Romance de Lima Trindade revela a terceira margem de Brasília

Escritor traça perfil da cidade que se erguia no meio da poeira do cerrado e um roteiro psicológico e profundamente humano da heterogênea população

Ronaldo Cagiano

Especial para o Jornal Opção

Em seu mais recente livro, “As Margens do Paraíso” (Cepe, 269 páginas), o escritor brasiliense Lima Trindade, radicado em Salvador, mapeia o imaginário da construção de Brasília, a partir de uma visão crítica e não idealizada da utopia que se insinuava com a mudança da Capital.

Trata-se de uma obra indispensável para se perceber as nuances e mazelas que delimitam os mil dias da construção de Brasília na ótica de um autor que faz parte da geração da cidade. Uma visão não edulcorada, porém realista do projeto de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, sobretudo nesse momento distópico, de perda das ilusões e revogação de conquistas e avanços, quando é urgente repensar o passado e o presente, para não deslocarmos o futuro para a marginalização da História.

O romance de Lima Trindade estrutura-se numa delicada concepção narrativa que alterna vozes, cujos protagonistas viveram intensamente o processo de construção da cidade, seja como integrantes das cúpulas político-administrativas, seja literalmente colocando a mão na massa e vivenciando as experiências dramáticas de seu contexto. Essa imensa legião de trabalhadores, os candangos, gente anônima e sem voz, convocados para levar, a toque de caixa, o empreendimento, que precisava ser concluído antes do término do mandato presidencial, é visitada nesse livro que rastreia um ambiente recente da nossa história, aqui enfrentado com honestidade pelo autor.

O relato desdobra-se em inúmeras camadas, como se cada personagem desvelasse palimpsestos, percebendo-se as peculiaridades, diatribes e condicionamentos que integravam um sonho que se tornou coletivo a partir de um sentimento nacional que grassava na efervescência dos anos sessenta. Era o apogeu de uma consciência renovadora, pois o país despertava de sua letargia por um presidente bossa nova que arregimentava todas as forças para a concretização da chamada “Marcha para o Oeste” e no bojo do slogan “50 anos em 5”, que pretendia interiorizar verdadeiramente o progresso e a civilização num país até então confinado ao litoral, anacrônico e sem perspectivas.

O autor constrói um verdadeiro caleidoscópio ao panoramizar os diversos aspectos da construção de uma cidade — desde as motivações políticas e as crises geradas no seio de um plano de metas que, para a oposição era megalomaníaco e motivo de constante bombardeio por parlamentares (por exemplo Carlos Lacerda) contrários à transferência da Capital para o centro oeste — até os arranjos dos responsáveis diretos pela construção. A história viaja até o comum do dia-a-dia na vida dos trabalhadores das obras em curso, onde a condição humana é exercida em toda sua plenitude, para o bem e para o mal, esboçando-se os escaninhos das relações que proliferavam nos espaços público e privado, com as pressões que surgiam e alimentavam tanto as hostes do executivo,  como a ganância dos empreiteiros, em meio às demandas, dilemas e conflitos peculiares daquele período.

Lima Trindade, escritor: pesquisa e imaginação poderosa | Foto: Divulgação

Se o leitmotiv da obra é a construção de Brasília, Lima soube com destreza e habilidade, e  também por conta de um mergulho nos documentos históricos e em pesquisas sobre a época, traçar um perfil não apenas da cidade que se erguia no meio da poeira do cerrado, mas um roteiro psicológico e profundamente humano da heterogênea população. Naquela terra de promessas, migrantes aportaram no seio do planalto central, com suas esperanças, desejos e frustrações, motivados pela onda otimista que varria o país e parecia representar um divisor de águas em nossa História, num cenário onde digladiavam-se interesses e forças, muitas vezes antagônicas, mas que naquele momento ousava-se superar.

Leda, Zaqueu, Rubem, Mauro, Sílvio são personagens arquetípicos que simbolizam a diversidade das vidas que habitavam os canteiros de obras e acampamentos e fazem parte de um  certo inconsciente coletivo que ainda frequenta a memória dos que participaram daquela cruzada, verdadeiros quixotes no coração agreste do cerrado, testemunhas dos acontecimentos e outras metamorfoses nessas quase seis décadas da Capital da República. Ainda que sob o pálio da ficção, em que invenção e memória se alternam, fatos e personagens convivem numa simbiótica relação, representados com veracidade nesse relato que reverbera com sua força semântica todas as suas faces e facetas. Como por exemplo a revolta dos peões com a precariedade das condições de trabalho e a má qualidade da comida servida aos operários, que desaguaria num conflito com a GEB-Guarda Especial de Brasília (episódio conhecido como o massacre da Pacheco Fernandes Dantas, imortalizado na película “Conterrâneos velhos de guerra”, de Vladimir Carvalho); a presença de Israel Pinheiro, como o tocador de obras da Novacap; os míticos escritores Samuel Rawet e Joaquim Cardozo (engenheiros que integraram a equipe de calculistas de Niemeyer); a falta de segurança que levava a vítimas fatais, cujos corpos precisavam ser evacuados, para não gerar pânico e “atrapalhar” o fluxo dos empreendimentos ou atrasar a inauguração;  os acólitos e subservientes das empreiteiras, que propunham arranjos e negociatas a seus subordinados e enriqueceram com a manipulação no fornecimento de matéria prima nas respectivas obras; a mitologia da cidade de tábuas, o Núcleo Bandeirante, conhecida como Cidade Livre, em cujas biroscas ou bordeis os trabalhadores cansados da rotina extenuante, iam desfrutar os fins de semana e traçar novos rumos em meio àquela solidão, distante de suas famílias.

Os personagens deambulam por seus territórios geográficos e íntimos, cada qual com suas singularidades, linguagens, atmosferas, motivações e idiossincrasias, na linha de um périplo narrativo de profunda densidade, tensão e verossimilhança, características exploradas com sensibilidade,  riqueza metafórica e preciosidade estilística por um observador atento, que soube capturar os detalhes, os bastidores e a alma de um Brasília que nascia da prancheta. Nesse sentido esse livro também pode ser lido simbolicamente como um romance de formação, tanto da nova capital, em sua gênese até os dias que correm, quanto dos homens e mulheres envolvidos na epopeia que transformou definitivamente a cara do País. E também é um encontro de contas do autor com sua identidade e com suas lembranças, marcas que introjetou a partir do próprio meio em que viveu e onde ainda se percebe e sofre.

O livro “As Margens do Paraíso” traduz-se numa prosa sofisticada, cuja tessitura poética realiza uma apreensão fotogênica, sincera e não caricatural ou estereotipada, pois penetra a poeira e o cipoal da grande maratona de gente, máquinas e ideias que forjou um grande surto desenvolvimentista nacional. Expõe as dores e delícias desse período recente, mas crucial, da vida brasileira, que tem na construção de Brasília um divisor de águas. Um livro-cinema, uma obra-documento sobre uma utopia que, apesar de seus desvios, ainda está por se realizar, pois o sentido de sua construção, entre outros, de tornar o Brasil menos desigual e mais integrado, mais inclusivo e humano, reclama por completar-se.

Lima Trindade conta e decanta essa Brasília que André Malraux epitetou de “A capital da esperança”, porém, ela aguarda a plena concretização desse desiderato, o mesmo que estimulou gerações a largar seus estados e adentrar na grande viagem rumo ao futuro, como cantou Cassiano Ricardo: “Vou-me embora pra Brasília,/ sol nascido em solo agreste./ Como quem vai para um ilha,/ a esperança mora a Oeste.”

Ainda que, entre a promessa do paraíso e a sua real concretização, continuamos a patinar, insularizados na periferia de qualquer paraíso, seja como Estado ou como Nação, persistimos em nosso inabalável esforço de Sísifo, a terceira margem, que tanto ansiamos e que permanece a nos desafiar como uma esfinge.

Ronaldo Cagiano é escritor, brasileiro radicado em Portugal, e colaborador do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.