Ulisses Aesse

Especial para o Jornal Opção

Há amizades que descansam com a gente. Permanecem como frutos que caem das árvores, dessas mães vegetais, depois de saciar a fome dos pássaros. São amizades que não terminam com a ausência física. Ficam na memória, nos gestos, nas conversas e na saudade dos anos.

Amizades são também sempre memórias. Não nos esqueçamos disso. Elas fazem parte da gente como as mãos que abraçam e os pés que caminham juntos na eternidade das horas. São laços que permanecem, mesmo quando a distância e o silêncio parecem se separar.

Digo isso para falar sobre o meu amigo Salatiel Soares Correia, que se foi esta semana. É sobre ele quem escrevo. Sobre a amizade, a escrita e as lembranças que ficam quando alguém que gostamos, parte.

Salatiel entrou no meu mundo pela paixão que tinha pelo texto. Pouco importa, na verdade, se ele se reposicionou na escolha da profissão de engenheiro ou se, por um desejo, acabou se tornando um escritor por vontade própria.

O que importa é que, de alguma maneira, já parecia predestinado a isso. Era alguém que sabia transformar a vida em história, que procurava compreender o mundo e que, aos poucos, encontrou na escrita uma forma de expressar o que pensava.

Não é raro encontrar advogados, médicos e engenheiros dedicados aos textos, como Salatiel se entregou a eles. Quase como se Salatiel e texto fossem sinônimos. No começo, a escrita era conturbada, atabalhoada. Não encaixava no veículo jornal. Mas, com o tempo, foi ficando macia, como a doçura no bico dos pássaros depois de um banquete de mel e luz do sol.

Salatiel tinha uma força de vontade e uma obsessão pelo texto que impressionava. Passou a tratá-lo como um sacerdócio. Poucas são as pessoas que hoje têm esse respeito pelo pensamento e pela boa discussão. Não era possível vê-lo distante do computador e de sua biblioteca. Não admitia que o pensamento fosse apenas silêncio

Salatiel foi descobrindo o prazer das palavras, dos verbos aos substantivos e adjetivos. Na comunhão dos dias, tornou-se escritor. Pensador. Articulista.

Engenheiro por formação, Salatiel pensava e dominava a gestão pública, um tema que adorava discutir. Gostava de persistir, de persuadir, de não deixar a energia que nos move se perder pelo caminho. Transformava essa energia em teses, artigos e reflexões, publicados no “Diário da Manhã”.

Salatiel Correia e seu livro de memórias | Fotos: Euler de França Belém/Jornal Opção

É que o primeiro texto que escreveu para o jornal estava fora do padrão da linguagem jornalística. E Salatiel, como um recém-chegado ao jornalismo, deixou escapar a máxima de McLuhan: “O meio é a mensagem”. Mesmo assim ainda trazia consigo o espelho das teses e dos artigos acadêmicos. Precisou aprender outra linguagem, mais próxima do tempo curto que o leitor dedica aos artigos de jornal.

Deu certo. Muito certo.

Entre o primeiro e o último texto, houve profundas mudanças. Salatiel passou a assimilar a linguagem curta e direta, mas reflexiva, da opinião jornalística. Até parecia que já era jornalista há muito tempo.

A amizade nos fazia irmãos. Eu o levava para almoçar em casa, e dividíamos a mesma mesa com outros amigos e minha mãe. Era uma simplicidade quase de comunidade. Minha mãe, que não conhecia todos aqueles que chegavam, acabava conhecendo-os na hora, porque quem estava ali era mais um da família

Provavelmente, em seu dia de 24 horas, pensava no que escreveria no próximo artigo durante boa parte das horas. Com o tempo, não apenas se tornou um grande articulista, mas também um grande escritor.

Salatiel parecia se opor à matemática cifrada da engenharia e às suas lógicas indevassáveis. Passou a pensar e a produzir reflexões, quase como uma provocação aos próprios pares. Conversava à altura das autoridades, mas também sabia ouvir. A engenharia, com sua precisão e seus desafios, fazia parte de sua formação. A escrita, por sua vez, parecia libertá-lo todos os dias.

Salatiel Soares Correia capa de O Jogo Invisível das instituições três capas ok
Um romance distópico sobre duas empresas de energia elétrica e seus dirigentes e funcionários | Foto: Jornal Opção

Quando visitava a redação do “Diário da Manhã”, fazia questão de cumprimentar seo Batista (Custódio), fundador e alma do jornal. Era como se, ao conversar com ele, Salatiel se satisfizesse e se tonificasse. Todos nós, que gostamos e gostávamos do jornalismo, conhecíamos um pouco dessa sensação de estar com seo Batista: os ensinamentos, os aconselhamentos, a convivência com alguém que fazia do jornal uma parte de sua vida.

Da engenharia elétrica às estradas do poder político, tudo estava ao seu alcance. Depois de conversar com Batista, Salatiel se entranhava na redação. Falava comigo, com Welliton Carlos, com o fotógrafo Zuhair Mohamad e com quem dividia suas reflexões. Ora discutia os artigos que acabara de escrever, ora os que ainda seriam publicados. Sempre havia um assunto, uma ideia, uma pergunta que merecia ser pensada.

Da redação, a amizade nos fazia irmãos. Eu o levava para almoçar em casa, e dividíamos a mesma mesa com outros amigos e minha mãe. Era uma simplicidade quase de comunidade. Minha mãe, que não conhecia todos aqueles que chegavam, acabava conhecendo-os na hora, porque, para ela, quem estava ali era mais um da família.

Minha mãe sempre foi mãe de todos. Acolhia meus amigos com o mesmo amor com que acolhia os filhos nas tempestades dos imprevistos. O almoço, esqueci de dizer, saía de improviso. Ela não sabia se eu almoçaria em casa, se levaria um ou vários amigos, mas se virava com aquela observação diária de mãe, que sabe cuidar mesmo quando não tem tudo planejado.

Salatiel Soares Correia e Ulisses e Zuhair
Salatiel Soares Correia, Ulisses Aesse e Zuhair Mohamad, 25 anos atrás | Foto: Marcos Lôbo

Salatiel tinha uma força de vontade e uma obsessão pelo texto que impressionava. Passou a tratá-lo como um sacerdócio. Poucas são as pessoas que hoje têm esse respeito pelo pensamento e pela boa discussão como ele tinha. Não era possível vê-lo distante do computador e de sua biblioteca. Não admitia que o pensamento fosse apenas silêncio.

Salatiel também gostava da boemia. Não daquela boemia dilacerante da noite carioca, mas da goianiense. Gostava de ir a um barzinho, sentar-se e jogar conversa fora. Em todas as ocasiões, ficava ofendido se alguém se oferecesse para pagar a conta ou mesmo dividi-la. Agia como cicerone. Quem convida, paga. Era preciso meio mundo para convencê-lo de que o prazer do encontro era de todos e que, por isso, todos deveriam contribuir.

Depois, virou regra.

Por seu prazer na amizade, quando os encontros aconteciam, os assuntos nunca se afastavam muito dos nossos pensamentos e das vaidades comezinhas humanas. Para os amigos, dada sua vocação para a boa espiritualidade e para as boas energias das horas de ócio nos bares, ele passou a ser um bom companheiro de mesa. Em tudo o que se envolvia, acabava encontrando um motivo para comemorar, para celebrar a felicidade do debate coletivo.

Nessas tertúlias, nunca esquecíamos do tradicional frango assado, acompanhado de uma boa cervejinha gelada. A mesa, como a conversa, era parte da comunhão. Comer, beber, rir, discutir e lembrar. Tudo isso fazia parte da amizade desse grupo. O início dessa amizade, que continuou por muito tempo, aconteceu no Bar do Celsin, quando ficava ali na rua do Hospital de Queimaduras, quase um quarteirão depois, acho, da Praça da Cirrose, no Setor Oeste.

Da Califórnia, minha irmã, grande amiga de Salatiel, escreveu a lembrança que teve com ele ainda no Brasil. Numa visita ao jazigo da minha família, no Cemitério Santana, Salatiel lhe disse que a sepultura estava descuidada, precisando de uma conservação melhor.

Foi um daqueles gestos que dizem muito sobre alguém. Minha irmã, tocada pela observação de um amigo que amava nossa família, prontamente mandou renovar o mármore que a família merece, desde minha bisavó, matriarca de todos, dona Etelvina.

Sara, minha querida irmã e também amiga de Salatiel, escreveu suas emocionadas palavras. Leia abaixo.

Um livro para o amigo Salatiel Correia

A morte não apaga tudo. Salatiel continua presente na memória de seus amigos, nas conversas que tivemos, nos textos que escreveu e nos gestos de amizade que deixou

Sara Silva

Especial para o Jornal Opção

Hoje soube que meu querido amigo Salatiel Soares Correia faleceu.

Salatiel era gentil, atencioso e um leitor apaixonado. Ao lembrar dele, gostaria de ter desacelerado e dedicado tempo a ler um livro ou um poema em sua companhia. Demorar em uma passagem, trocar ideias e deixar a conversa seguir sem olhar para o relógio.

Vivemos ocupados, e a vida passa depressa. Deixamos tanto para outro dia: uma visita, uma conversa, uma tarde tranquila com um amigo. Só quando esse amigo parte compreendemos o quanto esses momentos simples teriam sido preciosos.

Salatiel, gostaria que tivéssemos compartilhado mais momentos assim.

Irapuan Costa Junior e Salatiel Soares Correia: escritores e amigos | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Que um dia possamos nos reencontrar, meu querido amigo, com tempo para sentar e conversar sobre seu livro favorito.

Vou me lembrar de levar um para você”.

Não é fácil falar de quem parte. Ou, para usar a palavra mais direta, de quem morre. Mas a morte não apaga tudo. Salatiel continua presente na memória de seus amigos, nas conversas que tivemos, nos textos que escreveu e nos gestos de amizade que deixou.

Vi isso no semblante de cada pessoa que estava em seu velório. Salatiel estava ali, presente em cada um, de alguma maneira, na expressão de quem o amava. Estava na memória de cada um que o viu pela última vez, como Sara, que guarda a esperança de reencontrá-lo no plano que nos foi confiado, o da vida eterna.

Viver eternamente talvez seja também poder passar adiante. Permanecer na memória de quem nos amou, nos textos que escrevemos, nas amizades que construímos. É continuar existindo nas histórias que os outros contam sobre nós, nas mesas que ainda reúnem nossos amigos, nas palavras que ficaram por dizer e naquelas que, por sorte, conseguimos dizer no tempo.

Salatiel merece uma biografia. Quem sabe, num momento posterior. Agora, a sua ausência ainda sangra em seus amigos.