Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Sob a luz de um anjo

O anjo de cada um de nós – seria o tema desta semana. O “insight” me aconteceu com a releitura de trechos do livro “Os Anjos Necessários”, de autoria de Robert Alter

“Angelus Novus”, de Paul Klee, 1920. “Sou uma coisa anti-simbólica/Que só significa o que eu sou.” (Scholem, sobre o Anjo novo, de Paul Klee)

O livro nos prova que é possível juntar tradição e modernidade, e que o olhar do anjo nos ajuda a “conquistar uma consciência mais clara e mais segura da transcendência de nosso Ser e de nosso destino em comparação a todos os outros seres corporais”.

Sabemos que Alter, 83 anos, é um renomado exegeta da Bíblia, um especialista em literatura hebraica e professor de literatura da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, desde 1967.

São Tomás de Aquino dedicou, na “Suma Teológica[i]”, várias questões (50-64), com numerosos artigos a compreender a “natureza dos anjos de modo absoluto”, investigando vários aspectos teológicos de uma angeologia que “respeita a sobriedade do ensino da Igreja” sobre a natureza desses seres espirituais.

Segundo Jean-Hervé Nicolas, na introdução que faz à angeologia de São Tomás, há “benefícios para o homem moderno que podem ser retirados do mundo angélico, ao qual a revelação o introduziu”. O primeiro é o convite sublime a “desprender a intelectualidade, que ele encontra em si mesmo, e sua liberdade das restrições e pequenez que sua corporeidade lhe impõe, para considerá-las em suas dimensões verdadeiras e segundo toda a sua virtude”.

Outro benefício de conhecer os anjos seria o de “conquistar uma consciência mais clara e mais segura da transcendência de seu ser e de seu destino em comparação a todos os outros seres corporais”. Isso tem como consequência para alguns poucos poder desvelar que “o princípio dessa superioridade [em relação aos demais seres] é a espiritualidade”.

Interessante, pois, verificar na descrição desse livro que o editor constata o mérito que teve Robert Alter de ter gerado uma espécie de “prisma radiante” (ou uma irradiância prismática), ao juntar os três mestres da modernidade, os judeus Franz Kafka, Walter Benjamin e Gershon Scholem que conseguiram ver na Tradição o princípio mais alto da modernidade (“uma força epifânica”) que alcançaram.

As cartas, quando as cartas ainda eram uma fonte primária importante para subsidiar a compreensão dos escritos de um autor – Alter se debruça sobre elas. Ele está em busca da “força epifânica da memória nesses três grandes modernistas” e consegue nos mostrar, às vezes, com clareza surpreendente, às vezes de modo profético, como uma ruptura total com a tradição não é essencial para o modernismo, muito ao contrário. “Anjos Necessários” em si continua a necessária descoberta do futuro no passado.

Em busca do que chama de “a matriz judaica dos três escritores”, Alter leva o leitor a descobrir que no projeto literário de cada um desses examinados sob o prisma de “Tradição e Modernidade”, há uma forte componente do “mundo conceitual e espiritual da tradição judaica” que dava a cada um deles “um direcionamento específico à sua escrita, além de uma clareza especial à percepção da modernidade”. Lembrei-me de um velho (e nem sei se existente; talvez eu o tenha imaginado!) artigo de Otto Maria Carpeaux em que o autor teria dito que “Kafka sou eu”.

Isso me surpreendeu muito e todas as vezes que me lembro do texto imaginado – e não o encontro em nenhum escrito de Carpeaux, penso que o velho judeu Karpfen está a ironizar com o convertido ao Catolicismo. As formas de interpretação de que dispomos não possuem a riqueza da exegese judaica, nem mesmo da velha exegese cristã. A crítica já aboliu tudo isso com o modernismo. Não deu chances à Tradição, mas ela retorna mesmo assim, infalivelmente.

Um rascunho iluminado de Kafka

A afirmação, retirada de uma nota no diário de Kafka por Alter, dá conta de que “no fim de sua vida … ele chega perto de admitir explicitamente que a sua ambição tinha sido criar uma nova escritura sagrada com sua obra – tornando-a o objeto apropriado de uma exegese.”  A escrita como revelação não é uma dádiva apenas dos cristãos, ou melhor: ela vem dos nossos antepassados – os judeus com toda a força. Kafka teria falado de um “assalto vindo de baixo” e uma “revelação vinda de cima” para designar aquilo de que estava falando ao fazer literatura.

A verdade para Kafka, segundo Alter, está no “plano textual” o que é, segundo o analista, peculiarmente judeu.  O exegeta Robert Alter não titubeia em verificar que, no episódio da releitura de Gênesis, 22 – ou do episódio de Abraão, Kafka “não descontrói o texto bíblico” – como quer o jargão crítico e literário atual (nem o nosso maior crítico – Otto Maria Carpeaux salvou-se desse equívoco!); ao contrário: “(…) a imaginação de Kafka se vê atraída pela estrutura do texto bíblico e o escritor corre em torno dele, procurando uma brecha por onde possa entrar. Ou, passando para a metáfora forjada por Benjamin, procurando uma maneira de torna-lo um caminho para dentro de sua própria selva interior”.

Um exemplo da mirada para a tradição judaica que nos dá boa evidência dessa angústia kafkiana mas “cheia de aflição e de esperança” (Carpeaux) é o rascunho de um conto que Kafka não chegou a terminar, segundo Alter[ii]: “O narrador, o ocupante de um quarto alugado, tinha passado o dia inteiro andando de um lado para outro no aposento, numa mistura de agitação e tédio. Um pouco antes de anoitecer, ele presencia um acontecimento extraordinário”.

Ele percebe um tremor no teto de reboco branco. Surgem diversas rachaduras, e depois várias ondas de luz colorida, amarelas e douradas, que dão ao teto uma estranha transparência…De repente um braço segurando uma espada de prata atravessa o teto, e o narrador vê nele ‘uma visão enviada para a minha libertação’. Acontece então o estágio crucial da revelação. Num acesso de violência, o narrador sobe na mesa, arranca o lustre de bronze do teto e o atira ao chão. Na mesma hora, o teto se abre” – Alter então dá a palavra ao próprio Kafka:

“Na luz tênue, ainda a uma grande altura (eu a tinha calculado mal), desceu lentamente um anjo de túnica azul-violeta, amarrada com um cordão dourado. Ele era sustentado por asas brilhantes e macias como a seda, e segurava a espada com o braço estendido, na posição horizontal. Um anjo, então!, pensei. Ele estava voando em minha direção o dia inteiro, e na minha incredulidade eu não percebi. Agora ele falará comigo. Baixei os olhos. Quando os ergui novamente, o anjo, de fato, ainda estava lá, pairando alguns metros abaixo do teto (que tinha se fechado novamente). No entanto, não se tratava de um anjo de verdade: era apenas uma figura de madeira pintada da proa de algum navio, do tipo que costuma ser pendurado no teto das tavernas de marinheiros. O punho da espada tinha sido montado de modo a servir de candelabro, recolhendo a cera derretida. Eu tinha arrancado a lâmpada elétrica, mas não queria ficar no escuro. Eu ainda tinha uma vela, então subi numa cadeira, coloquei a vela no punho da espada, a acendi, e fiquei sentado até tarde sob a luz fraca do anjo”.

O rascunho da história inédita de Franz Kafka nos mostra “um pós-Tradicionalista que de alguma maneira ainda escrevia ‘sob a luz da revelação’” – o significativo momento sendo aquele em que a tecnologia moderna (a luz elétrica) dá lugar à luz bruxuleante da vela, mas ainda assim com “fortes conotações arquetípicas”, conforme ressalta Robert Alter.

A luz do anjo, ainda que fraca é a luz divina, como em tantas passagens bíblicas, como em II Samuel, 22: 29 – “Porque tu, Senhor, és a minha lâmpada; e o Senhor ilumina as minhas trevas”.

O anjo de Paul Klee

A tese de Robert Alter sobre o liame entre a Tradição judaica e a modernidade nos três escritores tão representativos do mundo judeu reforça ao final do livro a matriz judaica de Scholem, Benjamin e Kafka, contra todo um arrazoado de argumentos que os relegaram a modernos empedernidos. Embora de posições diferentes, os três, cada um a sua maneira, transitaram entre a tradição e a cultura secular moderna.

Em Scholem isso é mais fácil de provar, pois que a vida intelectual dele foi a de um historiador que desenvolveu uma “profunda interpretação da história judaica”, estava certo do “encontro com a transcendência, sobre a qual estava baseado o judaísmo”.  Com Benjamin, amigo de Scholem desde a juventude, embora “fascinado pelos conceitos místicos e as doutrinas da tradição judaica”, trocou essa revelação pela “religião marxista”, mas continuou preso de uma “espécie de fantasmas intelectuais, como um conjunto de conceitos, imagens e símbolos poderosos que expressavam uma profunda nostalgia pela tradição” – assevera Alter. Em 1921, Benjamin adquiriu um quadro de Paul Klee – o “Angelus Novus[iii]”, pintura a óleo colorida com aquarela que tinha ficado pronta um ano antes. “De acordo com Scholem, Benjamin ficou com o quadro pelo resto da vida, como uma espécie de talismã espiritual e um foco de meditação.”

Depois da morte de Walter Benjamin, por suicídio, em setembro de 1940, o quadro passa à posse do amigo Scholem, que o mantém em sua casa em Jerusalém, até 1989, quando a viúva deste o doou ao Museu de Israel. Portanto, seja pelo quadro de Klee, tido como o mais significativo de sua exposição de 1920 na Weimar Bahaus, sob o título geral de “Confissão Criativa”, odiado por Hitler como símbolo de decadência e exaltado por artistas e pensadores ao longo dos anos posteriores, dentro da concepção de Klee de uma “percepção metafísica da realidade”.

Queiram ou não os modernos, a verdade é que a Tradição teve e mantém sobre os criadores de todas as artes sua força; ela está presente, mesmo naqueles que cedem aos encantos dos gnosticismos modernos (como o marxista Benjamin) e “no meio de toda essa preocupação com a doutrina luminosa da tradição judaica, não é de se admirar que a figura de anjos perpasse, às vezes de forma explícita e às vezes dissimulada, o mundo imaginário” de escritores como os três retratados por Robert Alter neste surpreendente “Anjos Necessários”. Deixo o leitor com a íntegra do poema do norte-americano Wallace Stevens, que serve de epígrafe ao livro de Alter e que ainda não foi inteiramente traduzido ao português – “Angel Surrounded by Paysans”:

One of the countrymen:
There is
A welcome at the door to which no one comes?

The angel:
I am the angel of reality,
Seen for the moment standing in the door.

I have neither ashen wing nor wear of ore
And live without a tepid aureole,

Or stars that follow me, not to attend,
But, of my being and its knowing, part.

I am one of you and being one of you
Is being and knowing what I am and know.

Yet I am the necessary angel of earth,
Since, in my sight, you see the earth again,

Cleared of its stiff and stubborn, man-locked set,
And, in my hearing, you hear its tragic drone

Rise liquidly in liquid lingerings
Like watery words awash; like meanings said

By repetitions of half meanings. Am I not,
Myself, only half of a figure of a sort,

A figure half seen, or seen for a moment, a man
Of the mind, an apparition apparelled in

Apparels of such lightest look that a turn
Of my shoulder and quickly, too quickly, I am gone?

– Wallace Stevens.

Do trecho que mais me agrada, ousei traduzir em versão bem livre, e o registro aqui, deixando-o na companhia do seu anjo, dileto leitor:

“Ainda assim sou o anjo necessário da terra,
logo, em meus olhos, você verá uma nova terra”.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta, Autor de “O Rio Incontornável”, Editora Mondrongo, 2017.

[i] AQUINO, Tomás de. “Suma Teológica”, vol. II, São Paulo: Edições Loyola, 2002, p.107-265.

[ii] ALTER, Robert. “Anjos Necessários: Tradição e modernidade em Kafka, Benjamin e Scholem”. Tradução: André Cardoso. São Paulo, Imago Editora, 1993, p.151 et passim.

[iii] Apesar de uma matéria da BBC ter atribuído a posse do quadro a Theodor Adorno, após a morte de W.Benjamin; embora Adorno tenha tido zelo com outros objetos de W. Benjamin, o site do Museu de Israel confirma a versão de Alter, sobre a posse com Scholem e posterior doação da viúva ao acervo do Museu, cf. link consultado em 11/06/2018: http://www.imj.org.il/en/collections/199799

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