Velhos sim, assexuados jamais!

por Marcos Antônio Ribeiro Moraes*

“Velhos Sim, Assexuados Jamais! A Sexualidade no Envelhecimento”, é um livro que acaba de ser publicado. E já é impressionante o número de pessoas que vêm se sentindo atraídas, antes de tudo por seu título, mas com certeza não se decepcionarão com o seu bem escrito conteúdo. Sua autora Rita Francis Gonzalez Y Rodrigues Branco, vive em Goiânia, onde trabalhou por muitos anos como médica, professora de medicina e hoje trabalha como praticante da psicanálise em consultório. Trata-se de uma obra dedicada especialmente a todos os velhos e velhas que ainda mantêm brilho erótico no olhar e muito desejo no coração! De cara uma ousada proposta, relacionar velhice e erotismo! Antes de tudo, vale esclarecer que a autora faz uso das palavras velho e velha para marcar uma posição de luta contra o preconceito e a discriminação expressada, ainda hoje , contra o sujeito na velhice .

Velhos Sim, Assexuados Jamais, é o que se pode chamar de um livro interativo. Ao percorrermos cada página, é possível perceber o cuidado de sua autora, na sua forma de nos propor essa interação. Seu livro é feito para ser lido capítulo a capítulo entremeado de poemas, filmes, documentários e letra de música. De tal forma, a leitura vai acontecendo como uma viagem gostosa, com paradas em estações, para que se possa ler o poema, buscar informações e traduções pela internet, o que vai excitando ainda mais a curiosidade de seu leitor! Em outras estações, somos convidados a colocar o que lemos em diálogo com a apreciação dos filmes indicados em cada capítulo. Assim, o transitar pelo livro vai pouco a pouco, sem pressa e prazerosamente nos levando, a interessantes descobertas que vão se dando nos cruzamentos, da estética e da poética, com a sexualidade humana. Tudo isso, usando os sentidos da visão, da audição, do tato e talvez do olfato. Essa obra tem como diferencial o agradável convite para cada um manusear o livro, passar as páginas, parar para assistir aos filmes e documentários e recitar os poemas!

O livro está dividido em nove capítulos. No início, Rita Francis, como é mais conhecida, nos fala da história da gestação dessa sua obra, para que possamos nos situar no contexto desta produção, fruto de sua longa experiência no ensino de uma disciplina, por ela idealizada para o curso de medicina da PUC GO, onde até hoje se discute a relação entre sexualidade e saúde. Outro  marco histórico, muito importante dessa sua escrita, é o fato que sua autora, ao longo de todo o tempo em que se pôs a escrevê-lo, se encontrava cuidadosamente em isolamento social, por conta da pandemia do corona vírus.

Todavia, não se trata de uma narrativa pesada e densa como um texto acadêmico. Ao contrário, a autora escreve de forma lírica, singela e muitas vezes suavemente erótica, de forma palatável para qualquer pessoa de qualquer idade, com qualquer formação. O que me parece muito interessante é o cuidado, ao longo dos capítulos, em apresentar quem são os velhos e as velhas deste tempo de agora. Os protagonistas dos temas, que ao longo de toda a obra, são tratados  com grande carinho e respeito. Logo de início, temos uma ótima pincelada com boa base psicanalítica, acerca dos conceitos de sexualidade, sexo, gênero, orientação sexual, pulsão sexual, desejo e erotismo. Tudo isso para que os leitores possam acompanhar facilmente o desenrolar da narrativa sobre a sexualidade humana, desde o início da vida até o momento da morte!

O leitor, de cara irá perceber  que este trabalho não trata de sexo somente. Tão pouco pretende ser uma espécie de Kama Sutra, ou “manual’ de posições sexuais na velhice. O tema tratado é muito mais amplo! Trata-se da vida em si. Do que cada sujeito vive  no mundo , em sua relação com o outro, a partir da outra cena que move o desejo de cada ser, que em psicanalise denominamos por inconsciente. Rita Francis, como dedicada leitora de Freud, demonstra de maneira genial uma grande verdade, ou seja, que esse inconsciente não envelhece, é sempre um belo e encantador menino. Portanto, seu  livro fala de cada um de nós, que mesmo envelhecendo, continuamos sujeitos desejantes, viventes, amantes, pulsantes!

Capítulo por capítulo, vamos recebendo demonstrações de onde e até quando podem se situar os velhos e velhas, enquanto  sujeitos de desejo. Ou seja, a partir de temas como a moda entrecruzada com o envelhecimento e a sexualidade; passando pelas variadas expressões de relacionamento de casal durante a velhice. Nesse percurso a autora procura situar os atuais velhos e velhas no contexto das tecnologias e redes socais, dialogando com a vivência da sexualidade; apresentando as comorbidades próprias do envelhecimento e suas repercussões na vida sexual, abrindo espaço para novas possibilidades de vivenciar o prazer.

Por fim, vai fechando as cortinas do cenário do viver, chegando ao encerramento da vida, marcado ainda pela manutenção da sexualidade pulsante. Nesse percurso, somos levados a perpassar as fases da vida, sempre relacionadas com o envelhecimento. Desde o início da obra, sua autora nos oferece, o que me parece muito interessante, uma perspectiva psicanalítica bastante ampliada, ao demonstrar que é possível se viver a sexualidade por vários caminhos que podem ou não passar pela genitalidade. Vale dizer que, para Rita Francis, com base freudiana,  essa é uma possibilidade para o humano, não somente quando se chega na velhice. Isso de fato fica claro, se consideremos que a sexualidade, para o pai da psicanálise, conserva ao longo de toda vida de um sujeito, a sua característica de um gozo que, para ser obtido, não se encontra restrito à experiencia genital, guardando até o fim da vida de cada um, a sua característica polimorfa.

Vocês poderão perceber, ao longo dessa leitura, que a intenção nesse livro é, sobretudo, esclarecer que velhos são sexuados. Essa percepção é muito importante por sua força de desconstrução de tabus. Considerando que culturalmente é colocado ao velho e à velha um impedimento do exercício da sexualidade, inclusive de uma forma até mesmo violenta, quando filhos proíbem pais ou mães de saírem, se divertirem, namorarem ou mesmo casarem-se novamente. É, desta forma, uma produção que pretende quebrar os tabus e preconceitos, e autorizar os mais velhos a viverem sua sexualidade de forma prazerosa, sem precisar envergonharem-se de algo que é genuinamente humano.

Conheço a bom tempo a autora desse livro e tive a honra de ser convidado a fazer o prefácio desse seu livro. Nesse sentido, acho muito importante dizer que o tema que ela , debate, apresenta e desenvolve através dos capítulos dessa sua obra, não são baseados no “eu acho” , a partir da sua experiência pessoal. Pois o tema trabalhado em seu livro, tem como suporte teórico a psicanálise, muito embora sua intenção tenha sido escrevê-lo em uma linguagem de fácil compreensão. Porém, embora simples e agradável de se ler, o tema é profundo, sério e respeitoso.

“Velhos Sim, Assexuados Jamais! A Sexualidade no Envelhecimento”, é sem sombra de dúvida, uma leitura indicada e válida para todas aas gerações, uma vez que sua autora se dirige a todas as diversidades de sujeitos. Possibilitando que, os leitores jovens possam se preparar para o envelhecimento ou compreenderem os mais velhos em seus desejos e em sua pulsão sexual. Por outro lado, muito especialmente tem a força de ajudar aos velhos e velhas a compreenderem o que sentem e o que vivenciam. Trata-se de um livro que pode ajudar também, os profissionais que trabalham com pessoas idosas a compreendê-las sem julgá-las. Por fim, à todos e todas que se sentirem pulsionalmente despertados em seu desejo e tomar em suas mãos esse livro da querida Rita Francis, eu desejo bons momentos de agradável leitura!

*Marco Antônio Ribeiro Moraes é psicanalista, membro da APPOA, professor da PUC – GO e colaborador do jornal Opção.

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