Sai tradução de “Fosca”, romance do italiano Iginio Ugo Tarchetti

Interessante a sensibilidade de Tarchetti — que descreve, bem antes de Freud, o elemento da histeria e os aplica tanto à mulher quanto ao homem

Francesca Rissi

No romance “Fosca” (Kelps, 233 páginas, tradução de Jorge Wilson Simeira Jacob), de Iginio Ugo Tarchetti (1839-1869), publicado em 1869, exatamente 150 anos atrás, temos uma trama que se desenvolve centrada na observação do personagem masculino Giorgio, jovem solteiro em busca do amor. Estamos na época em que o homem, que constitui o centro — o Axis Mundi — da sociedade, convive com uma moral dominada pela igreja na qual a mulher tem apenas o papel de coadjuvante.

Iginio Ugo Tarchetti, escritor italiano

Giorgio se enamora. Primeiro de Clara, mas este é um amor impossível, pois Clara pertence a outro homem. Giorgio então parte para sua carreira militar e encontra Fosca, mulher inteligente, que se faz notar pela sua ausência nos jantares em que ele é convidado. Há sempre para ela um lugar à mesa, que permanece vazia à espera de seu aparecimento. Fosca não comparece porque tomada de dores.

Quando finalmente a conhece, ele já está marcado por esta espera e pela curiosidade. Estamos, quase 20 anos antes de Freud se encantar com as histéricas, descrevendo suas tentativas de cura pela hipnose e finalmente fundando a psicanálise, que usa os sonhos como ferramenta de trabalho. As histéricas adoecem de sonhos e este romance nos fala de sonhos que se tornam pesadelos. Giorgio passa de um amor ideal, mas proibido, Clara, para o amor terreno e possível, Fosca.

Para se permitir a “decadência” desta sua escolha, ele se arma com a força da piedade. Ele imagina que está acolhendo Fosca por uma obra de caridade, para salvá-la. Giorgio não pode lidar com a realidade da perda e com a realidade do possível. Assim, ao “amenizar” o sofrimento de Fosca, ele pode voltar a sentir-se importante, um herói, e manter sua autoestima.

A trama se desenrola com estes dois personagens que se entrelaçam numa espiral de loucura. Tarchetti antecipa Freud ao descrever o mundo fantasioso e assombrador da mente e, mais ainda, nos leva à percepção da passagem da loucura de um personagem ao outro. Porque não é apenas Fosca que se perde em seus sonhos e pesadelos, mas é também Giorgio que, egresso de sua perda afetiva, se perde ao se deixar convencer de sua importância na salvação de Fosca. Assim ele fica ao seu lado, apesar de não suportar sua feiura.

A verdade é que Giorgio, não podendo conviver com os elementos frustrantes de sua vida, sonha. Sonha com o amor impossível de Clara e com seu papel “salvador” de Fosca. Tudo para evitar a catástrofe de sentir-se humano e assim limitado ao possível.

Giorgio tem momentos de percepção de realidade quando afirma “tentei pronunciar o meu nome porque me parece não ser mais eu, mas sim estar tomado por uma tremenda alucinação”. Porém esse chamar a si mesmo, como forma de chão real, não o salva, pois, nesta trama, as fantasias mostram-se muito mais fortes do que a realidade. Interessante a sensibilidade de Tarchetti — que descreve, bem antes de Freud, o elemento da histeria e que os aplica seja na mulher como no homem. E, como um bom prestidigitador, nos leva a vivenciar as românticas expectativas e as várias formas de sofrimento de seus personagens — todos ocupados com a fuga dos limites impostos pela vida. Um romance imperdível de paixões desmedidas e emoções vertiginosas.

Francesca Ricci é psicanalista.

Nota do Jornal Opção

O romance “Fosca”, de Iginio Ugo Tarchetti, foi publicado em Goiás — pela Editora Kelps — graças ao empenho do escritor e ex-governador Irapuan Costa Junior. Ele foi traduzido do italiano por Jorge Wilson Simeira Jacob. O texto de Francesca Ricci, mencionado como “resenha”, é uma apresentação da obra e das ideias do autor, um precursor tanto de Freud quanto, na literatura, de Arthur Schnitzler (que foi lido pelo pai da psicanálise).

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