Três personagens ilustres

Novo livro de crônicas de Danilo Gomes joga luz sobre três personalidades brasileiras, amigos pela vida toda, que tinham muitas coisas em comum, como a política e o amor pela literatura: Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens

 

Juscelino Kubitschek (1902-1976), mineiro de Diamantina, escrevia bem e deixou livros, mas, vivendo vida vertiginosa, não deve ter tido muito tempo para apurar a escrita

ADELTO GONÇALVES
Especial para o Jornal Opção

Cronista em tempo integral, colaborador de vários diários e revistas culturais de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Brasília, Danilo Gomes acaba de lançar um livro de crônicas cujo título reúne os nomes de três ilustres personagens que, por coincidência, foram também amigos até o fim da vida: “Augusto Frederico Schmidt/Juscelino Kubitschek/Odilon Behrens” (Brasília, Gráfica e Editora Ideal, 2017).

Dessa “tríade de ouro”, na definição do cronista, o menos conhecido a nível nacional é Odilon Behrens (1901-1959), médico, hoje nome de um hospital e de uma escola estadual em Belo Horizonte, colega de sala de aula de Kubitschek e do memorialista Pedro Nava (1903-1984) no curso de Me­di­cina da antiga Uni­versidade de Minas Gerais (UMG), que seria federalizada em 1949. Formado em 1927, ao lado da carreira como médico, foi secretário da Educação e, depois, de Finanças em Minas Gerais e ministro e presidente do Tribunal de Contas do Estado, entre outros cargos.

Como do mineiro Behrens, nascido na pequena Muriaé, não há muito a acrescentar, além dos cargos mais importantes que desempenhou em sua trajetória como médico e homem público, o mineiro Juscelino Kubitschek (1902-1976), nascido em Diamantina, e o carioca Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) ocupam quase a totalidade de um livro constituído por uma centena de páginas.

Igualmente formado médico em 1927, com especialização em urologia em Paris em 1930, Kubitschek, segundo Danilo Gomes, escrevia bem e deixou livros, mas, vivendo vida vertiginosa, não deve ter tido muito tempo para apurar a escrita. Antes de chegar à presidência da República (1956-1961), foi chefe de gabinete do interventor Benedito Valadares (1892-1973) em 1933, na sequência do golpe de Estado de 1930, e, depois, eleito deputado federal em 1934, teve o seu mandato cassado pelo golpe do Estado Novo aplicado por Getúlio Vargas (1882-1954) em 1937.

Nomeado prefeito de Belo Horizonte por Benedito Valadares em 1940, permaneceu no cargo até 1945. Eleito governador de Minas Gerais em 1951, lançou-se candidato a presidente da República em 1955, tendo sido eleito com 35,6% dos votos contra Juarez Távora (1898-1975), que teve 30,2%. Senador por Goiás em 1962, teve seu mandato cassado em 1964 pelo regime militar (1964-1985).

Morreu em 22 de agosto de 1975, num acidente automobilístico na Via Dutra, em circunstâncias até hoje vistas como suspeitas. Apontado como um visionário empreendedor, deu início à modernização do País e passou para a História principalmente com a construção de Brasília, a nova capital federal. Apostou na expansão da indústria automobilística, a partir da atração ao capital estrangeiro, investindo na construção da infraestrutura para o transporte rodoviário, permitindo, porém, o início do sucateamento da malha ferroviária.

Poesia, política e negócios

Literato, e de respeito, porém, só o foi Schmidt, poeta da segunda geração do Mo­der­nismo brasileiro, a quem Danilo Gomes dedica a maior parte de sua obra. Além de memorialista, Sch­midt foi editor e empresário bem co­mo político, como os demais homenageados. De Behrens, foi colega no Instituto O´Granbery, de Juiz de Fora-MG, dirigido por metodistas norte-americanos. Voltou ao Rio de Janeiro em 1922 e, em 1940, trabalhou num escritório em Nova York. Industrial e comerciante, Schmidt introduziu no Brasil a cadeia de supermercados Disco, a uma época em que predominavam no País os pequenos armazéns de secos e molhados.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), poeta, empresário e político carioca, destacou-se na segunda fase do Modernismo brasileiro

Tornou-se conhecido como homem público, assessorando Ku­bitschek. Representou o Brasil na Operação Pan-Americana (Opa), embrião da famosa Aliança para o Progresso, chegando a embaixador na Organização das Nações Unidas (ONU). Homem de confiança de Kubitschek, era o redator dos seus discursos presidenciais.

Jornalista e prosador de mão cheia, foi também colaborador dos jornais Correio da Manhã e O Globo, no Rio de Janeiro. Destacou-se, porém, como poeta, publicando livros antológicos como Estrela Solitária, Canto da Noite, Babilônia e Saudades de Mim Mesmo, entre outros. Publicou ainda As Florestas, O Galo Branco e Paisagens e Seres, livros de memórias.

Um dos poemas mais inspirados da Língua Portuguesa é aquele que leva por título exatamente a palavra “Poema” em que Schmidt, casado, mas sem filhos, resgata o dilema deixado por Machado de Assis (1839-1908), que em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) faz seu personagem principal lamentar, ao final do livro, o fato de não deixar “a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. E que vale a pena ser repetido aqui para deixar explícita a grandeza da poesia de Schmidt:

Meu coração paterno está vazio./ Ninguém o virá habitar!/ A ninguém transmitirei esse amor/ Puro e perfeito, que nada exige ou reclama./ A ninguém poderei dar o meu carinho paterno./ E a minha experiência de criança voltará comigo/ Para a grande noite próxima/ Os meus pobres traços não os herdará ninguém./ E desaparecerei contigo – ó tu que não vieste jamais? E que sinto misterioso e vivo, ao afagar cabelos que não cresceram/ E mãos que não chegaram a se modelar.

De acordo com Danilo Gomes, Schmidt “deixou uma legião de admiradores e amigos, além de um pelotão de invejosos patrulheiros ideológicos, pregoeiros da vanguarda do atraso”. Segundo o cronista, esse foi o preço que Schmidt pagou “pelo seu grande talento literário, sua aguda visão geopolítica e seu empreendedorismo empresarial”. Diz ainda o cronista que Schmidt, ao longo da vida, “sempre foi um melancólico, um nostálgico, um autor de cantos elegíacos, um siderado pela morte, que o ceifou cedo”.

Discípulo do Schmidt

Como observou o escritor Fabio de Sousa Coutinho, presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE), na apresentação que escreveu para este livro, Danilo Gomes assume-se como discípulo do Schmidt cronista e memorialista, gêneros em que este “também foi um dos expoentes na literatura de língua portuguesa”. Para Coutinho, Gomes alcança neste livro “o elevado patamar de seu paradigma, tornando-se um dos cronistas mais respeitados dos dias que correm”.

Odilon Behrens (1901-1959), médico mineiro, hoje nome de um hospital e de uma escola estadual em Belo Horizonte, foi colega de sala de aula de Kubitschek

Enfim, o que se destaca, além da vida fabulosa das três personagens, é o estilo do cronista Danilo Gomes, que, como diz Coutinho, nada fica a dever a mestres dessa nobre arte, como o próprio Schmidt, o recifense Nelson Rodrigues (1912-1980), o capixaba Rubem Braga (1913-1990), as cearenses Rachel de Queiroz (1910-2003) e Ana Miranda (1951) e os mineiros Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Otto Lara Resende (1922-1992), Fernando Sabino (1923-2004) e Paulo Mendes Campos (1922-1991), para ficarmos aqui entre os mais representativos.

Saga de um jornalista

Danilo Gomes (1942) nasceu em Mariana-MG e estudou no Colégio Dom Bosco, de Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto-MG, no Arquidiocesano, de Ouro Preto, e no Dom Frei Manoel da Cruz, de Mariana. Suas relações com Belo Horizonte são antigas. Em Belo Horizonte, formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Ge­rais (UFMG), em 1974. Co­me­çou a trabalhar no Ministério da A­gri­cultura-Serviço Florestal, em Belo Horizonte, em 1961, mesmo ano em que começou a trabalhar no Diário da Tarde.

Desde então, tem colaborado em jornais como Estado de Minas, Hoje em Dia, Diário da Tarde e Suple­mento Literário Minas Gerais. Fora de Minas, tem escrito para o Jornal do Commercio e Jornal de Letras, do Rio de Janeiro, Correio Bra­zi­liense e Jornal de Brasília e em jornais de diversos Estados, assim como em revistas, como a Revista da Academia Brasiliense de Letras e a Revista da Academia de Letras do Brasil. Atualmente, escreve no Jornal da ANE, de Brasília, e nas revistas da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (IHGDF).
Em 1975, transferiu-se para Bra­sília, onde se formou em Comu­ni­cação Social-Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (Ceub), em 1985. Trabalhou no Ministério das Minas e Energia. De 1985 a 2005, foi redator e assessor na Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Pertence às seguintes entidades: Associação Nacional de Escritores (de que foi presidente), Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Academia de Letras do Brasil, Academia Mineira de Letras, onde ocupa a cadeira n° l, sucedendo a Cyro dos Anjos (1906-1994), Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Academia Ma­rianense de Letras, Casa do Es­critor, de São Roque-SP, e Grêmio Literário Tristão de Ataíde, de Ouro Preto. É sócio-correspondente da Academia Norte-Rio­grandense de Letras.

É autor de Escritores Brasileiros ao Vivo (entrevistas, dois volumes); Uma Rua Chamada Ouvidor; Água do Catete; Antigos Cafés do Rio de Janeiro; Em Torno de Rubem Braga, e Mineiridade que Sobrevive ao Tempo, celebrando os 80 anos do poeta Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008). Tem participado de várias coletâneas de crônicas e poemas, como Crônicas Mineiras e Cronistas de Brasília.

Adelto Gonçalves é jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012) e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: [email protected]

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