Vili Santo Andersen: autor de poemas com marca registrada

Seus poemas são poemas sintéticos e buscam sugerir mais que propriamente dizer — avessos ao discurso verborrágico

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Ao terminar a leitura dos poemas de “Linhas Convergentes” (Thesaurus, 2018), de Vili Santo Andersen, tive a sensação de estar lendo/ouvindo pequenas orações do poeta enviadas a Deus. Aqui, ele não faz concessão a nenhum anjo ou santo. E seus versos soam aos nossos ouvidos como pequenas preces, cheias de ternura e de delicado sentimento de pureza. São poemas sintéticos, que buscam sugerir mais que propriamente dizer — avessos ao discurso verborrágico, tão comum nos dias de hoje. É como se Vili quisesse nos deixar lição de uma verdade para ele irrefutável: Deus põe pedras no nosso caminho para que aprendamos a caminhar devagar; só assim poderemos contemplar a paisagem e ouvir o canto dos pássaros.

“……………………………

Eis aqui, apenas, sinais

dos poemas que eu faço.

Deus, quando viu, exultou:

Que belos traços!”

O livro está dividido em três partes: “Sob o azul do céu”, “Versos molhados de mar” e “Versos que a terra tingiu”, em que, numa ordem aleatória, estão distribuídos 69 poemas curtos e incisivos. A novidade é que cada peça procura seu espaço na página, guiada pela simetria de uma linha real que estabelece o ponto de ligação e o ritmo de cada uma delas. Pura brincadeira, mas que funciona perfeitamente.

“(…)

Deus sabe tudo de mim

e do meu pífio desempenho.

Até das coisas que de mim eu não sei.

Sim. Todos os defeitos que eu tenho.

Senhor!

Quase estou desesperado,

pois apenas sussurro no Teu ouvido:

Poesia! Poesia! Poesia!

E Tu me ouves, demais.

Meu Deus! Obrigado!”

Depois de publicar uma dezena de livros, entre obras autorais e antologias reunindo outros poetas e autores ficcionais, este gaúcho de Camaquã radicado em Brasília está sempre procurando inovar. Nunca repete fórmula nem conteúdo. Cada obra sua traz uma marca registrada. E ele parece se divertir muito com esse jogo, às vezes lúdico, às vezes dramático, mas sempre centrado num eixo muito claro: fora da palavra não há poesia. E, ao propor que o sigamos em suas andanças temáticas e perquirições linguísticas, o autor do também bem recebido “Refúgio de Sonhos” quer que o compreendamos com a mesma disposição de menino que o move na vida, dentro e fora da poesia. E só esse fato já o consagra como poeta. Vejamos, por último, o poema a seguir:

“Pensamento

Punhos cerrados

braços cruzados

olhos fechados.

Assim…

a poesia desencantada pergunta:

por que tenho a esperança

dessa forma

exilada em mim?

Agressão ou defesa?

A mariposa sabe que vai morrer

e voa inutilmente

em volta da lâmpada acesa.”

Assim, “Linhas Convergentes” há de dar seu testemunho seguro da maturidade de quem sabe das coisas simples e quer compartilhá-las com seus leitores por intermédio único e exclusivo da poesia. Que Deus escute cada oração emitida, liricamente, pela voz deste menestrel que, do Planalto Central, clama por si, por sua amada e pelos outros.

Salve, Vili Santo Andersen, amigo, companheiro de letras e representante legítimo de uma estirpe hoje em extinção! E viva a poesia, agora e sempre!

Dados biográficos do poeta Vili Santo Andersen

Nasceu em Camaquã (RS), em 17 de junho de 1932. Diplomado em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, em 1961. Veio para Brasília em 1963. Funcionário público do Poder Legislativo. Pertence à Associação Nacional de Escritores e à Associação dos Servidores Aposentados e Pensionistas da Câmara dos Deputados (ASA-CD). É um dos criadores do “Jornal Voz Ativa”. Publicou três edições da “Agenda Brasília & Poesia” no anos 1998, 2000 e 2005, em que inclui versos de diversos poetas da cidade. Participa da “Antologia da Poesia Uruguaianense”, 1996, org. de Alci Soares; e da “Antologia de Haicais Brasileiros”, 2003, org. de Napoleão Valadares.

Livros publicados

“Versos em Preto e Branco”, 1999;

“Poemas Três por Quatro”, 2000;

“Diário de um Aprendiz, 2011;

“Poesia Inacabada”, 2011;

“Refúgio de Sonhos”, 2012;

“Pingos de Vento”, 2013;

“Sarrabulhos & Panturrilhas”, 2014;

“Pedras & Plumas”, 2014;

“Poemário”, 2015.

“Linhas Convergentes”, 2018.

João Carlos Taveira, poeta e crítico, reside em Brasília desde 1968. É colaborador do Jornal Opção.

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