Série Contos da Pandemia (1): A espera e a eternidade, de Lêda Selma

Susete recebe uma notícia devastadora e desespera-se. Seu pai. Desmaio. Ambulância. Hospital. É a Covid-19. Deus o socorra

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando — livremente — o tema da pandemia da Covid-19 (que já vitimou mais de 516 mil brasileiros). A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um  livro.)

A espera e a eternidade

            Lêda Selma          

Sofia está feliz. Então, inicia o rito preparatório, repetido a cada vinte e cinco anos, para a especial celebração.

No baú, recolhe peças antigas. A colcha, bordada à mão, cobre o alvadio lençol de linho. Delicadamente, faz da cama hospedaria do passado: a ‘camisola do dia’, em tom rosa pálido. Vestido de renda guipir, amarelento. Farto véu, encimado pela grinalda de flores. E o rosário de ouro, das noivas de várias gerações. Descalços, os sapatos à Luiz XV, aos pés da cama, como se ajoelhados, desvelam saudades.

A intensidade da luz, aquela de sempre, esvai-se das arandelas. Parecem adejar na placidez do quarto, ao tempo em que afloram lembranças. No silêncio das paredes, rastos de segredos. De emoções em vários naipes. De momentos cumpliciados, sob risos ou lágrimas.

De jacarandá baiano, a penteadeira acolhe acessórios femininos e o perfume Ma Griffe, toque de requinte, com alma de flor. A passagem do tempo, as manchas senis do espelho, acusam. E, displicente, ele esmerila o embevecido vai…e…vem da mulher. Além da pequena Bíblia, na mesinha de cabeceira, portentosa caixa de joias e o brilho de 74 pulseiras ‘sírias’, em ouro 18k. Logo mais, serão 75. Apesar de seus 93 anos, meu amado não se esquecerá de colocar mais uma em meu braço esquerdo, o do coração – sussurra Sofia.

Ao observar a esmerada arquitetura do seu capricho, na reconstrução do passado, ali, estendido sobre a cama, Sofia se enternece. Encantado, o instante. A dialogar com o tempo, sempre alcoviteiro, a poesia em lirismo filigranado. E o quarto, pronto à visitação. A vida do amor refloresce em cada colhimento. Agora, é só esperar a noite e toda a alegria que ela trará — monologa.

Autorretrato depois da gripe espanhola, de Edvard Munch

Salão banhado de luzes. Flores, laços, cadeiras e mesinhas estilosamente vestidas. Na passarela, alfombra azul-marinho. O esplendor do Ostensório, no altar. E a Sagrada Família, da tela primorosa, a ungir de bênçãos o cenário. Refinamento e expectativa.

— Alô. Sim. Quem gostaria? Misericórdia! Um momento. Vou chamar Susete, a filha de dona Sofia — vocifera a governanta.

Susete, após a voz, em tom enigmático, dar-lhe a devastadora notícia, desespera-se. Seu pai. Desmaio. Ambulância. Hospital. Deus o socorra! Como contar à minha mãe?! Antes de sair, recomenda à governanta: mantenha sigilo, por favor!

Sobressaltada, Sofia acorda com o som da chamada. E deixa, no quarto, o sonho abraçado ao travesseiro. Pergunta à governanta quem ligou, onde está o marido (ele nunca sai!) e por onde anda a filha.

(Na verdade, o sonho era a reprodução da realidade. A cada 25 anos, a coreografia da cama reeditava-se. Linda festa celebraria as Bodas de Diamante de Sofia e Higino. Porém, a pandemia cancelou-a).

Logo, os cinco irmãos rodeiam Susete, no hospital. A espera tem o tempo da eternidade, diz, impaciente, um deles. Sofia afasta-se. O médico é categórico:

— Dr. Higino está na UTI. Entubado. Covid-19!

— Como é possível? Ele cumpre à risca o isolamento! Só a governanta e os filhos têm acesso ao apartamento…

— Tudo é muito novo ainda. Um de vocês, infectado assintomático, pode ser transmissor do coronarírus. Façam o teste!

— Sei que a idade avançada é agravante, mas papai, além da lucidez invejável, tem boa saúde, nem diabético é, doutor. E Deus, o médico dos médicos, também, cuidará dele! Só não sei se mamãe resistirá a tamanho choque…

O padre dá a dolorosa notícia. Sofia fica devastada. Sente-se mal. Atendida pelo médico da família, deixa a alma gritar que queria ser infectada pelo maldito vírus! E pergunta, amargurada:

— Por que as vacinas não chegaram a tempo, meu Deus?! Por quê? Onde estão os responsáveis?

Na sala, os filhos rezam, inconsoláveis. A tristeza não lhes dá trégua. E as palavras escapolem a esmo:

— O governo não está nem aí. Bando de insanos! – esbraveja a revolta do caçula.

— E nosso pai será mais uma vítima do descaso que gera essa perversa mortandade?! – brada Susete.

— Já relacionei as barbaridades ditas pelo presidente: “E daí?”. “Não sou coveiro!”. “Todos vão morrer um dia”. “Se morreu, é porque era a hora!”. E tantas outras – retruca o filho mais velho.

Após dois meses de sofrimento, Sofia recebe o marido, debilitado, um pouco confuso, porém, vivo. Milagre! Alegria em abundância. Bênção do padre.

Manhã de sábado, verão abrasador, missa em ação de graças pela vida do patriarca. No amplo quarto do casal, decide Sofia. Dr. Higino comove-se ao ver o carinho da amada: a cama, ainda aquela da noite de núpcias, encimada pelos símbolos que vivificam o passado: vestido de noiva, véu, grinalda… Os mesmos do sonho de Sofia. Ele a abraça, beija-a, sentado na cadeira de rodas. Pede à Susete a caixinha de veludo que a joalheria entregou-lhe no dia da internação. Durante o Ofertório, sob os olhares dos filhos, Sofia recebe o presente: a pulseira ‘síria’. Sob as bênçãos do padre Bonilha, o marido coloca-a em seu braço esquerdo, “o do coração”. E renovam, pela terceira vez, as juras do matrimônio.

Passadas as emoções matutinas, caprichado almoço. Antes, falas emocionadas dos filhos. Carinhos em profusão. Louvações a Deus. Despedidas. Os pais precisam descansar.

O casal direciona-se ao sofazinho, num dos cantos do quarto. Sentados, a digestão será mais rápida, diz Dr. Higino. (Ou, quem sabe, para não profanarem a sacralidade dos momentos personificados sobre a cama).

A governanta apavora-se com o grito de horror! Entra no quarto. Vê Sofia dar tapas no coração do marido, e até tentar o ‘boca a boca’. E corre para o telefone.

Sofia abre uma gavetinha. Deixa o quarto. Vai ao barzinho, na sala de jantar. Volta com um cálice de vinho. Chega a ambulância. Os médicos, estarrecidos, percebem a tragédia. Os dois de mãos dadas. Ela, com as setenta e cinco pulseiras ‘sírias’ no braço do coração. No assoalho, respingos do vinho adulterado, como se fosse sangue do amor que não sobreviveria à separação.

Lêda Selma, escritora, foi presidente da Academia Goiana de Letras. É colaboradora do Jornal Opção.

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