Viajar somente na imaginação… pra escapar da pandemia da Covid-19

A literatura pode ser um refúgio nesses momentos sombrios, capaz de garantir nossa sanidade mental e nossa resiliência diante de tempos difíceis

Mariza Santana

A pandemia da Covid-19 nos deixou condenados a um confinamento sem fim. Enquanto esperamos tudo passar, envelhecemos preocupados com a saúde, com medo de ser infectado por esse vírus maluco, contando os dias para receber a segunda dose da vacina, recebendo notícias de amigos e parentes lutando pela vida nos hospitais.

Arte de Rafal Olbinski

Eu, que amo viajar para outros lugares e países, só consigo fazê-lo por meio da imaginação. Ou então, pegando carona nos programas especializados transmitidos pelo canal de Turismo da TV por assinatura. França, Turquia, Egito, Marrocos, México. Tantos lugares lindos e históricos para conhecer. Tantas culturas modernas ou antigas para desvendar. Tantas ruas e vielas para percorrer.

Mas, no momento, isso só é possível por meio do registro das aventuras de outras pessoas, viajantes profissionais que fizeram suas trips em épocas passadas, e que agora o canal de TV repete inúmeras vezes, e não me canso de assistir. Enquanto isso, a maioria das fronteiras dos outros países permanece fechada para os turistas brasileiros, o mundo todo preocupado com novas variantes do coronavírus e possíveis novas ondas da doença.

Sim, já existem algumas exceções. Turistas brasileiras são recebidos em alguns países, mas com restrições. Dessa forma, o passeio fica limitado, com quarentena, ou inúmeras exigências e cuidados que são necessários. Melhor, então, recorrer aos programas de turismo.

Pintura de Rafal Olbinski

Acompanhei a luta dos atletas brasileiros por medalhas na Olimpíadas de Tóquio. Elas não são numerosas, mas certamente cada medalha, independentemente da cor (ouro, prata e bronze), representa um caso de superação nesse momento de pandemia que ceifou tantas vidas no Brasil (sem falar na epidemia de desinformação).

Então me resta viajar por meio da imaginação. Fazer como os personagens dos livros do Sítio do Picapau Amarelo, do grande escritor Monteiro Lobato. Para eles, bastava cheirar o pó de pirlimpimpim. E, zás! Eles poderiam se teletransportar para qualquer lugar onde desejavam estar.

Bem que neste momento de epidemia, onde o medo da contaminação e as restrições são enormes, seria adequado utilizar o pó milagroso de Narizinho, Pedrinho, boneca Emília, e toda aquela turma cujas aventuras tanto nos cativaram nos inocentes anos da infância. O livro “Os Doze Trabalhos de Hércules” foi o responsável pelo meu amor à mitologia grega, que perdura até hoje, na idade adulta.

Pintura de Rafal Olbinski

E aí surge nova possibilidade. Se não se pode viajar presencialmente, a literatura abre uma ampla janela (ou múltiplas portas). E novamente, com a ajuda dela, a querida imaginação, me permito estar nos labirintos do Minotauro, na ilha grega de Creta; ou na cidade inca perdida de Machu Picchu, no Peru.

Por meio dos livros da escritora irlandesa Lucinda Riley, consigo viajar para algum lugar na Grã-Bretanha ou Itália. Seguindo os novos livros da série Outlander, de Diana Gabaldon, posso estar nos Estados Unidos vivendo intensamente a guerra da Independência, ou na Escócia do século 18.

O que seríamos sem a imaginação e a literatura nessa triste época da Covid? Teríamos de viajar interminavelmente dentro de um navio, como o fazem no final do livro, os protagonistas do livro “Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel García Márquez? Sim, a literatura pode ser um refúgio nesses momentos sombrios, capaz de garantir nossa sanidade mental e nossa resiliência diante de tempos difíceis.

Muitos poderão dizer que se trata apenas de uma fuga (caro leitor, considere a melhor alternativa) para quem mora em um país dividido ideologicamente, onde as brumas da escuridão promovem notícias falsas sobre saúde, doença e vacina. Melhor então se refugiar na caverna de Platão e procurar não enxergar a realidade atual. E dessa forma, contar com o bálsamo da imaginação.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção.

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