Seguindo em frente, sem esquecer o passado

Baseado no livro chileno “Um pai de cinema”, de Antonio Skármeta , “O Filme de Minha Vida” é o terceiro filme dirigido por Selton Mello, adaptado por ele e por seu parceiro nos longas anteriores, Marcelo Vindicato

Set de filmagens de “O filme da minha vida”, dirigido pelo também ator Selton Mello

Quando Selton Mello veio a Goiânia, no dia 23 de julho, para a avant-première de seu mais novo filme, “O filme da minha vida”, disse que gostaria muito que os goianos recebessem a obra como um presente. Uma flor, um bálsamo para os olhos. Porque, mais do que nunca, em tempos como os em que vivemos, precisamos de coisas assim: simples, sensíveis, bonitas e que toquem fundo o coração. E não há definição mais exata para a obra.

Baseado no livro chileno “Um pai de cinema”, de Antonio Skármeta (também autor de “O carteiro e o poeta” e fazendo uma ponta na tela), esse é o terceiro filme dirigido por Selton, adaptado por ele e por seu parceiro nos longas anteriores, Marcelo Vindicato. Considerando que o responsável pela fotografia é Walter Carvalho (responsável também por “Febre do Rato”, “Baixio das Bestas”, “O céu de Suely”, “Central do Brasil”, “Terra Estrangeira”, “Carandiru”, “Amarelo Manga” e, talvez seu trabalho mais primoroso, “Lavoura Arcaica”), já temos nessa pequena ficha técnica o indicativo de mais uma grande obra do cinema nacional.

Tony Terranova, o protagonista vivido de forma competente por Johnny Massaro, deixa sua família na Serra Gaúcha para ir cursar a faculdade na cidade grande. Quando retorna, alguns anos depois, dá de cara com a ausência de seu pai, o francês Nicolas (o francês mais brasileiro do mundo, Vincent Cassel), que abandonou a esposa brasileira, Sofia (Ondina Clais Castilho), e voltou para a França. Simplesmente desapareceu, sem deixar motivo algum.

Como é de se esperar, Tony entra numa espiral melancólica tremenda, dividindo seu crescimento pessoal com a vontade de descobrir o que é feito do pai, atolado em memórias de infância. Paco, um antigo amigo da família vivido pelo próprio Selton Mello, preenche de forma troncha o papel paterno, dando conselhos ou servindo como escape emocional vez ou outra. Aliás, é ele o símbolo da contradição humana: o conselheiro que recomenda perseguir o futuro, mas que ainda briga contra a evolução tecnológica. O homem que se julga superior ao porco, mas que carrega em si a dúvida quanto a qual classe mamífera pertence. Que veste a capa de heroi, mas esconde dentro de si o chiqueiro.

O primeiro ato do filme reforça o tempo todo a prisão emocional que estagna a vida de Tony, dividido entre a idealização do pai e o inconformismo com seu abandono. Isso cria o clima perfeito para as reviravoltas que o filme dá, já que os relances da busca pela maturidade frequentemente trazem surpresas.

Um papel discreto mas bastante importante foi reservado a Rolando Boldrin: o maquinista Giuseppe que, nas suas próprias palavras, “tem uma das funções mais nobres de todas: levar as pessoas para resolverem coisas”. Boldrin cuida da linha de trem que une as cidades de Recanto, onde vive Tony e a mãe, e Fronteira, um povoado um pouco maior onde a vida flui mais – seja pela existência do único cinema das redondezas, seja pela movimentada “casa da luz vermelha” – dois palcos fundamentais para a estória. O maquinista, tal qual Caronte, da mitologia grega, será fundamental na jornada de Tony para resolver coisas entre dois mundos.

No fim das contas, “O filme da minha vida” compõe de forma digna mais esse tijolo na já consistente obra de Selton por trás das câmeras. Uma ou outra falha de roteiro, ou mesmo a solução rasa para o final da estória passam despercebidos por trás de sua delicadeza e sensibilidade técnicas. A fotografia toda forjada em tons de sépia, como num álbum de fotos antigo, e a trilha sonora recheada de músicas nostálgicas remetem à melancolia de tempos em que o afeto e a ligação entre as pessoas era a coisa mais importante do mundo. O amor salva tudo.

Quando for ao cinema para assistir ao filme, no dia 03 de agosto, lembre-se das palavras de Selton na pré-estreia e aproveite o presente. Porque na ferrovia da vida, o início e o fim são importantes, mas é o meio que faz da viagem inesquecível.

Assista ao Trailer Oficial do filme:

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