Romance sem profundidade

“Casa de Vidro”, obra de estreia da escritora Raquel Vilas Boas, de Cruzeiro (SP), relata encontros e desencontros, mas peca ao não colocar os personagens no mundo real

Título: Casa de Vidro
Autora: Raquel Vilas Boas
Editora: Chiado Editora
Valor: R$ 43

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

“Todos nós temos nossa casa de vidro. Ela simboliza o contorno do nosso medo, aquele bem lá no nosso interior, no nosso inconsciente. Um medo que temos, ou de que algo estilhace, ou que dê errado, ou que se vá. É a nossa vulnerabilidade ao mundo exterior…”. Essa reflexão, apresentada ao leitor nas frases anteriores, ditas pela personagem Olga, mãe do protagonista, o bioquímico Ivan, é a melhor passagem do livro “Casa de Vidro”, da escritora Raquel Vilas Boas.

Mas assim como é superficial a casa de vidro onde vive, infeliz em seu relacionamento, o casal formado por Ivan e Laís, também os dramas relatados no romance carecem de maior profundidade. O cenário onde os personagens gravitam poderia retratar um mundo mais real, já que se trata de uma metrópole brasileira com seus numerosos e cotidianos desafios. Porém, não há problemas de luta de classe (os empregados domésticos adoram os patrões e são tratados como pessoas da família), e nem se lê a mínima citação sobre a violência urbana, comum hoje nas capitais brasileiras, ou a crise político-institucional pela qual tem passado o Brasil nos últimos anos.

A maioria dos personagens de “Casa de Vidro” são integrantes da classe média alta, moram em um condomínio de luxo ou em casas situadas em bairros nobres de São Paulo. São bem-sucedidos em suas carreiras profissionais, não enfrentam problemas financeiros ou temem os efeitos da violência, da recessão econômica e da crise política. Parecem viver em uma bolha de vidro.

Os personagens de Raquel Vilas Boas sofrem apenas de dificuldades amorosas. Não que os problemas do coração e de relacionamento devam ser deixados de lado, diante do mundo cão em que vivemos hoje na terra brasilis. Todavia, a história de amor, com direito a mocinho, mocinha e vilã, além de pais e amigos carinhosos, às vezes soa superficial por falta de um contexto mais real, mais concreto. Afinal, o mundo não é maniqueísta, mas composto por um caleidoscópio de emoções e opiniões.

Sabe-se que a arquiteta de destaque Laís é fria e alpinista social. Já seu marido Ivan é bom e nobre. E isso fica comprovado logo no início da narrativa, quando ele presta socorro aos jovens, também filhos de famílias de classe média alta, envolvidos em um acidente de trânsito ocorrido dentro do condomínio onde mora. Ivan ainda dispensa todos os cuidados à vizinha, a bela Marcela, cuja filha se envolve no sinistro. Como ambos são infelizes em seus casamentos, com parceira e ex-parceiros odiosos, logo vão se apaixonar e lutar para ficar juntos. Esse é o fio condutor do romance.

Raquel Vilas Boas no estande da Editora Chiado na Bienal de São Paulo deste ano: livro foi sua estreia como escritora | Foto: Divulgação/Chiado

Analisando as informações da  escritora Raquel Vilas Boas, leio que é advogada, natural de Cruzeiro (SP), apaixonada pela literatura. “Casa de Vidro” é sua primeira obra. Seu modo de escrever cativa o leitor e é fácil de seguir os dramas de seus personagens. Os diálogos fluem, não há muitas passagens descritivas. Tem muita ação, o que é importante hoje diante da grande concorrência que os romances sofrem do cinema, da televisão e da Internet. Falta, portanto, dar maior profundidade psicológica a seus personagens, ao mesmo tempo em que há uma certa carência a respeito do momento histórico do romance (mesmo que seja no tempo atual).

Talvez pelo fato de eu ser uma apaixonada por romances históricos e personagens heroicos, me ressenti de saber tão pouco sobre em que São Paulo e em qual Brasil – país hoje tão rico em acontecimentos políticos e sociais, que pouco a pouco vão virando história – esses personagens vivem e sofrem desilusões amorosas. A narrativa ficou meio atemporal, embora tenha traços de modernidade (condomínio horizontal e carros possantes são alguns sinais).

É elogiável a escritora ter cumprido tão bem a empreitada de construir um romance (embora seja uma leitora contumaz, ainda não tive coragem de me aventurar na literatura e admiro quem a tem). Ela relata uma boa história. Com começo, meio e fim. Transmite uma mensagem positiva: quem não tem amor no coração é semelhante a uma casa de vidro – bela, mas vulnerável e dispensável, capaz de estilhaçar a qualquer momento. Além de deixar seus moradores vulneráveis a olhares alheios e não inspirar aconchego.

Sugiro à escritora que pesquise fatos interessantes que aconteceram em Cruzeiro, sua terra natal, ou em Sampa, e busque elaborar o próximo romance por meio da construção de personagens mais multifacetados, mais complexos, que não sejam somente totalmente bons ou totalmente ruins. Que ela procure no baú das recordações familiares, histórias que nos inspirem e nos ajudem a viver com mais tranquilidade esse momento turbulento e desanimador pelo qual passa o Brasil.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.