Simone, Edwarda ou por uma aprovação ilimitada da vida na obra de Georges Bataille

Se o laço que sustenta as relações comuns extrai sua força coesiva da estabilidade conferida por ele aos seres que ele liga entre si, o laço que liga Simone e Edwarda aos seus, é inteiramente pulsional: um laço que tem sua origem e seu fim no corpo vivo, um laço que é menos identidade do que intensidade

Georges Bataille (1897-1962), autor de “A História do Olho”, foi um dos mais polêmicos escritores do século XX

Tiago Ribeiro Nunes
Especial para o Jornal Opção

No “Plano para uma continuação da História do olho”, Georges Bataille (1897-1962) esboça o destino imaginado por ele para Simone, a protagonista de sua novela de estreia: após quinze anos de excessos, ela entra por engano em um campo de concentração e então, aos trinta e cinco anos, numa exaltação que ultrapassa tudo o que pode ser imaginado, completamente indiferente às pancadas infligidas a ela pelo carrasco e às súplicas de uma interna devota que pretendia convertê-la, Simone “[…] morre como quem faz amor […]” (“História do olho”. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 93).

Nenhum desfecho poderia ser mais verossímil do que este: Simone, a heroína às avessas da “História do olho”, morreria celebrando o deslimite. É como se, por meio desse ato irreversível, ela vislumbrasse a possibilidade de atingir o ponto derradeiro, o efêmero instante de materialização do impossível. Seus quinze anos de luxúria e devassidão serviram-lhe apenas como preparação para uma realização ainda maior: se ela se entrega ao carrasco, é menos por resignação do que pelo reconhecimento de que ele desempenha, dentre todos os ofícios, o mais sagrado. Se, por outro lado, ela recusa converter-se, mesmo na iminência de sua morte ao deus cristão invocado pela fiel que insiste em tentar convencê-la, é porque não enxerga nenhuma oposição entre aquilo que constitui a verdade sobre o sagrado e o êxtase no qual toda a sua conduta devassa encontra-se ancorada.

A desmesura que marca o caráter de Simone é a mesma a partir da qual a protagonista de “Madame Edwarda” (São Paulo: Escrita, 1981) poderia ser definida. Aberta diante do parceiro, Edwarda exibe sua face extática – os olhos terrivelmente revirados pelo êxtase. Em sua garganta, nenhum adereço mas sim “um longo estrangulamento” (p. 81). O narrador a encontrara nua, em uma mesa de bordel, afrontando a todos com a língua para fora e gestos de louca. Angustiado, tal como o narrador-protagonista da “História do olho”, ele se diz arrancado de seu embrutecimento por essa voz que lhe pergunta:

– Você quer ver os meus trapos? dizia.

Com as duas mão crispadas na beirada da mesa, virei-me para ela. Estava sentada, uma das pernas levantada, coxas afastadas: para abrir a fenda mais ainda, ela puxava a pele dos dois lados, com as mãos. Assim, os “trapos” de Edwarda olhavam para mim, peludos e rosados, cheios de vida como um polvo repugnante. Balbuciei docemente:

– Por que está fazendo isso?

– Veja, disse ela, eu sou DEUS… (p. 82)

Com esse gesto, Edwarda precipita o narrador para o fundo de sua noite. Agora, embora ele ainda dividisse o espaço do bordel com outros tantos homens e mulheres que lotavam o lugar, a sacerdotisa do Mal o havia arrebatado inteiramente para si: é o narrador quem afirma, “no absurdo do bordel e na confusão que me envolvia […], permanecia estranhamente suspenso, como se Edwarda e eu estivéssemos perdidos numa noite de vento, frente ao mar” (p. 83). Abrindo-se diante dele Edwarda revelava não apenas seu sexo úmido, desdobrável origami de carne, mas a imanência própria a tudo aquilo que é vivo. Do interior dessa imanência ela declara ser Deus, um Deus novo e radicalmente diferente daquele das metafísicas por certo: uma divindade cuja mensagem não reenvia a nada que não seja a vida que pulsa nos corpos. O seu reino é deste mundo e nada mais. “Sua presença tinha a simplicidade ininteligível de uma pedra” (p. 87), a simplicidade que tem tudo aquilo que é sem-além.

Conforme expressão do próprio Bataille no Prefácio de “Madame Edwarda” (Em: “O Erotismo”. São paulo: Arx, 2004, p. 426), Edwarda está aberta, sem reservas, “à morte, ao suplício, à alegria”. Ela está aberta sem reservas à experiência, seja ela qual for. No estado de convulsão extática em que se encontra, ela geme e grita aterrorizada: o grito que lhe escapa da boca desfigurada é, entretanto, “uma imensa aleluia, perdida no silêncio sem fim” (p. 426).

Tal como Edwarda, a Simone interessa “tudo o que arruína definitivamente a beatitude e a consciência tranqüila” (“História do olho”, p. 25). É ela quem desencadeia a abertura do narrador e dos demais personagens da narrativa do olho para o impossível. É ela quem desencadeia o frenesi orgiástico que explode na vizinhança levando o narrador a ter de fu­gir de casa e Mar­cela a ser internada pela família numa casa de saúde, an­tes que ela terminasse enforcando-se dentro de um armário normando. Simone é a encarnação dessa abertura para o acontecimento imprevisto, o acontecimento qualquer. E se é por meio dela que o narrador da “História do olho” consegue encontrar um sentido para a sua vida, é somente na medida em que esse sentido encontrado nada tem de absoluto, de mais verdadeiro ou de mais fundamental. O sentido descoberto por ele diz respeito unicamente ao acontecimento, à possibilidade de integrar ao universo conceitual aquilo que ameaça dissolvê-lo, a saber, a contingência: “o cansaço me impunha uma necessidade de dar, apesar de tudo, um sentido à minha vida. Ela só o teria à medida que eu conseguisse aceitar uma série de acontecimentos” (“História do olho”, p. 36). Trata-se portanto da necessidade de alcançar um sentido que, não tendo sido petrificado pelo amor a uma verdade essencial, seja tão móvel quanto o é a própria experiência. Um sentido móvel, tão aberto à vida e às suas intensidades quanto o sexo úmido de Edwarda esteve aberto para o narrador de sua história. Somente um sentido portador de tal abertura para o indefinido poderia ser celebrado por Bataille: um sentido que seria, paradoxalmente, a afirmação da precariedade de to­do conceito em relação à vida.

Conforme expressão de Benedito Nunes (“Os sentidos da paixão”. São Paulo: Com­panhia das Le­tras, 2009), abertas como estão à vida, Simone e Edwarda deploram “as relações inteligíveis que o conhecimento elabora” (p. 103); não lhes interessa outra coisa senão subverter a “ordem lógica dos conceitos, a fisionomia comum do universo e a banalidade do cotidiano” (p. 103). Tendo abandonado esse estado comum no qual os laços interpessoais se instituem e se sustentam a partir de um esforço formal, elas entregam-se ao “domínio do ser amorfo” (p. 103). Nesse novíssimo território, a perda do nome é correlata à perda de sua própria individualidade, equivalente à sua consubstanciação com o mundo ao redor e com o ser dos amantes. E se o laço que sustenta as relações comuns extrai sua força coesiva da estabilidade conferida por ele aos seres que ele liga entre si, o laço que liga Simone e Edwarda aos seus, é inteiramente pulsional: um laço que tem sua origem e seu fim no corpo vivo, um laço que é menos identidade do que intensidade e que somente pode existir quando “a identidade do Eu convencional foi trocada pela identidade real com a matéria da vida” (p. 105).

A identificação com a matéria da vida é o abismo no qual Simone e Edwarda se precipitam, arrastando consigo todos aqueles que as cercam. Esse abismo, “é o próprio abismo da existência, que nada sustenta” (p. 105). No abismo infernal da “existência pura, contingente, irredutível ao controle da vontade e do entendimento” (p. 119), o tempo que vigora é sempre o tempo presente: o “domínio do instante” (“A literatura e o mal”. Porto Alegre: L&PM, 1989, p. 19) finalmente reencontrado.

Tiago Ribeiro Nunes é professor adjunto do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão.

REFERÊNCIAS
BATAILLE, Georges. (1928/2003). A história do olho. (tradução: Eliane Robert Moraes). São Paulo: Cosac Naify.
—. (1940/1981). História do olho, seguido de Madame Edwarda e O Morto. (tradução: Glória Correia Ramos). São Paulo: Escrita.
—. (1957/1989). A literatura e o mal. (tradução: Suely Bastos). Porto Alegre: L&PM.
—. (1957/2004). O erotismo. (tradução: Cláudia Fares). São Paulo: ARX.
NUNES, Benedito. (2009). A paixão de Clarice Lispector, em: Os sentidos da Paixão. São Paulo: Companhia das Letras.

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