Tom Zé, o artista brasileiro que não pode ser fabricado

Tom Zé não depende de instrumento algum para criar música e  já existia como gênio em países que sabem valorizá-lo. Por isso é, ainda hoje, mais conhecido no exterior

Tom Zé, o artista que não depende de instrumento algum para fazer música

Em 1967, a recém fundada Música Popular Brasileira (MPB), tida ainda como um movimento artístico bem mais do que como um gênero musical, saiu às ruas numa manifestação explícita bradando, dentre outras coisas, contra a guitarra elétrica. Artistas como Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Edu Lobo e até Gilberto Gil levantavam a bandeira do “Defender o que é nosso”, transformando a guitarra em um símbolo da invasão estrangeira na cultura nacional.

Em que pese o idealismo de valorizar o patrimônio artístico e cultural brasileiro, Tom Zé nunca teve a pretensão de achar que sabe o que é a essência da música nacional e o que é a estrangeira. O que é instrumento gringo e o que é instrumento tupiniquim. Pelo contrário, sempre acreditou que o valor não deve ser dado aos meios, mas sim ao conteúdo que reflui —
esse sim, portador da identidade cultural. O artista não deve colocar seu ego (e muito menos um instrumento musical) à frente de sua obra.

Essa e outras opiniões estão semeadas pelo filme “Fabricando Tom Zé”, obra de Décio Matos Jr., lançada em 2006 e exibida nesta semana no Cine Cultura, dentro da programação da Bienal Internacional de Cinema Sonoro (BIS), que acontece em Goiânia até o dia 26 de março. O filme acompanha momentos interessantíssimos com o artista — ora camuflado em sua equipe, no decorrer de uma turnê europeia que passa, dentre outros lugares, por Veneza, Turim e Paris; ora explicitamente, com entrevistas bem humoradas e reveladoras.

Não há possibilidade de se fabricar um Tom Zé. Porque “fabricar” — um processo industrial e dependente de planejamentos, projetos, moldes e intenções objetivamente elaborados — pressupõe a replicabilidade. Tom Zé é único. Daí a ironia do título da obra de Décio que, a pretexto de tentar explicar o artista, faz uma desconstrução de seu modo de vida e, principalmente de criação musical na tentativa bem sucedida de valorizar sua vida e sua obra.

Nesse contexto, Tom explica a uma câmera sempre presente, mas muito mais voyeurista do que instigante (ao contrário dos filmes de Eduardo Coutinho, por exemplo), que as suas deficiências enquanto artista padrão o levaram a desenvolver outras formas de expressão musical. Sua deficiência enquanto instrumentista ou cantor o forçaram a procurar novos instrumentos e novas vozes capazes de expressar de forma fiel sua ânsia em ser escutado. Em suas palavras, se existiam tocadores de guitarra e de enceradeira, e se já havia muitos bons guitarristas, seria ele o primeiro tocador de enceradeira. Às favas a guitarra elétrica. Ou o piano, ou o trombone, ou qualquer forma de limitação do artista em si.

Como um dos expoentes do movimento Tropicalista nas décadas de 1960 e 1970, Tom Zé acabou esbarrando no ostracismo com a ditadura e o fim do movimento. “Nunca tive problemas com a ditadura. Mas que ela me fodeu, fodeu”, declara a certo ponto, contando sobre seus embates com a censura. Desvalorizado por seus próprios pares, Tom Zé nunca esteve no centro das atenções. Até hoje, seu nome é muito mais exaltado no exterior do que dentro do próprio país. Entrevistas com o artista em sua terra natal, que lhe traz, até hoje, os bons ares e a calma da vida interiorana, se contrastam na tela com grandes públicos em festivais europeus. Mas isso nunca foi problema para ele.

Uma sequência em especial — uma das melhores do filme — retrata uma briga entre ele, sua banda e um técnico de som do Montreux Jazz Festival, colocando para fora todo o inconformismo de Tom com a arrogância dos países desenvolvidos em relação à cultura brasileira. Afinal, talvez sua própria vida e obra reflitam, de maneira direta, os empecilhos que o estereótipo do subdesenvolvido carrega nas costas para se afirmar no exterior e no próprio país. Mas não é preciso atear fogo às guitarras elétricas. “Eles só não podem nos tratar de forma vil”, declara, inconformado.

Com variações entre arrogância (“o rock nacional é um rock traduzido, essa é a verdade”) e humildade, principalmente nos relacionamentos pessoais (“eu to tentando, na minha vida, ter a felicidade de trabalhar sem arrebentar meu estômago, nem tratar a Neusa [sua esposa] mal”), Décio mostra que Tom é um ser humano comum, mas um artista único, com uma obra vasta e ainda bastante inexplorada.

Não é possível fabricar Tom Zé. Ironicamente, no final da década de 80, David Byrne, um produtor norte-americano, sem saber que era exceção, conseguiu dimensionar para o próprio Brasil o artista que não depende de instrumento algum para criar música, e que já existia como gênio, “made in brazil”, em países que sabem valorizá-lo. O cara que veio explicar para confundir.

João Paulo Lopes Tito é advogado e estuda Cinema e Audiovisual na UEG

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