Você quer ser escritor? Então, prepare-se para o mercado editorial

Nega Lilu, R&F Editora dão lições de “como fazer livro” e os escritores Edival Lourenço e Kaio Bruno Dias acrescentam: “Não é nada fácil”

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Autora de “Sem Palavras” e “Agora Eu Te Amo”, Larissa Mundim lidera a Nega Lilu Editora, que desbrava novos caminhos do mercado livreiro goiano | Foto: Lu Barcelos

Um dia te escreveria um e-mail de conteúdo profissional, meio longo, e com mensagem subliminar. Assediada há algumas semanas, você simplesmente me responderia: “Te quero”.
Se conseguisse, não te responderia, deixando uma palavra no ar para quando nos encontrássemos e eu pudesse sorrir pra você. De outra forma, simplesmente te enviaria um “Também” e ficaríamos as duas à espera de um encontro que, se dependesse de mim, seria casual. Mas para construir uma relação diferente, entraria em sua sala sem avisar.

Nega Lilu

Yago Rodrigues Alvim

Entraria e ficaria, nos primeiros minutos, como encadernação vistosa pousada no braço do sofá. Depois, mais provavelmente, ficaria no criado-mudo ou perto do travesseiro, até que alcançasse o banheiro, a bolsa, a mesa do café-da-manhã, mote de conversa descompromissada, bilhetinho de amor. Ficaria todo com folhas marcadas, rastros de café, alguns riscos a lápis, senão com folhas arrancadas, endereçadas ou até com endereço novo. “Presente cheio de memórias.” Alcançaria, no fim, biblioteca mixuruca – a mais bela, se acompanhada de bons outros livros bem gastos; daqueles que arrancam sorriso pela memória de tê-lo tido até hoje, marcando os dias com títulos, frases e porquês de­masiados e substantivos. Coisas inexplicáveis.

Como quando nascem, inexplicavelmente, em meio a tantas outras folhas emboladas ao redor ou – mais verossímil – em meio a tantos arquivos descartados, palavras e frases e orações apagadas, desistidas. Assim, nascem os textos. E, depois, nasce a jornada de fazê-lo respirar. E muitas outras folhas são jogadas fora, emboladas com conversas, ideias, planos; ansiedade de vê-lo com autógrafo seu, entregue com sorriso a quem admire já a capa, o título. Tudo no lixo, se não fosse aprendizagem e coragem de torná-lo coisa nova.

Sem Palavras

Larissa Mundim acordou um dia com aquela coisa toda escrita. Queria levantar, cascar fora da zona de conforto criativa. Já tinha o amontoado de palavras – seu primeiro romance de ficção. Como dar vazão à obra, se perguntava ainda com o chuveiro aberto. E, talvez, antes mesmo que colorisse de marrom a xícara branca, pegou o telefone. A gerente de sua livraria preferida foi logo botando pontos naquelas indagações todas. “Não, não tenho editora. Não tenho quem me representa; só um registro como autora-editora na Fundação Biblioteca Nacional. Indepen­dente”, pensamento rebatido com a indagação “imagina um leitor olhando um livro que tem uma chancela de uma editora e outro que não tem nada? Ele já começa sem crédito, antes mesmo que a pessoa leia. Já começa na lombada, que não tem chancela. Sem editora, não conseguira sequer vender por consignação”.

É obvio que ter editora tampouco lhe garantiria lugar nas prateleiras; menos ainda se fosse chancela de gatos pingados – as livrarias preferem editoras que não sejam nano, que tenham diversos títulos, para um trabalho menos árduo na contabilidade. Queria ser autora de sua ter­ra goiana, não quis papo com gente de fora. Não naquele mo­mento, afinal, há sempre que se expandir horizontes e queria, como qualquer um, encontrar seu nome numa viagem à Bahia, São Paulo, Curitiba.

— Eu agradeci as informações e, con­fiante no projeto em torno do livro, fiz uma busca; mapeei as editoras goianas e não reconheci, no perfil delas, uma que me satisfizesse. O livro é diferente; tem uma arquitetura, uma estética muito contemporânea. Eu concluí que nenhuma editora local me interessava ou se interessava pelo meu projeto. Resolvi, então, abrir minha própria editora. Abri a Nega Lilu Editora.

O livro já estava na gráfica e a logo precisava existir, de fato, antes que o livro impresso estivesse em sua festa de lançamento. O CNPJ da empresa só é dez dias mais velho que “Sem Palavras”, o livro. Assim, respirou Mundim antes mesmo que descalçasse os sapatos para descansar e dormir ante o fim de sua primeira cruzada.

Hoje, a Nega Lilu Editora é conhecida por fazer “livros bonitos”. Na casa moram Mundim, sob o título de coordenadora editorial (a pessoa que bota a mão no livro), Daniela Marcacini e Vinicius Vargas, os revisores técnicos (que cuidam dos acentos, vírgulas e sentidos amarrados pela tão conhecida gramática do português), Paulo Batista, o designer (que se debruça na identidade visual e diagramação) e Carlos Sena, sob o título de produtor gráfico (ele que se atenta aos formatos, materialidades e funcionalidade do livro; a gramatura do papel, o público alvo e suas necessidades e outros importantíssimos detalhes).

O quinteto fantástico conta com uma gráfica de segurança, que permite livre trânsito no chão da fábrica, onde verificam o trabalho. Eles jogam no time do autor. O fazer do livro é assim. Primeiro, discutem o que está na cabeça de quem pôs aquilo em palavras e o livro mais executável e afável possível. O fluxo é criativo, na base da troca. “Fazemos livros bonitos”. O slogan, é mais que isso: é fazer de cada livro, projeto único.

Com essa ideia nasceu o segundo filho: “Agora Eu Te Amo”. Mais simples e, nem por isso, de qualquer outra editora. A comunicabilidade de Mundim, que é jornalista por formação, espraia todo o fazer do livro.

— Pensamos em campanhas, estratégias de divulgação, promoção, toda uma assessoria do livro, que carrega o nosso trabalho enquanto “empresa que faz livros”.

No pequeno tempo de atuação, a experiência é híbrida. Sem capital para investir em um livro que acredite, a equipe tem lá suas estratégias: com cache definido, trabalham na captação de projetos que tem incentivo de leis, investimento direto do autor ou investimento parcial público e privado. A quantidade de projetos que chega espanta Mundim. “Esta­mos finalizando dois, preparando cinco e flertando com três. Se chegarmos a 12 livros por ano, que é quase o que estamos vendo acontecer em 2015, nós superaremos uma meta que era inacreditável em um momento que você só tem dois livros publicados.”

São propostas de autores de conteúdos ousados e engavetados porque, até então, sentiam que não havia alguém que os representasse. Sen­tiam-se inadequados. Muitos surgem buscando oxigênio para continuar a produção. Muito é sobre o caminho das pedras.

Mundim aprendeu, entre as folhas dos dias, que a cadeia produtiva literária tem três estações: a primeira ponta, onde vivem as ações de estímulo à leitura, a formação de leitores; o meio, com a produção do livro; e a outra ponta da cadeia, onde estão a circulação e a comercialização do produto literário.

— Historicamente em Goiás, existe um financiamento público no meio da cadeia produtiva. Isso, na produção do livro e na valorização intelectual de quem está por trás dele, formando de certa forma uma cadeia muito centrada no indivíduo, pouco atenta às necessidades do coletivo, que são seus leitores – crianças, jovens e adultos que vão ler esse livro –, e pouco atenta também às alternativas de escoamento da produção.

— Estimulados pela Lei Goyazes e pelo Fundo Estadual de Cultura, mecanismos disponíveis atualmente, muitos não têm perspectiva de circulação do produto. Esses muitos autores conseguem a publicação, mas fazem um trabalho sem vigor para que a obra circule. Sem pla­no de venda, distribuem os livros ale­atoriamente, para quem não tem interesse algum em ler o trabalho (a­que­la coisa de familiares, amigos). Al­guns morrem em sebos e sequer che­gam às livrarias. Puro caminho torto.

Com parceiros, a Nega Lilu realiza oficinas, bate-papos e palestras para que o leitor e o leitor-autor tenham acesso aos autores goianos, para que entendam o processo criativo, o caminho das pedras. A natureza da editora é transferência de know hall, um jeito, de fato, mais humano, que conscientiza e promove uma literatura não panfletária, que promove alguma atualização, algum ganho; como aquele guardado na biblioteca, para que, cada vez mais, seja biblioteca farta e valiosa.

Como diz Mundim, “os livros nascem de manifestações de desejos diversos”. Tem o ego, a crença de ser algo relevante, sonho em registrar memórias, literatura de raízes pessoais e as que tangenciam outros territórios (nenhuma exclui a outra). Essa última, que pode nascer de qualquer desejo, causa arrepio, não se encerra em si: ela dialoga com outras humanidades. Ela vira dança, vai para o teatro, vira filme. Tem sempre alguém querendo fazer uma adaptação. É quando a literatura provoca desdobramentos em outras linguagens artísticas.

A verve da obra, que gera vida, quem mostra é o leitor. E isso, muitas vezes, é medido pelo mercado livreiro. “O mercado é termômetro para entendimento também de aceitação da obra.” “Sem Palavras”, por exemplo, é “um best-seller do cerrado”, brinca a autora de forma séria. Isso é know hall: o autor, que não consegue criar relações ou canais para acessar ou ser acessado pelo leitor, tem uma obra que não cumpre seu ideal. E o ideal é mais que vender livro, é fruir o trabalho para que, além de ser adquirido, de ser objeto de desejo, seja também objeto de troca, de retorno. E não há nada melhor para o autor que o contato com o leitor. Para isso, é preciso que os escritos adentrem, de alguma forma, a sala de estar. Quiçá, a biblioteca.

R&F

Há 16 anos no comando da R&F Editora, Izaura Maria ressalta a necessidade de valorizar as editoras, os escritores e os leitores goianos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Há 16 anos no comando da R&F Editora, Izaura Maria ressalta a necessidade de valorizar as editoras, os escritores e os leitores goianos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Na vontade de botar autor goiano nas livrarias e espalhar todas suas letras pelo Brasil afora, Iazura Maria correu outros caminhos. Já há quase 16 anos trilhando-o sob o título de R&F Editora, nem viu o tempo passar. Logo no início, viu que só publicar goianos era tarefa árdua e requeria lá, para equação, acrescer alguns títulos de fora para dar visibilidade e estreitar laços com distâncias maiores. Já na casa dos 18 filhos por ano, Izaura dá aula sobre esse mercado que Mundim vêm trilhando –– ah, vale lembrar que ambas mobilizam ações e palestras juntas, afinal, a união faz a força, não é mesmo?

Logo de cara, noutra conversa, lançou a seguinte realidade: “O mercado nacional é muito restritivo com seus próprios autores”. Ou seja, balela que nos outros Estados, os escritores não vivem tais dificuldades e implicações desta vida profissional. Com respeito a qualquer outra editora nacional de seu porte, a R&F enfrenta uma cruzada diferente: a da literatura estrangeira. Muito do consumo é de títulos importados. O ponto está na mídia –– ponto de circulação e promoção tão bem dilacerado por Mundim.

Além de toda primazia e qualidade na impressão, ligada a todo projeto editorial, Izaura cumpre o papel de uma editora: publicar. Mas vai além: disponibilizá-lo no mercado livreiro. E isso faz com que muitas editoras goianas sejam, na verdade, meras gráficas – que não têm compromisso editorial algum.

— Ela recebe o material, im­prime e devolve para o autor. A editora não tem esse papel. A editora pega o livro para análise, publica o livro e paga o direito autoral ao escritor.
Isso dedilha o assunto da profissão de escritor: não é reconhecida. São poucos os autores que vi­vem apenas da escrita – a não ser que sejam jornalistas e essa já é ou­tra profissão. É necessário, para vi­ver das palavras, muitos títulos, a­nos de profissão, empenho. É um tra­balho de conquista do leitor. Izau­ra recorda uma historieta engraçada:

— Luis Fernando Veríssi­mo, por exemplo, vive de livros hoje. Ele tem um nome, até uma herança que herdou do pai, e traz muitos títulos disponíveis. Além disso, tem de uma gama de leitores já conquistados. Eu me lembro de uma oportunidade em que eu estava em Brasília, dentro da livraria Siciliano, e tinha sido lançado o mais recente livro dele. Eu vi adolescentes eufóricos, na frente do livro dele “NOSSA! NOVO LIVRO DO VERÍS­SIMO!” e eu fiquei “gente, olha só”. Foi algo muito interessante.

No reduto estadual goiano, a ação é tímida. Existe o sonho e o vislumbre em ser autor, mas existe o receio de se expor ao público. É quase que uma dificuldade de falar, ela conta. “Uma dificuldade em ser protagonista de seu livro mesmo, até em eventos literários, e isso atrapalha muito a qualidade do nosso texto. Ele, com essa vergonha, em querer que o livro caminhe sozinho, acaba não tendo feedback. Ele acha que o texto é suficiente, mas o lapidar do texto é necessário para o autor crescer. Do contrário, o que existe é muito prejudicial à nossa literatura. O nosso autor tinha que se expor mais enquanto autor; até porque o que não é visto, não é lembrado.”

Quando a pergunta se volta às editoras, na forma de “como sobrevive uma editora em Goiânia”, a pergunta que vem é outra: “Você acredita em milagres?”. Ela acredita. Não sabe bem porque está há quase 16 anos no mercado, mas está. E isso não é só para a editora da R&F.

— Eu ouço a mesma reclamação de editores com um volume de movimentação maior que o meu e, consequentemente, com um custo operacional também maior. É generalizado.
A R&F trabalha mais com aposta no mercado literário, que com participação de lei de incentivo. Quando o autor chega com um projeto que foi captado, conta ela, ele tem um comportamento mais “duro” com a fase editorial. É como se aquela ideia de livro, que está só na cabeça do escritor, enrijecesse a própria maleabilidade que um livro inexistente pode ter. Muitas vezes, o autor acaba inviabilizando a obra.

A afirmação encontra o mesmo argumento de que as leis de incentivo têm apostado em um fomento que precisa ser repensado. “A linha editorial, talvez, precisasse de um estímulo para produzir melhor o livro para saber enfrentar uma logística de distribuição. Tampouco existe recurso para mídia, para fazer a própria divulgação do livro.”

— O gargalo não é na produção, é no comércio. Se a lei de in­cen­tivo focasse na produção de eventos literários, que trouxesse mídia e projetasse a produção goiana, nós teríamos autores goianos vistos lá fora e isso não existe, hoje.

Não existem atualmente nem as tais bibliotecas em casa. São poucas, de poucos livros. Na adolescência, Izaura se deslumbrava com estantes, com aquele amontoado de títulos. E se não bastasse o acervo literário do escritório, podia ainda visitar a biblioteca pública. Pegar livros, devorá-los. Hoje, continuam abertas ao público, mas quase não se vê ali autores goianos. São os tais gatos pingados. E para que cheguem às bibliotecas, às casas, à sombra de uma árvore, é preciso que eles existam. É preciso escritores e é preciso que se espraie, por aí, que autores vivem de livros, pois, do contrário, minguará cada vez mais os tais gatos.

O outro lado da moeda: quer entrar no mercado editorial? Prepare-se para os ossos de ser escritor

não sei qual é a relação
que você tem com meu estômago
mas toda vez que ele te vê
ele embrulha, se remexe todo
fica num mal estar tão bom
acho que meu estômago gosta de você.
                             Kaio Bruno Dinossauro

Autor de PEG & PAG, Kaio Bruno alerta: “Tenho amigos que vendem muitos livros, mas nenhum vive exclusivamente das rendas deles” | Foto: Alessandra Castro

Autor de PEG & PAG, Kaio Bruno alerta: “Tenho amigos que vendem muitos livros, mas nenhum vive exclusivamente das rendas deles” | Foto: Alessandra Castro

Embrulha e tem outros verbos que vão encadeando, definindo as relações e, até, indefinindo-as. É o que causa a vida. O jeito, algumas e muitas vezes, é pô-las em palavras. É o que tem feito Kaio Bruno Dias, o Dinossauro. A escrita é uma das principais formas de expressão da humanidade e, assim como qualquer outro ser humano neste planeta, sujeito a esse mar de sensações boas e ruins; Kaio foi personificando isso em rascunhos, escritos, versos. Ele crê que, pela sobrevivência aos perrengues, seus escritos foram mais contínuos, tanto que o blog, criado em 2008, virou livro (lançado em 2012). Livro já esgotado.

Virou coisa física, cheia de páginas, pela vontade de compartilhar com cada vez mais pessoas. Com o título PEG & PAG, os versinhos estão espalhados por páginas e prateleiras da encadernação: “Pegue o que melhor te convir”. Kaio é um dos que vivem o processo de escrita e de seus desdobramentos. Após rascunhar todo o livro no blog, percebeu a importância de um livro físico e entendeu no retorno: esgotaram, afinal.

Na espera pela nova tiragem, prepara o lançamento de “Respeite a Solidão Alheia”, feito do mesmo modo: todo rascunhado na internet e, agora, em prospecção de projeto físico. Uma coisa ajuda a outra. Se alguém se identifica com o que está escrito, ele lê de onde for e procura o livro para comprar ou entra em contato com o autor e pede com dedicatória… Isso aconteceu muito com o PEG & PAG, conta.

Em meio a viagens de trabalho (Kaio escreve poesias e canta músicas), conheceu outras cenas culturais, outras perspectivas de mercado. Numa dessas, conheceu a Scortecci Editora. Já que as verdades que constituem o mercado editorial lhe eram conhecidas, quis, mais uma vez, sobreviver:

— Um grande problema atual é que o escritor, quase sempre, paga para ser publicado e quem imprime o livro sequer o ajuda a distribuir; fica lá o escritor com a sua obra guardada em casa, sem saber como vender ou divulgar esse livro recém-lançado; até por que o livro é um produto e qualquer produto, para ser vendido, precisa ser divulgado, seja pela internet, em assessoria de imprensa, publicidades ou conquistando leitores de forma orgânica.

Por isso, diferente de muitos li­vros que saem de editoras (que mais são gráficas) apenas por uma autorealização, PEG & PAG ganhou editora e até a Bienal Internacional do Livro e prateleiras de algumas livrarias nacionais. O livro faz parte de um projeto contínuo para Kaio; um projeto consciente e que não se encerra em si. Dele, já compartilha a dificuldade de sobreviver de um mercado, cuja renda é dividida e o pedaço maior não fica com o escritor.

— Tenho alguns amigos que vendem muitos livros, mas nenhum vive exclusivamente das rendas deles. O PEG & PAG, por exemplo, vendeu até bacana: mais de mil livros em sites e bookshops pelo Brasil a fora. Dos vinte reais, valor do livro, se divide por três [entre autor, editora e livraria/bookshop] e, igual disse, o pedaço maior nunca é do escritor.

Noutros Morros

Ganhador dos prêmios Jabuti e Jaburu, Edival Lourenço: “Há editores locais com muita dedicação e estratégia para superar dificuldades desse mercado” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ganhador dos prêmios Jabuti e Jaburu, Edival Lourenço: “Há editores locais com muita dedicação e estratégia para superar dificuldades desse mercado” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Na casa dos oito anos de idade, começou a estudar, o que lhe traria a sorte na literatura. Morava num rancho de folhas de palmeiras, afastado de vizinhos. Apenas aos patrões cabia o oficio de ler e escrever. A mãe não lia, o pai só soletrava – tinha quase uma gagueira pré-leitura, ele conta. Das margens do Rio Claro, no oeste goiano, via suas botas já pelo caminho: seria como os demais meninos, no trabalho rural com os pais. A historieta do menino de oito anos se apruma com um moço do Biotônico Fontoura. Foi por ele que, hoje, Edival Lourenço é o conhecido autor de “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, premiado com o Jabuti e o Jaburu, respectivamente, os prêmios mais importantes da literatura nacional e goiana.

Acontece que o moço do Biotônico Fontoura passou por lá e deixou um almanaque para o então menino que se punha a “ler” para todos, que fingiam bem que ele sabia ler. Deixou o almanaque depois do pai preparar-lhe um molho de frango, já que a venda do Biotônico ficaria para outros parágrafos. No interim, passeou por umas historinhas ou, nas palavras de Edival, “correu os olhos sobre aquelas fileiras de formiguinhas mortas em cima do papel e foi falando coisas que ele achava tão bonitas”.

Quis estudar, ler mesmo formiguinha por formiguinha. E, em 1963, já na casa dos 11 anos, comprou, com o fruto da venda duma colheita de feijão, seu primeiro enxoval de estudante e empreitou um curso no Grupo Escolar Israel de Amorim, em Iporá. “Acho que foi um milagre. O que posso fazer para beatificar o Almanaque do Biotônico Fontoura?”.

Já na década de 70, mudou-se para a capital pela bondade de sua tia Abadia: “Vem ficar na casa da tia. Onde comem doze, comem treze”. Dividia-se entre o Colégio Pedro Gomes, capinação de lotes, faxinas noutros colégios e empacotamentos na Revolução Teci­dos. Peram­bulou o escriturário do antigo Banco Real até ser chamado para trabalhar na Caixa Eco­nô­mica Federal, onde havia sido a­provado num concurso. Foi um salto na qualidade de vida. Tanto que devorou livros e folhas em branco: escreveu algumas coisas. E, já em 1983, publicou seu primeiro livro: uma produção independente cheia de poemas.

No correr do tempo, ele salta para 1992 quando tirou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Romance do Paraná, com “A Centopéia de Neon”. Tantas portas se abriram que foi livro de peneira de universidade federal. Então, veio a pesquisa em livros, documentos, museus, garimpos antigos, sociedades remanescentes e até as visitas a Portugal e Espanha, que lhe deram o livro vencedor do 2° lugar do Jabuti, em 2012. Foram 10 anos debruçados sobre o verbo explorar.

Em março deste ano, veio “Poesia Reunida”, seu último livro publicado. A publicação, mais vultosa, é uma tentativa de salvar versos antigos, encadernados em livros já fora de catálogo, do esquecimento.

A historieta valiosa a este texto é do ano de 2010, quando foi apresentado ao editor da Hedra. Numa prosa regada a queijos e vinhos, na casa de um amigo, conheceu Bruno Costa, o responsável pela editora do eixo Rio-São Paulo. Foi ali que entabularam uma negociação para publicar o romance.

— Existe certa tirania, um determinismo geográfico. Livros publicados nos Estados periféricos ficam por lá. Livros publicados nos Estados mais centrais se distribuem melhor. Mesmo as redes so­ciais não conseguiram, ainda, su­perar essas dificuldades regionais. Sinto que há editores locais com muita dedicação e estratégia na busca de superar essas dificuldades. E acredito que com o tempo isso será superado. É quase um preconceito de origem, que não faz mais sentido em nossos dias.

A distribuição do livro continua sendo uma das maiores barreiras para os escritores e Edival sabe bem que mesmo as grandes editoras de São Paulo têm dificuldade de distribuição. As livrarias querem, em suas gôndolas e vitrines, livros que vêm embalados por muito marketing. “Elas querem tipo ‘50 semanas na lista do New York Times Book Review’ e coisas assim.”

No que concerne à divulgação, ele não titubeia: “É muito importante, afinal, vivemos numa sociedade de mercado e o livro é uma mercadoria; com suas especificidades, claro”. Uma editora é uma marca que vai acostada no seu livro – a tal chancela da lombada. E, um pouco mais além, encontra a realidade que uma editora, e só, não é nada suficiente.

— Pegue a lista dos mais vendidos e você verá que raramente vai aparecer literatura brasileira. Acho que o livro brasileiro não tem penetração mercadológica para receber a divulgação que o tornaria vendível. O reconhecimento fora fica restrito ao nicho do pessoal que trabalha com literatura e é difícil ter retorno financeiro com livro literário. Por isso, é mais que necessário que existam as leis de incentivo. A literatura é importante, mas não tem sua importância reconhecida no grau que deveria.

Sem os números de cabeça, Edival lembra uma pesquisa, queconstatou que quem lê literatura (que não é muita gente) têm preferência pelo livro em suporte papel. “Sou capaz de ler um livro técnico no computador, mas literatura eu prefiro no papel. Isso deve mudar com o tempo. As novas gerações, certamente, não sentirão nostalgia por papel. Ainda não tenho livro na forma e-book. Alguns conhecidos meus que publicaram em e-book não obtiveram grandes resultados. Um dia, quem sabe…”

A esse assunto, a escritora Larissa Mundim acrescenta a perspectiva:

— À medida que temos um mercado crescente dos readers e dos e-books – que eu espero que seja muito maior para facilitar o acesso, sobretudo para quem está estudando e tem muitos livros para ler, afinal você poderia comprar livros por um valor muito baratinho –, o livro no formato físico ganhará status para ser adquirido. Nós precisamos ter um aumento nos números dos títulos no formato eletrônico na literatura mundial, cuja escala não é nem 1% ainda. Se hoje, você tem um e-book, só para uma leitura rápida de pesquisa, ele vale; mas, se você quiser para biblioteca, para cabeceira, ele será de papel, terá um cheiro bom, a folha fará um barulhinho quando virar. Ele será lindo na capa! E, cada vez que ele chega nesta fronteira, sem rivalizar com o e-book, o livro físico se tornará mais bem acabado; ele terá essa exigência.
Assim, os que ficarão no papel já se anunciam: “Leia-me”, afinal, “uma condição humana nos garante que o [bom] livro não vai acabar”.

 

 

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