Um dos grandes debates da modernidade refere-se à questão da identidade. Em uma sociedade organizada através da exploração, onde indivíduos tornam-se escravos de seu próprio desempenho para terem escasso acesso aos mais básicos dos bens, há pouco tempo sobrando para que se pense em questões mais complexas e que subvertam tal funcionamento. Além disso, há uma crescente insistência mercadológica e produtiva para questionar e rebelar-se sem, de fato, mudar. Identidades tornam-se mercadorias, e essas transformam-se em fetiches.

Nesse sentido, é possível observar uma juventude à deriva de seu próprio papel na sociedade. Com pouquíssimas perspectivas de futuro e esparso acesso ao convívio social, voltam-se para a esfera irrestrita da internet e outros vícios como forma de escapar de uma cruel realidade. Através dessa tendência, observa-se como as expressões audiovisuais que refletem esses indivíduos e seus arredores, em especial quanto às high schools, vêm explodindo em popularidade. Variam desde produções divertidas e formulaicas, como Sex Education, até obras repletas de malabarismos formais, mas que no fim, engasgam-se naquilo que pretendem muito pelos excessos egóicos de seus próprios realizadores, como é o caso da popular Euphoria.

Nesse nicho cada vez mais popular, é raro achar algo que realmente se proponha a ser diferente; não por inserir duas ou três quebras da quarta parede e firulas pretensamente profundas em películas de 16 milímetros, mas por apresentar um novo olhar. Luca Guadagnino, por mais irregular que seja sua filmografia, é alguém que desde sempre buscou uma representação pessoal, e We Are Who We Are, sua minissérie em parceria com a HBO, centrada na vida de soldados e suas famílias em uma base militar estadunidense na Itália, é uma aula de sensibilidade e de como estruturar uma história em um formato para televisão.

Apesar de alguns personagens serem, em certos momentos, excessivamente caricatos, em especial Fraser, o protagonista interpretado pelo ótimo Jack Dylan Grazer, Guadagnino trabalha de maneira magistral com seus atores e consegue conciliar naturalmente atuações mais contidas e outras mais burlescas sem aparentar desleixo. Ainda mais difícil é fazer isso com um elenco estrelado, contando com veteranas como Alice Braga e Chloe Sevigny, e revelações como Tom Mercier, uma das melhores descobertas dos últimos anos, sem tornar-se exclusivamente dependente de seus intérpretes ou que se transforme em algo meramente ilustrativo.

Ao não representar uma história de maneira convencional, We Are Who We Are tem seu grande trunfo justamente na maneira como as narrativas são diluídas ao longo dos episódios e acabam se encontrando conforme a obra se desenvolve. Aqui, raramente estabelecem-se episódios com começo, meio e fim, pois tais padrões se tornaram irrelevantes diante de seus intrigantes personagens e seus traumas, sonhos e marcantes manias. Os elementos que a princípio parecem aleatórios evoluem para traços fundamentais, e a maneira como tais situações se resolvem sem a necessidade de um grande confronto, apesar de a série ser inerentemente sobre esses conflitos entre gerações, ressalta a grandeza da produção. É nítido desde o princípio que se trata de um comentário acerca de embates entre pais e filhos, amores e pulsões, primeiros beijos, mas a forma como tais convenções são dirigidas é que as alçam ao diferencial da grandeza.

Além disso, como gravar algo já tão batido diante de uma sociedade irrequieta? Como reafirmar convenções para um grupo social que desconstrói até aquilo que os define enquanto indivíduos? Nesse ponto, a sobriedade formal da obra e pontuais experimentações, através tanto das imagens congeladas quanto do uso do slow motion, auxiliam essa narrativa descentralizada a se desenvolver, ainda que o desenvolvimento não almeje ser contínuo. Bertolt Brecht, dramaturgo alemão e um dos mais seminais nomes da arte no século XX, disse que somente fragmentos carregam a marca da originalidade, e para Guadagnino, ser original na sociedade contemporânea que ele representa é ser, mais do que fragmentado, líquido. Tal característica vale também para a dimensão política e militar da obra, sendo muito mais um plano de fundo inseparável das vidas daquelas pessoas, mas pouco relevante na medida em que são elas quem, de fato, constituem suas vivências e refletem a politização de seu contexto.

Assim, We Are Who We Are compreende brilhantemente as nuances daquilo que se propõe a representar, em especial graças às magistrais interpretações de seus atores e atrizes, com destaque para Jordan Kristine Seamón, e à sensibilidade do olhar de seu realizador. Luca Guadagnino parece compreender que essa geração, pela qual demonstra fascínio em sua representação, é profundamente consciente daquilo que é, tanto no aqui quanto no agora. Entretanto, quando as fundações do corpo social são tão sólidas quanto os alicerces de castelos de cartas, aquilo que somos é tão concreto como meros instantes ao vento.