Voltando à Adolescência

Reprodução/Tumblr

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Saulo Montefusco

No descanso do sol, um manto de fundo negro com pontos reluzentes invade a cena. Minha mente nada vazia, embora sem expectativas quanto ao ventilar de pensamentos e lembranças, recolhi-me ao quarto sem pressa e em movimentos lentos, coloquei a roupa peculiar de quem sente vontade de dormir.
Deitei-me no leito de descanso, repousando a cabeça ao travesseiro. Sobreveio um sentimento antagônico que, embora perturbador, confuso e angustiante, parecia ser a melhor e mais profunda sensação de prazer que um dia eu já havia experimentado.
Sem vontade ou intenção de dormir, rolava de um lado ao outro com a impaciência flagrante de quem não vê lugar no mundo que pudesse trazer uma sensação de refrigério.
As horas noturnas exauriam-se sem, contudo, minimizar aquele processo mental gerador de somatizadas sensibilidades, que trazidas a termo, eram: os meus lábios adormecidos, ao mesmo tempo em que o calafrio na barriga coincidia com aqueles pensamentos e lembranças; também meus pés gelados como expostos à brisa fria de uma madrugada ao relento. Experiência sem igual já vivida!
Voltei meu olhar para entre as escâncaras da janela. Vislumbrei-me admirado, com a cabeça inclinada ao cume, e com os olhos fitos àquelas cintilantes ali presentes. Percebi num dado instante que meus olhos não se desviavam de uma estrela, apenas uma estrela.
Aquele momento tornou-se mágico, inovando e reciclando pensamentos e sentimentos que somente poderiam ser de felicidade.
Diante de tamanha emoção, flagrei-me traído pelos olhos, que, fitos àquela que se sobressaía em meio às outras, fez-se transbordante, molhando meu travesseiro. E quanto mais em seu cintilar piscava para mim, mais lágrimas corriam, por ser correspondido ao flerte.
Àquelas alturas, já era patente o sono que se aproximara manso, mas que ainda assim eu me fazia relutante no intuito de eternizar o que aqui está referenciado.
Muito embora eu tenha me deixado levar, impotente à força sonífera, flertávamos nos embalos de um sonho, que mais fez tornar definitiva a paixão que me deu a certeza de sua qualidade especial de ser.
Somente a magia daquela estrela poderia fazer eu sentir tudo isso, e essa estrela, bem…, você sabe, é você!

Saulo Montefusco é poeta, cronista e romancista; membro da União Brasileira dos Escritores (UBE-GO).

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