Shyamalan: quebrando expectativas (ou não!)

Diretor confirmou continuação de “Corpo Fechado” e “Fragmentado”. O que esperar? 

Antes de mais nada, vou avisando que, se você não assistiu a “Corpo Fechado” (2000) ou a “Fragmentado” (2016), pode ser que eu conte detalhes importantes da trama desses filmes. Então, se não quiser ficar sabendo de nada antes, pare de ler agora! E volte depois de assisti-los.

Observe o cartaz e o nome original de “Corpo Fechado”, de M. Night Shyamalan. “Unbreakable” é exatamente o oposto do mais recente filme do diretor, “Fragmentado” (“Split”, no original). Mas ambos dizem respeito a pessoas desajustadas física, mental e, consequentemente, socialmente. Aí, lá pelas tantas, somos surpreendidos com o final e entendemos que os dois filmes estão inseridos no mesmo universo. Mais do que isso: que pode haver um terceiro capítulo desse emaranhado todo.

E foi o que aconteceu, senhores. A comunidade nerd entrou em polvorosa quando, nesta quarta-feira, 26, Shyamalan usou seu Twitter para confirmar que já está trabalhando no próximo capítulo da trilogia. O título? “Glass”. “Vidro”. É para quebrar tudo mesmo.

Com as presenças já confirmadas de Bruce Willis (David Dunn), Samuel L. Jackson (Elijah Price), James McAvoy (Kevin Crumb) e Anya Taylor-Joy (Casey Cook), ficam reveladas as principais peças do jogo. Será que dá para imaginar o que vem por aí?

Como todo mundo já sabe, em “Corpo Fechado”, David Dunn, um segurança sem muita perspectiva na vida, sobrevive a inúmeras experiências mortais, levantando a desconfiança de um aficcionado por quadrinhos, Elijah Price (autodenominado de “Mr. Glass” – o que, inclusive, pode ser uma referência do título do próximo filme). Deixamos Dunn às voltas com uma discreta aceitação de seus poderes especiais, praticando um ato ou outro de um heroísmo anônimo, escondido em sua capa de chuva, sem grandes pretensões. Price terminou preso e internado em uma instituição penal para doentes mentais, depois de tentar colocar em prática planos terroristas envolvendo pessoas com superpoderes.

Em “Fragmentado”, conhecemos Kevin Crumb, um sujeito atordoado por nada menos que 23 personalidades. E o que parece um filme policial intrincado, situado entre “O quarto de Jack” e “O silêncio dos inocentes”, acaba desaguando num thriller psicológico um pouco mais profundo. Casey, uma das vítimas sequestradas por Kevin, consegue fugir e, no caminho para a liberdade descobre que as personalidades de Crumb pretendem se juntar para libertar uma 24ª personalidade mortífera: “The Horde”. Essa besta acaba liberando Casey quando descobre que ela também passou por um trauma de infância e é considerada como “pura”, “quebrada”. E foge para o mundo.

Um dos grandes méritos de “Corpo Fechado”, à época, foi a de reintroduzir os super-heróis no mundo do cinema de forma mais realista. Ainda não existiam os filmes dos Vingadores, Homem de Ferro ou o Batman de Christopher Nolan, o Homem-Aranha de Sam Raimi só viria dois anos depois, e os X-men, recém adaptados às telonas, ainda traziam um universo bastante caricato, com raios laser e uniformes quase ao estilo collant de lycra.

Shyamalan trouxe o herói discreto, com dramas pessoais, cheio de fraquezas e assolado por dúvidas. Um herói sem capa, plausível de existir em qualquer vizinhança. Em “Fragmentado”, esse tipo de universo continua – em que pese uma cena ou outra mais exagerada. Então, não espere que qualquer dos personagens ostente raios laser, naves espaciais e uniformes no próximo filme. Provavelmente isso não ocorrerá. Esqueça o que você conhece dos universos Marvel e DC.

Ainda que sui generis, entretanto, o roteiro de filmes de herói sempre traz determinadas características centrais – e isso desde os primórdios da arte de contar estórias, como o pesquisador Joseph Campbell expõe em sua obra “O Herói de Mil Faces”. Há uma certa “receita”, a qual convencionou-se chamar de “A jornada do herói”, que é uma espécie de manual para roteiristas mais apressados, mas que acaba sendo consultado também pelos mais ousados e experimentalistas. Shyamalan, desse último time, declarou que tem estado otimista, e chegou a ficar com medo quando escrevia uma das lutas entre Dunn e Crumb (opa! Mais uma dica aí!). De qualquer forma, dá para fazer algumas previsões. Vamos ver:

Dunn dificilmente assumirá de cara o seu papel de super-herói. Provavelmente só aceitará alguma responsabilidade quando The Horde começar a bagunçar a cidade. E aí, certamente vão rolar algumas brigas épicas.

Mr. Glass, por sua vez, deverá usar de alguma artimanha para ter a confiança de The Horde, e após ensinar alguns truques a ele, ambos deverão ir no encalço de Dunn (lembra que foi David quem meteu Price na prisão, para começo de conversa?). Casey então surgirá como uma aprendiz e parceira de Dunn, já que é imune a Crumb.

Dito isso, duas coisas muito provavelmente ocorrerão: Price tentará conquistar a confiança de Casey, convertendo-a para o “lado negro da Força” e Dunn, por sua vez, a recrutará e ensinará algumas manhas da carreira de herói. Os times ficam divididos em dois a dois. Batalhas épicas pipocarão para todos os lados da Filadélfia.

Por fim, considerando a idade de Bruce Willys, a receptividade do público e o potencial da estória, é bem provável que exista uma brecha para futuros capítulos. Nesse caso, só resta ao personagem de Willys morrer, deixando com Casey, sua sucessora, o papel de defensora da humanidade. Crumb dificilmente sobrevive. No máximo, será curado. E Price, sendo a megamente por trás de tudo, tem uma chance de escapar para bolar mais planos infalíveis para o futuro.

São apenas previsões. Muita coisa ainda deve rolar na pré-produção de “Glass” (que deve estrear só em 2019). Uma coisa é certa: nunca dá para prever 100% do que sairá da mente brilhante e fragmentada que criou todo esse universo. De agora para frente, olho sempre no Twitter do Shyamalan.

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Laurent

Cara, o que eu acabei de ler ? Suas suposições são engraçadas demais
hahahahahaha

Abraços

João Paulo L. Tito

É muito difícil tentar prever o que sai da cabeça maluca do Shyamalan hahaha. Dai usei um pouco da técnica de roteiro (é técnica, logo, é naturalmente rasa) para fazer esse exercício.
Diga lá… o que você espera ver na tela sobre esse universo?

Grande abraço!!