“Ruptura do Visível”, novo disco do Institution, saiu em momento necessário, mas encarou desafio sem pegar estrada

Lançado em março de 2020, assim que a pandemia da Covid-19 foi decretada pela OMS, álbum retrata realidade nacional em português num cenário em que shows e turnês precisaram ser canceladas

Depois de lançar o EP “Uncritical Receiver” (2014) e o disco “Desolation Times” (2015) com músicas cantadas em inglês, a banda paulistana de hardcore Institution resolveu se aventurar nas letras em língua portuguesa. A ideia do vocalista Hélio Siqueira é a aproximar a mensagem passada nas canções ao público que acompanha o grupo. Foi quando, em setembro de 2017, a Institution resolveu lançar o EP “Fragmentos Subversivos”, com duas faixas no idioma oficial do Brasil: “No Limiar do Exílio” e “Futuro Primitivo”.

“O Estado omite os seus direitos e se apropria de sua valia/O Estado extingue os seus direitos e se expropria de sua alforria.” Pelos versos de “No Limiar do Exílio”, fica evidente que o Institution queria ser compreendido com facilidade por quem tem acesso à banda e colocar o dedo nas feridas que entendem atrapalhar a vida da sociedade brasileira. Foi então então que o vocalista Hélio Siqueira, os guitarristas Fábio Pereira e Paulo Gervilha, o baixista Rodolfo Duarte e o baterista Lucas Melo resolveram lançar em março de 2020 o álbum “Ruptura do Visível”.

“Uma vez que nossas letras são políticas e tratam muitas vezes de temas diretamente relacionados a problemas sociais do Brasil, penso que o português é a escolha certa para expressarmos nossas reflexões e posições a respeito dessas questões. Além disso, é nossa língua nativa, o que torna a música mais intimista, mais próxima dos ouvintes. A identificação é maior nesse caso”, adiantou em 2017 a intenção da banda Hélio quando o EP “Fragmentos Subversivos foi lançado.

No material de divulgação do trabalho de 2017, o vocalista reconhece que compor no nosso idioma muitas vezes é uma tarefa mais complicada do que escrever letras de hardcore em inglês. “A meu ver, compor em português exige um pouco mais, tanto na escrita, quanto na construção das linhas de voz, mas tem sido um trabalho bastante estimulante. As músicas continuam tão agressivas quanto às do ‘Desolation Times’, mas com novos elementos. Estamos experimentando mais do que antes cada riff ou ideia.”

“Ruptura do Visível”

Logo na abertura do disco “Ruptura do Visível”, a decisão se mostra acertada. Em bom e claro português, Hélio canta na música “Memória Falha”: “Não haverá futuro até que cada bandeira queime em seu mastro/Não haverá futuro enquanto nos dissiparmos nas lutas que entregamos”. O primeiro single do álbum saiu antes mesmo de março de 2020, ainda em dezembro do ano anterior, com as faixas “Memoria Falha” e “A Queda” juntas em um mesmo videoclipe.

Em “A Queda”, a letra delimita bem o momento vido no Brasil. “Instrumentalizado, o ódio é disseminado e se naturaliza por mentiras constantes que se tornam verdades reinantes no dia a dia/Na sombra do opressor vivemos e lutamos contra nossos iguais.” Na abertura do disco, o Institution deixa clara a ruptura mais do que visível proposta na nova fase da banda. A quebra da barreira do entendimento das letras, cantadas em português direto, acompanhada de críticas sociais e políticas entaladas na garganta.

Há quem diga que o Institution é hardcore demais para o metal e outros alegam que a banda é metal demais para o hardcore. Seja qual for a definição adotada para enquadrar o som do grupo paulistano, o quinteto lançou em março de 2020 um dos melhores discos de música pesada no Brasil do ano passado pela Hearts Bleed Blue (HBB). Os integrantes, que fazem parte da história do hardcore brasileiro, com participações em conjuntos como Paura, Good Intentions, Clearview e Jeffrey Dahmer, só não contavam com a pandemia da Covid-19 no meio do caminho.

Lançamento na pandemia

A crise sanitária que já vitimou mais de 260 mil pessoas no País paralisou o setor cultural. O que tem reflexos graves no cenário independente, que vive de turnês e shows para divulgar suas músicas, vender camisetas, discos e produtos das bandas para plateias bem menores do que as verificadas nos grandes palcos e festivais brasileiros. “Ruptura do Visível” foi lançado e no dia seguinte as apresentações ao vivo precisaram parar sem previsão de volta.

“Quantas vidas já não foram sentenciadas?/Quantas vidas mais serão silenciadas?” Os versos de “Efetividade Árida” não foram escritos com referência na dor e no sofrimento de centenas de milhares de famílias que perderam entes queridos para a Covid-19 e o desastre governamental no combate e prevenção à doença. Tem mais a ver com a destruição do meio ambiente e o preço caro que já pagamos por um desenvolvimento econômico sem sintonia mais afinada com a preservação da natureza. “Não vamos esquecer/Sonhos foram enterrados ante minério e lama por omissão“, canta Hélio.

Mas se encaixou triste e perfeitamente no cenário de quase abandono da população à própria sorte para sobreviver ao vírus e ter o que comer. Na sequência, a música “Insurgência” agrava a crítica ao modelo de exploração de um povo renegado e marginalizado. “Neste país, punidos são aqueles que lutam por seus direitos, por igualdade.” A Institution não volta os olhos apenas para o presente tenebroso que enfrentamos, mas se volta à história para marcar o início dos problemas: “Somos os descendentes de uma exploração escravista e oligárquica”.

Desigualdade social agravada

“Apenas quando somos capazes de compreender a nossa classe social é que entendemos o que se passa ao nosso redor para, então, buscarmos práticas para amenizar tais problemas. Uma pessoa que mora em uma área periférica não tem os mesmos privilégios que outra que mora em uma área central ou de alta renda.”

A explicação do que vem a ser o conceito de “Ruptura do Visível” apresentado pela banda nas palavras de Hélio se mostra como um despertar para a realidade que está aí para todo mundo ver, mas muitos não querem enxergar. Quando o vocalista, na faixa “Vertical”, canta “Eu vejo gerações em negação entorpecidas na dor, aquém de premissas morais” e “Eu vejo gerações vivendo em sacrifícios com base em valores vazios/Eu vejo gerações cravadas em tradições, em busca de um reino irreal“, entra na discussão a forma como a fé religiosa é usada por parte dos líderes como instrumento de dominação política e social.

Basta verificar a proximidade de pessoas de renome nos meios cristãos em sintonia com o discurso bolsonarista para entender a equação. “Joelhos dobrados/Valores inversos/No seio da fé a ganância reina/Sua existência se afirma na ideia divina de um plano ideal.” E aqui continua o questionamento de Hélio no material de lançamento do disco: “Por que o sistema educacional ou de saúde é diferente entre regiões? Por que não há práticas ou espaços culturais em áreas de baixa renda? São perguntas como estas que nos fazem compreender as vicissitudes diárias que vivemos”.

Nova página

A banda viu em “Ruptura do Visível” a chance de mostrar o melhor de seu som, das suas letras e de sua energia no palco com uma mudança significativa à voz de incômodo e questionamento às mazelas sociais por meio de suas composições. “Para nós este é o nosso melhor trabalho. Dedicamos um bom tempo na composição deste disco para que ele ficasse o mais próximo do que tínhamos em mente”, descreve Hélio.

E o videoclipe de “Frêmito” é a descrição mais sincera do que a Institution buscou no novo álbum: a força de resistência, com mensagens fáceis de serem entendidas e na companhia de amigos de música e de vida. Em gravação virtual, a banda contou com a participação de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish, Augusto Scartezini Chita, baixista do Hellbenders, Milton Aguiar, vocal do Bayside Kings, entre outros, como fãs do Institution, o ex-guitarrista Guilherme Xavier.

As imagens expressam bem a lógica do “do it yourself (faça você mesmo)”, característica do punk e das atividades que surgem do senso de coletividade. “Frêmito” é um grito de resistência. “Emergir de tudo o que nos foi proibido sentir; de esperanças reprimidas de um amanhã que nos foi sempre negado; de vivências fragmentadas pelas derrotas diárias; de um mundo que já não podemos mais suportar: esta é a nossa sentença.”

“Verdades Plásticas” aborda o incentivo ao espetáculo do consumo. “O momento presente é o de negação/Refugiados em mentiras que lhes convêm/Eles definem você, definem quem precisa ser. Afinal, quem é você?” Em seguida, “Cidade Informal” discute o direito a moradia digna, a consciência – ou a falta dela – da obrigação constitucional do Estado de garantir qualidade de vida a todos os cidadãos. “Vivemos na contingência, na disparidade real e imperativa. Vivemos na desigualdade, sem recognição de que somos parte integrante do todo.”

“Metástase”, faixa que encerra o disco “Ruptura do Visível”, é direta: “A mentira como estratégia fomenta a práxis do opressor/O que sobra de nós diante do medo?”. E fecha o álbum com a mesma pergunta que abre o trabalho em “Memória Falha”. “O que nos torna real?”

Ficha técnica

Disponível nas plataformas de streaming, o disco “Ruptura do Visível” foi lançado no dia 13 de março de 2020 em CD e LP. Conta com arte de Gustavo Magalhães, do Estúdio Miopia, produção e gravação de Rodolfo Duarte e Muriel Curi no Dissenso Estúdio.

A mixagem é assinada por Fernando Sanches no Estúdio El Rocha e a masterização feita pelo norte-americano Brad Boatright no Audiosiege Mastering Studio, que tem como trabalhos que passaram pela sua mão os discos de bandas como Poison Idea, Nails, Full Of Hell e Harm’s Way.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.