assentiu, satisfeito com o efeito da penitência.
— É a consciência, meu filho.
— Também. Mas parece que sinto mais nas algibeiras do que na cabeça.
E saiu.
A notícia correu pelo arraial com a velocidade peculiar das notícias que envolvem religião, dinheiro e desgraça alheia. Em pouco tempo todos sabiam que João Leite Ortiz pagara quinhentas oitavas por um sacrilégio, embora ninguém soubesse explicar com segurança em que consistira a ofensa. A ignorância dos detalhes, longe de diminuir o episódio, tornou-o ainda maior, pois a imaginação humana costuma trabalhar com especial diligência quando os documentos faltam.
— Mas o que ele fez? — perguntava alguém.
— Não sei.
— Então como sabem que foi grave?
— Ora, homem, se não fosse grave não teria custado quinhentas oitavas.
E assim, por uma dessas curiosas operações do raciocínio coletivo, o valor da penitência passou a provar a gravidade do pecado, enquanto a gravidade presumida do pecado justificava o valor da penitência. Era um círculo lógico perfeito e, sobretudo, muito difícil de se contestar sem correr o risco de entrar nele.
Depois disso, a vida religiosa do arraial conheceu inesperado florescimento. Homens que havia meses não apareciam à missa passaram a ocupar discretamente os bancos da igreja; blasfemadores reduziram o volume das imprecações; amantes irregulares começaram a considerar as vantagens econômicas do matrimônio; e até os jogadores, antes de lançar os dados, faziam o sinal da cruz, embora talvez não por devoção, mas para evitar que uma sequência de azar viesse a ser interpretada pelo vigário como indício de pecado mais caro.
Público contrito, alguém cochichou no fundo da igreja do padre Pedro Ferreira Brandão: além de ordenhar as ovelhas sem dó nem piedade, o vigário ainda faz nelas uma tosquia até não restar nem um fiapo de lã
Um minerador, que vivia amancebado havia onze anos, chegou certa noite em casa e anunciou à companheira:
— Maria, estive pensando. Acho que devemos casar.
A mulher, que já perdera a esperança de ouvir semelhante proposta, encarou-o desconfiada.
— Depois de onze anos?
— Soube do caso de João Leite.
— E finalmente criou temor de Deus?
— De Deus, sempre tive. O que me faltava era conhecer os preços.
O padre, naturalmente, continuava a pregar contra os vícios do século, e fazia-o com particular veemência quando tratava da cobiça. Num domingo, subiu ao púlpito e falou longamente sobre a loucura dos homens que acumulavam riquezas terrenas, esquecidos de que nada levariam consigo ao túmulo. A igreja inteira escutava em respeitoso silêncio quando ele levantou a voz e perguntou:
— De que servirá ao homem todo o ouro que juntar neste mundo quando estiver diante do Altíssimo?
Lá no fundo, alguém cochichou:
— Depende.
O vizinho voltou-se, alarmado.
— Depende de quê?
— De quem estiver cobrando a entrada.
A cotovelada que recebeu nas costelas quase o fez cair do banco.
— Cala a boca, infeliz. Quer arranjar um sacrilégio?
Não se sabe exatamente quando começaram a circular comentários sobre a prosperidade do vigário. Alencastre, escrevendo muito depois, haveria de atribuir-lhe arrecadação extraordinária durante os anos de ministério, e cifras dessa natureza, quando atravessam um século antes de encontrar um historiador, chegam sempre acompanhadas de certo perfume de lenda. O certo é que os habitantes das minas, especialistas em avaliar ouro alheio, começaram a fazer contas.
Somavam batizados, casamentos, enterros, espórtulas, conhecenças e tudo quanto imaginavam que pudesse produzir rendimento. Naturalmente, nunca chegavam ao mesmo total, porque cada contador acrescentava ao cálculo alguma cerimônia esquecida pelo anterior; mas todos concordavam num ponto: a atividade espiritual do arraial parecia bastante próspera.
José Martins Pereira de Alencastre haveria de recolher em seus Anais da Província de Goyaz a lembrança do vigário Pedro Ferreira Brandão e da pesada quantia exigida de João Leite Ortiz por sacrilégio
Foi nessa ocasião que um velho minerador, homem de poucas letras e muita experiência, resumiu a situação numa venda:
— Não vejo motivo para criticarem o vigário.
Os outros olharam para ele, surpresos.
— Então acha tudo isso normal?
— Acho que o homem tem talento.
— Talento para quê?
O velho tomou um gole antes de responder:
— Descobriu uma lavra que não precisa de bateia.
— E onde fica?
— Na consciência dos outros.
A frase agradou e começou a percorrer o arraial, recebendo a cada repetição um pequeno aperfeiçoamento, como acontece com toda boa maledicência. Quando finalmente chegou aos ouvidos do vigário, já diziam que Pedro Ferreira Brandão encontrara a única mina dos Goyazes que nunca secava: o pecado humano.
Brandão não apreciou a metáfora.
No domingo seguinte pregou contra a maledicência, lembrando aos fiéis que levantar suspeitas contra um sacerdote constituía falta grave e podia, conforme as circunstâncias, exigir penitência igualmente grave. A advertência foi recebida com tanta atenção que alguém, escondido entre os últimos bancos, perguntou em voz baixa:
— Quantas oitavas?
Alguns riram. Não foi uma gargalhada, mas aquele riso abafado e perigoso que começa num canto e logo ameaça contaminar uma multidão. O padre interrompeu o sermão e percorreu a igreja com os olhos. Imediatamente fez-se silêncio.
— Há entre vós — disse, com voz severa — quem esteja tratando com pouco respeito as coisas sagradas.
João Leite Ortiz estava presente. Talvez tivesse guardado ressentimento desde o episódio das quinhentas oitavas; talvez apenas tivesse chegado à conclusão de que, depois de pagar tão caro, adquirira ao menos o direito de fazer uma pergunta. Levantou a cabeça.
— Vossa Reverência…
Brandão reconheceu a voz e pareceu por um instante lamentar que a Providência não tivesse escolhido outro interlocutor.
— Que deseja, João Leite?
— Apenas esclarecer uma dúvida. Esse pouco respeito de que o senhor vigário fala pode ser considerado sacrilégio?
A igreja inteira ficou imóvel.
— Dependendo das circunstâncias, pode.
Ortiz assentiu gravemente, como quem acabava de receber uma informação importante.
— E continua a valer quinhentas oitavas?
O sacristão tossiu com violência. Uma velha escondeu o rosto atrás do lenço. Do fundo da nave veio um primeiro riso, depois outro, e logo a igreja inteira lutava contra uma hilaridade que nenhum sermão parecia capaz de conter.
— Pois saiba vosmecê, senhor João Leite, que meu dever é zelar pelo bem das almas das ovelhas que foram confiadas ao meu pastoreio pela Santa Madre Igreja.
E alguém cochichou lá no fundo:
— Além de ordenhar as ovelhas sem dó nem piedade, o vigário ainda faz nelas uma tosquia até não restar nem um fiapo de lã…
Pedro Ferreira Brandão permaneceu no púlpito, olhando para Ortiz. Ortiz, por sua vez, sustentava o olhar com a serenidade de quem já conhecia o pior preço da tabela. Durante alguns instantes, enfrentaram-se ali duas forças consideráveis daquele mundo colonial: de um lado, a autoridade espiritual de um vigário doutor; do outro, a insolência cautelosa de um homem que já havia comprado a experiência de uma excomunhão evitada.
Quando finalmente o silêncio voltou, Brandão ergueu a mão e concluiu:
— Há coisas, senhor João Leite, que dinheiro algum pode pagar.
Ortiz abriu um sorriso.
— Fico muito descansado, Vossa Reverência. Quinhentas oitavas uma vez só já me ensinaram bastante teologia.
Dessa vez ninguém resistiu. A gargalhada espalhou-se pela igreja, atravessou a porta e chegou à rua. Riram mineradores e comerciantes, mulheres e soldados; riu o sacristão, embora prudentemente de costas para o vigário; e até alguns escravos que permaneciam junto à entrada deixaram escapar um sorriso, pois o ridículo, ao contrário do ouro e da liberdade, era uma das poucas riquezas que circulavam naquele mundo sem respeitar condição ou hierarquia.
O padre esperou que o tumulto diminuísse. Talvez tenha pensado em censuras, penitências e excomunhões; talvez, sendo homem inteligente, tenha percebido que nenhuma autoridade sai engrandecida quando tenta proibir uma gargalhada. Limitou-se, portanto, a encerrar a celebração e mandou que todos fossem em paz.
Ortiz já alcançava a porta quando se voltou.
— Vossa Reverência!…
Brandão fechou os olhos por um instante.
— Que há agora?
— E o riso?
— Que tem o riso?
— Não merece penitência?
O vigário olhou para a igreja ainda com bastante gente, como se avaliasse a extensão do delito e, quem sabe, as consequências práticas de condenar toda a freguesia. Depois respirou fundo e respondeu:
— Desta vez, Deus perdoa.
Ortiz esperou um instante antes de perguntar:
— De graça?
Houve novo rumor entre os presentes. Aquilo, sim, parecia extraordinário. Numa terra em que o rei cobrava o quinto, a Igreja recebia seus direitos, os comerciantes cobravam pelo sal, os tropeiros pelo transporte e até os mortos custavam alguma coisa antes de chegar à sepultura, a notícia de um perdão gratuito tinha quase a natureza de um prodígio.
João Leite tirou o chapéu e inclinou respeitosamente a cabeça.
— Então, Vossa Reverência, hoje vimos um milagre.
E foi embora antes que o milagre pudesse ser revogado.
Com o tempo, outros acontecimentos vieram ocupar as conversas das minas. Novas lavras foram descobertas e outras se esgotaram; homens enriqueceram e empobreceram; chegaram governadores, fiscais, soldados, comerciantes, aventureiros e novos sacerdotes. O arraial de Sant’Ana cresceu, ganhou feições de vila e acabou por se transformar naquela Vila Boa que durante tanto tempo haveria de guardar, entre suas casas, igrejas e becos, a memória contraditória dos primeiros anos do ouro.
Pedro Ferreira Brandão também desapareceu nas dobras do tempo, como desaparecem quase todos os homens que um dia imaginaram ocupar posição central no mundo. João Leite Ortiz seguiu o mesmo destino. Contudo, as quinhentas oitavas sobreviveram a ambos, porque certos episódios possuem a estranha propriedade de conservar aquilo que os homens prefeririam esquecer. Mais de um século depois, José Martins Pereira de Alencastre haveria de recolher em seus Anais da Província de Goyaz a lembrança daquele vigário e da pesada quantia exigida de Ortiz por um sacrilégio que o próprio historiador trataria com manifesta desconfiança.
Talvez aí resida a ironia maior de toda a história. Pedro Ferreira Brandão pretendeu salvar a alma de João Leite Ortiz, ou pelo menos discipliná-la, e para isso fez pesar sobre ela quinhentas oitavas de ouro. Não sabemos se a alma foi efetivamente salva, porque os arquivos, prudentes diante dos assuntos da eternidade, nada dizem a respeito. Também não sabemos por quantas mãos passou depois aquele ouro, nem que destino encontrou.
Sabemos apenas que, entre a alma e as quinhentas oitavas, foram as oitavas que entraram para a História.
E talvez isso diga alguma coisa sobre aqueles tempos.
Ou sobre todos os tempos.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.


