“Tropix”, o novo universo sonoro de Céu

Quarto álbum de estúdio da cantora paulista chega ao público na certeza de uma artista já madura

Novo álbum de Céu mostra que a artista está pronta para embalar não apenas o Brasil mas o mundo | Foto: Luiz Garrido/Reprodução

Novo álbum de Céu mostra que a artista está pronta para embalar não apenas o Brasil mas o mundo | Foto: Luiz Garrido/Reprodução

Yago Rodrigues Alvim

“No dia em que eu me tornei invisível
Passei um café preto ao teu lado
Fumei desajustado um cigarro
(…)
Você meu viu e o mundo também
E o que tava quietinho ali se mostrou, meu bem” — Céu

— Tropix é pixel nos trópicos, diz Céu. Cantora da concret jungle paulistana (SP), desde 2005, Céu vem se tornando invisível; ao menos, é o que canta nos primeiros versos de “Perfume do Invi­sível”, música de abertura do seu quarto álbum, o já citado “Tropix”. Na contramão, o mundo, então, a tem recebido de ouvidos bem abertos. É assim, despida e transpassável, que ela tem pixelado seu universo em canções — aquilo que nos chega, ouvintes.

“Todo o processo de criação vem do mesmo lugar. Quando estou escrevendo as letras, também estou pensando em pixels”, diz ela.

Foi na metade da primeira década do século 21 que a cantora lançou seu primeiro álbum. “CéU” alcançou o topo da World Music da Billboard norte-americana. “Vagarosa” veio em 2009; já “Caravana Sereia Bloom”, até então seu último trabalho, chegou há quatro anos. No ínterim, gravou seu primeiro DVD. “Céu — Ao Vivo” foi registrado em São Paulo, com uma enxuta banda.

O trabalho estampou seus grandes sucessos, desde “menino bonito/menino bonito, ai” [versos de “Male­molência”] a “Chegar em Mim”, do “Caravana”. Em sua road trip marítima, ainda embarcaram o tema de novela (e de amores conturbados) “Lenda”, “10 Contados”, “Cangote” e, claro, “Concret Jungle”; ah, e para não deixar passar em branco: sua versão de “Mil e Uma Noites de Amor”, canção de Pepeu Gomes.

E, neste ano, Céu se arregala cromática, em preto e branco, com “Tropix”. Foi acompanhada de Pupillo, o então baterista da Nação Zumbi, e do baixista Lucas Martins, que a cantora convidou o francês Hervé Salters — com quem trabalhou em Berlim, em 2014, numa apresentação ao vivo — para seguir estrada. Pupillo e Salters assinam a produção do novo trabalho; nada de muitos produtores e músicos e nem mesmo de muitos compositores.

Em sua maioria, as canções são de autoria de Céu. Das 12 faixas, dez são de sua composição. “Sangria” tem coautoria com o músico Lira; e “Camadas” vem assinada em conjunto com ninguém menos que o goiano Fernando Almeida, o Dinho da Boogarins. Já as demais faixas são de Jorge Du Peixe (“A Nave Vai”), e Cadão Volpato, da banda paulista Fellini, de quem Céu garimpou, entre tantas do grupo, “Chico Buarque Song”.

No mais, apenas três convidados: o guitarrista Pedro Sá, que dá ao “power trio com teclado” [como disse Céu, em entrevista] suas “arrasantes” cordas de aço; a cantora Tulipa Ruiz, que empresta seus vocais a “Pot-Pourri: Etílica/Interlúdio”; e sua filha, a pequena Rosa Morena, que brinca em “Varanda Suspensa”.

A novidade veio em fevereiro. No dia 26, a artista deu ao público o videoclipe do primeiro single do álbum, até então sem informações na mídia; “Perfume do Invisível” ganhou direção do cineasta Esmir Filho. Retrô e futurista, bem como seu novo álbum, Céu se desintegra em pixels de frente — não que antes seu trabalho não carregasse força e voracidade; é que, mesmo que leve e doce, ele nos encara. Parece que, entre os cenários de seus diversos sons, a concret jungle ou maré, se descobriu em um não-espaço, mais amplo, sem muita redoma.

É o que se sente ao apreciar o álbum. Disponível na plataforma de streaming “Spotify” desde a sexta-feira, 18 de março, “Tropix” saiu na semana seguinte, no dia 25, pela Slap. De lá para cá, só tem dado Céu nos foninhos. Seguindo as faixas, após “Perfume do Invisivel”, em que se mostra, seu álbum faz jus ao título da segunda faixa, “Arrastar-te-ei” e nos leva para seu mundo.
“Saiba meu amor/Cuidarei de nós/Mesmo quando eu for/Em busca de mim/Em busca do que faz você me amar” são os primeiros versos de “Amor Pixelado”, um groove funk seco que se abre sintético; é a “canção-de-amor” do disco. “Varanda Suspensa” tem inspiração no litoral paulista de São Sebastião, onde na varanda se lambuzava das horas de veraneio a menina Céu. “Etílica” vem tecnopop, embriagada em vozes embaraçadas de Tulipa.

Sua menina Rosa foi inspiração para canção “A Menina e o Monstro”; que susto a vida, não? É esta a impressão que sobe ao ouvi-la, aquele cuidado ao ver o que tem por trás… seja do eco da voz ou de todo um mundo. Ah, as bics. Munida delas, a cantora se dá conta que pode o que quiser. “Minhas Bics” é a sétima faixa do álbum. Com ela, a cantora resolve o mundo real. Como bem disse, todo seu trabalho é sobre aprender, crescer; a canção traduz bem isso.

Meio lo-fi, meio anos 1980, “Chico Buarque Song” é de fato um achado. Uma das promessas do disco, a canção mostra a desenvoltura criativa de Céu de recompor; ela mostra que sua identidade está ali, intacta; basta sonorizar. Faça o teste; só escute a versão de Fellini e entenderá que Céu já se encontrou [talvez, já há muito tempo, não é a toa que é uma das grandes artistas brasileiras da atualidade].

Choro de cotovelos, o neobolero “Sangria” nos embala facilmente. Er­gam-se os copos e venha dançar. As três últimas faixas aquecem o som noturno, às vezes frio, [dos bons] do disco. Assim, se ascende em “Camada”, “A Nave Vai” e “Rapsódia Brasilis”. O fim se torna dançante; as horas mais escuras da noite, já prestes a raiar em madrugada o sol. Dali, na cozinha, vendo ela crescer, fica Céu. Ela é sinhazinha.

Se Céu agradece a artistas e amigos, que estão envolvidos diretamente em seu trabalho [foi o que escreveu a divulgar ao álbum em suas redes sócias], e aos que, indiretamente, ele impulsiona na grande jornada que é a música, cabe a nós agradecê-la, em contrapartida, visto que, hoje, não só o Brasil, mas o mundo [a exemplo das turnês europeia e americana já anunciada] se embala em Céu.

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