Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Dois fraternos vagabundos

Interrompo a série iniciada há quinze dias sobre “O leitor diante dos mitos” para comentar o lançamento da É Realizações, intitulado “Esse Paraíso da Tristeza[i]”, peça teatral do francês Sébastien Lapaque. Voltarei a Mircea Eliade, Northrop Frye e outros mitólogos nas crônicas subsequentes

O drama de “dois fraternos vagabundos”, escritores exilados no Brasil dos anos 40 do séc. XX

Devo analisar o livro de dramaturgia que tenho sobre a mesa, considerando-o a partir das perspectivas que Lapaque abriu aos leitores de França e Brasil em seu “Sobre o sol do exílio[ii]” (Sous le soleil de L´exil, Grasset, 2003).

De certa forma, creio que a aventura deste drama ora lançado pela É Realizações seria impossível sem o precedente. O estudioso de Bernanos e interessado nos temas brasileiros – e para o qual renego o adjetivo de “brasilianista”
– Sébastien Lapaque merece, e muito, ser lido.

Sabemos que Lapaque é um romancista, ensaísta e crítico literário e foi justamente graças a uma bolsa recebida do prêmio Goncourt de la Nouvelle por seu livro “Mythologie Française” (Actes Sud) que pôde o jovem pesquisador alçar voo ao Brasil e pesquisar Bernanos e sua ligação com o outro exilado da época, o austríaco Stefan Zweig.

Sob o sol do Exílio supera a peça pela riqueza de informações e pesquisa

Ele, Lapaque é um intelectual francês, nascido em Tübinguen, na Alemanha, em 1971, tendo até mesmo um romance cuja trama se passa no Brasil, país pelo qual demonstrou mais de uma vez seu amor – nem por isso, ainda, justificar-se-ia o título démodé de “brasilianista” que lhe tentam pespegar. Ele é, isto sim, um especialista em Georges Bernanos, como o provam o livro lançado no Brasil e um ensaio inédito em português intitulado “Georges Bernanos encore une fois” (1998 e 2002, 2ª.ed).

Para uma biografia mais ampla, queira o leitor recorrer ao link da Wikiwand sobre o jovem autor[iii]. A síntese da carreira literária do autor tem como destaque os prêmios da Academia Francesa – um Mauriac pelo romance “Les idées heureuses” (1999) e o citado Gouncourt de 2002. O amor pelo Brasil, pela obra de Bernanos, pelos vinhos e a teologia podem aparecer de modo mais evidente quando (e se) Lapaque tiver sua obra ficcional traduzida em português.

Quanto a peça que tenho em mãos, resta-nos dizer que, malgrado o excelente tema – exilados de renome literário em seus países que se encontram para uma conversa única no Paraíso perdido dos trópicos –, ela se apresenta sem soluções dramáticas que permitam vislumbrar o diálogo no palco. Parece-me legível, mas sem possibilidade dramática que a tire do plano mais comum de outras peças que contêm diálogos curtos e de alta potência espiritual.

Se o leitor quer mesmo ver o tema sob uma apresentação mais aceitável, deve ficar com o Capítulo 7 de “Sob o sol do Exílio”, que além de nos mostrar um documentarista em pleno exercício de seu talento, é bem melhor resolvido, tornando-se mais denso e mais verossimilhante do que a peça que guarda um formalismo sem solução para o palco.

A peça tenta eternizar um momento em que a história e a arte se cruzaram, em Barbacena, em 1942, alguns dias antes do fatídico desenlace da vida do escritor austríaco Stefan Zweig, que se matou em Petrópolis (RJ), após a visita ao francês Georges Bernanos que morava num sítio na região chamada de “Cruz das almas”, em Barbacena, onde hoje se situa a casa-museu Bernanos.

“O encontro entre Geoges Bernanos e Stefan Zweig, como o de Gustave Thibon e Simone Weil, de Pierre Boutang e George Steiner, é um momento de alta intensidade espiritual como pouco se vê a cada século. Nem acredito que uma testemunha possa me falar disso como se fosse ontem” – confessa Lapaque em “Sob o sol…” ao introduzir a fala do romancista Geraldo França de Lima.

“Lembro-me de um momento bem cordial e bem silencioso. Stefan Zweig e sua esposa chegaram a Cruz das Almas” lá pelas quatro horas, pegaram o trem de volta às onze. Depois da refeição, Bernanos quis absolutamente acompanha-los até a estação. Zweig e ele falaram ainda um pouco na plataforma. O trem chegou e Zweig partiu. Não esquecerei jamais o que Bernanos me disse nesse instante, ainda ressoa em meu ouvido: “Ele está morrendo”. Alguns dias mais tarde, vim anunciar a Bernanos o suicídio de Zweig. Ele estava de pé no pátio de Cruz das Almas, apoiado em suas duas bengalas. Vi-o chorar. Profundamente impressionado com a morte de Stefan Zweig, que havia tentado reconfortar, sentiu-se derrotado.”

Em fins de fevereiro de 1942, Bernanos escreve uma carta a Charles Ofaire[iv], falando do artigo sobre a morte de Zweig e encarecendo pressa na tradução e publicação no jornais “antes que se deixe de falar desta morte”. Embora tendo intitulado o artigo de “Le suicide de Stefan Zweig”, o artigo sai no “O Jornal”, de 6 de março de 1942, com o título mudado para “Apologias do suicídio[v]”.

Está ali Bernanos inteiro, chorando a dor da perda do ilustre escritor austríaco, que o visitara em Barbacena há 3 ou 4 dias antes do último e desesperado ato. Zweig e a esposa Charlotte se mataram em sua casa em Petrópolis, aos 22 de fevereiro de 1942, e lamenta: “Pauvres diables! J´espère qu´ils sont introduits maintenant dans le verts pâturages“.

O artigo de Bernanos, como bem afirma Sébastien Lapaque, em “Sob o sol do exílio”, “não é uma necrologia do autor de “O mundo de Ontem”, mas um protesto contra certas apologias do suicídio que surgiram na imprensa brasileira”, após o desaparecimento do autor austríaco e sua (dele) esposa.

“Stefan Zweig na casa de Bernanos! Tudo nesse encontro é extraordinário, a começar pelo contranste físico entre os dois homens. Zweig é franzino, frágil; com seus modos feudais e seus hábitos de cavaleiro, Bernanos permanece o dândi magnífico que era aos vinte anos. Tem bigodes de coronel dos hussardos, olhos azuis que reluzem; o outro um bigode discreto.
“Podemos imagina-los se aproximando um do outro, admirados com esse encontro, antes de se abraçarem.”

A imaginação do dramaturgo Lapaque não evoca, infelizmente, a força desse admirável encontro e falha, talvez, justamente por se jogar com emoção exagerada no episódio.

O autor imagina um encontro entre dois amigos espirituais e os coloca no palco com o formalismo de dois embaixadores negociando um espaço no butim da desesperança, cada qual se dirigindo ao outro com nome, sobrenome e títulos literários…

Salvam-se alguns poucos momentos de real exposição da verdade profunda sobre a dor que ali se expõe:

“Não joguemos com as palavras. O infortúnio é a parte que nos toca. Estamos aqui face a face, com as mãos vazias, como dois fraternos vagabundos.”

Esse encontro tem tudo para continuar sendo lembrado para sempre pelos admiradores do “Grande Urso”, o mais brasileiro dos escritores franceses (Bernanos), como o afirma Geraldo França de Lima em suas memórias sobre o amigo Bernanos, na coletânea “Bernanos no Brasil[vi]”:

“Stefan Zweig surgiu certo dia de surpresa em Barbacena, e queria visitar Bernanos. Fui leva-lo à Cruz das Almas e confesso que estralava os dedos com medo da recepção, temia uma daquelas explosões bernanosiana. No entanto confesso: nunca até então tinha visto Bernanos receber tão carinhosamente, acolher comovido e fraternalmente, como recebeu a Stefan Zweig.” E prossegue: “Zweig estava desfigurado: triste, abatido, sem esperança, cheio de pensamentos aziagos. Bernanos animou-o: conversava com ele docemente. Queria que Zweig passasse uns dias em seu sítio. Convidou-o para acompanha-lo num protesto ao mundo contra as barbaridades que Hitler praticava contra os judeus e que ele, Bernanos, enfurecido, qualificava crime contra a humanidade. Fez questão de voltar com Zweig até a cidade: levou-o à prefeitura, apresentou-o ao dr. Bias Fortes, que o tornou hóspede oficial da municipalidade.”

O encontro entre o escritor judeu austríaco e o romancista francês se dá, segundo Lapaque num clima melancólico e pode escandalizar os leitores que não perdoam o antissemitismo do jovem Bernanos.

“Esse cara a cara entre o escritor judeu e o duelista católico escandaliza aqueles que não querem ver o esforço de compreensão espiritual do mistério de Israel realizado por Bernanos durante esses anos de provação. Vendo chegar Zweig, com a alma destruída, mas tão bela e tão nobre na aflição, Bernanos compreende o que exprimiu um dia Zeev Jabotinsky: “Cada judeu é um príncipe”. Deixando os preconceitos antissemitas de sua juventude, esclarecido por sua experiência do exílio, abre-se ao doloroso segredo de um povo cuja ambição é simplesmente perdurar no centro de uma História que enlouqueceu. O escritor o exprimirá belamente num texto intitulado “A honra é o que nos reúne”, homenagem ao herói do gueto de Varsóvia, redigido no momento em que o povo mártir encontrava sua vocação com a terra dando um sentido ao seu destino.”

O maduro polemista Bernanos mesmo diante da perda de uma pessoa de seu mesmo ofício, nas condições similares de exilado, não abria mão de sua honradez ao se negar a fazer a apologia do suicídio, da abdicação da Esperança, como se pode ler em seu artigo em O Jornal:

“O suicídio do sr. Stefan Zweig não é, aliás, um drama privado. Antes mesmo que a última pá de terra caísse sobre o caixão do célebre escritor, as agências já transmitiam a notícia ao público universal. Milhares e milhares de homens que tinham o sr. Zweig como um mestre, honrando-o como tal, puderam dizer lá consigo que o mestre desesperara da sua causa e que esta causa era uma causa perdida. A cruel decepção desses homens é um fato muito deplorável ainda do que o desaparecimento do sr. Stefan Zweig. Isso porque a humanidade pode prescindir do sr. Stefan Zweig, como de qualquer outro escritor, mas não pode ver, sem amargura, reduzir-se o número dos homens obscuros, anônimos, que não tendo jamais conhecido as honrarias nem os lucros da glória, se recusam a consentir na injustiça, vivendo bem que lhes resta: – uma humilde e ardente Esperança. Quem toca nesse bem sagrado, quem se arrisca a dissipar lhe uma simples parcela, está desarmado a consciência do mundo e despojando os miseráveis.”

Esse é o estilo inconfundível de Bernanos para quem já os romances “Sob o sol de Satã[vii]”, “A Alegria” e “Diário de um pároco de aldeia” já me haviam atraído de forma definitiva, ou para usar a expressão do crítico francês Juan Asensio  nos alerta ser estilo que nada tem de morno, ao contrário, é “grande estilo, sua cólera em literatura e política”; e para isso é preciso “penetrar na vida de Bernanos – vida e obra que não me cansam de surpreender pela qualidade de sua raiva, da tessitura tão particular de uma honra ferida – que é, enfim, seu desespero de criança traída…

Bernanos, malgrado os percalços de uma peça menor, merece ser lido continuamente, por gerações sucessivas de leitores que não abrem mão de uma “humilde e autêntica Esperança” (com E maiúsculo).

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O rio incontornável” (Editora Mondrongo, 2017).


[i] LAPAQUE, Sébastien. “Esse paraíso da tristeza: Stefan Zweig e Georges Bernanos, Brasil 1942”. Tradução de Roberto Mallet. 1ª. ed., São Paulo: É Realizações, 2018, 64 p. (Dramaturgia autores internacionais).

[ii] LAPAQUE, Sébastien. “Sob o sol do exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)”. São Paulo: É Realizações, 2014. Tradução de Pablo Simpson. Citações principalmente do Cap. 7, pág. 96-108.

[iii] LAPAQUE, Sébastien. Verbete Wikipedia: https://www.wikiwand.com/fr/S%C3%A9bastien_Lapaque

[iv] BERNANOS, Georges. “Correspondace”, Tome II: 1934-1948, pág. 446-7, carta 649 “A Charles Ofaire”.

[v] BERNANOS, Georges. “Apologias do suicídio” (Artigo in O Jornal, Rio de Janeiro, Diários Associados, link na Biblioteca Nacional, consultado em 20/01/2019 http://bit.ly/2CHOzGH

[vi] SARRAZIN, Hubert. (Organizador). “Bernanos no Brasil: testemunhos vividos”, Sarrazin et alli. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1968, pág. 113-4.

[vii] Aos francófonos, recomendo este vídeo https://www.ina.fr/video/CPF10005782-video.html
Entrevista de Jean-Loup BERNANOS por ocasião do lançamento do segundo volume da correspondência de Georges BERNANOS “Combat pour la liberté”, 1971.

Meu exemplar do original francês de “Sob o sol do exílio” (Lapaque) e a coletânea Bernanos no Brasil: testemunhos vividos, org. Hubert Sarrazin (1968).

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Francisco Sena

Excelente Adalberto! Você também um profundo conhecedor de Bernanos.

Adalberto Queiroz

A peça é fraca. É impressionante que nenhum brasileiro tenha se interessado pelo tema (com ou sem o subsídio que o Sr. Lapaque teve (e não foi pouco!) para mostrar Bernanos no Brasil como o mais francês dos escritores católicos brasileiros. Este Lapaque é bem distante do que poderíamos fazer.