Romance de Fernando Aramburu relata como o terrorismo basco devastou a vida dos indivíduos

“Pátria” mostra que, para além do separatismo da Espanha, o ETA criou uma espécie de separatismo entre pessoas dentro do país basco

Celeste Gomes del Salto
De Madri, especial para o Jornal Opção

“Pátria” é um romance escrito com lucidez. É um desses livros que, ao fechá-lo, o leitor pensa: tal história deveria ter sido escrita antes — e por um basco. Somente quem ama muito essa região da Espanha consegue transpassar em cada página os diferentes ambientes vividos, como a constante chuva que cai na região e que o autor descreve como se desejasse sentir o cheiro da terra molhada desse Estado verde e montanhoso.

A obra foi publicada em 2016 pelo poeta, prosador e ensaísta Fernando Aramburu, nascido em San Sebastián em 1959, formado em Filologia Hispânica pela Universidade de Zaragoza, e com vários livros traduzidos em mais de trinta idiomas.

No livro “Pátria”, o autor conta uma comovedora história sobre os últimos trinta anos vividos na região de Euskadi e revela, de forma magnífica, a realidade de uma época. O centro da história se desenvolve num vilarejo guipuzcoano, sem nome, construído em torno de uma paróquia — com um campanário que repica as horas como ambientação de fundo.

Em 125 capítulos curtos, o autor relata a vida de duas famílias, alternando-se com saltos entre o passado e presente. Fernando Aramburu reflete magnificamente a realidade da época por intermédio de uma história com nove protagonistas, quatro membros da família de Bittori e Txato e cinco de Miren e Joxian.

As duas famílias eram unidas por uma grande amizade, mas, por razões políticas, se tornaram inimigas. Apesar dessa inimizade, alguns dos filhos de ambas famílias continuam se encontrando em segredo. A primeira família prospera economicamente graças à capacidade empreendedora de um dos seus membros, que dirige uma empresa de transporte nos arredores do vilarejo. Sua vida e a de sua família mudam bruscamente ao ser vítima da extorsão do ETA. Mais tarde, ele será assassinado, e isso afetará de maneira diferente cada um dos membros de ambas as famílias.

A história se centra mais em Bitorri e Miren, duas amigas de toda a vida, separadas de forma contundente a partir do momento em que o ETA e os seus cúmplices da paróquia começam a difamar a futura vítima, extorquindo-a e desfigurando-a antes de a matar com um tiro. A vítima é o marido de uma delas. Os moradores desse pequeno vilarejo tradicional e familiar confundem a barreira entre os espaços públicos e privados, por exemplo a igreja, a taberna, o clube de ciclismo, a cozinha, a sala, ou o quarto. O clima do romance é eminentemente doméstico, fechado e opressor. Vivem como um clã implacável contra aqueles que já não se reconhecem.

Um dos filhos de uma dessas duas mulheres começa a fazer parte do grupo terrorista ETA, e participa de uma série de ataques. Por um destino trágico, ele acabará no comando que pretende assassinar aquele que foi seu vizinho, e pai dos seus amigos. Essas duas famílias com fortes laços de amizade, se distanciarão por causa do terrorismo, uma delas vítima do ETA, e a outra com um membro na organização.

Depois da tragédia do assassinato de Txato, os filhos da viúva Bitorri a levam para San Sebastián, mas ela sempre deseja voltar para a sua casa no vilarejo, embora ali continuem morando as pessoas que, de uma forma ou outra, participaram do crime contra seu marido.

Fernando Aramburu, escritor espanhol | Foto: Danny Caminal

No dia em que o ETA anuncia o abandono das armas, a viúva decide ir ao cemitério visitar o túmulo do seu marido e ali, em voz alta, diz que voltará para a casa onde moravam. Será que ela poderá conviver com aqueles que a assediaram antes e depois do ataque que sacudiu sua vida e a de sua família? Também descobrirá quem era o homem encapuzado que, num dia chuvoso, matou o seu marido, quando ele estava voltando da sua empresa de transporte?

O seu retorno alterará a falsa tranquilidade do vilarejo, especialmente da sua vizinha Miren, a mãe de Joxe Mari, o terrorista preso suspeito dos piores medos de Bittori.

O que aconteceu entre aquelas duas mulheres? O que envenenou a vida de seus filhos e seus maridos tão unidos no passado? Com suas lágrimas disfarçadas e convicções inabaláveis, com suas feridas e bravura, a história incandescente de suas vidas antes e depois da cratera que foi a morte de Txato, o romance toca os sentimentos profundo dos protagonistas, como a impossibilidade de esquecer e a necessidade de perdão em uma comunidade quebrada pelo fanatismo político.

“Pátria” também mergulha na vida dos personagens, por isso consegue captar as duas visões do conflito e seus diferentes aspectos, diferenças ideológicas, a “manipulação” dos jovens, a marginalização e o sofrimento das famílias das vítimas, a tortura da polícia, a pressão social e muito mais. Os personagens são muito bem perfilados, o romance foca principalmente nas duas mulheres, Miren e Bittori, cuja profunda amizade foi radicalmente transformada. No final mostra uma imagem muito real da sociedade basca. Também destaco a atmosfera, muito realista em suas descrições ao falar de lugares com seu próprio nome, como San Sebastian. Suponho que tem muito a ver com o fato de que é a cidade natal de Aramburu.

A história é baseada na convivência do povo basco com o terrorismo. Onde foi criado o comando ETA, uma organização terrorista nacionalista, com um ideal inicial de independência dessa região e que impunha o regime totalitário de repressão. Narra os anos de chumbo do pós-franquismo desde 1980 até 2011, quando o ETA anunciou a cessação definitiva da sua atividade armada e terrorista. A ação abrange quase três décadas.

O glossário é interessante, contém a tradução de muitas palavras no idioma basco que aparece no livro.

Apesar da sua extensão, 638 páginas, é uma leitura ágil, divertida e fácil. A maneira como descreve alguns detalhes curiosos, o autor narra frequentemente em terceira pessoa e de repente intercala uma frase ou pensamento de quem quer que esteja falando em primeira pessoa, isso também me agradou.

Na minha opinião, é um excelente romance em todos os seus aspectos e que recomendo sem hesitação.

Celeste Gomes del Salto, jornalista, é colaboradora do Jornal Opção.

Nota

O romance “Pátria” (512 páginas) saiu no Brasil pela Editora Intrínseca, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. A resenhista comenta a edição espanhola.

Trecho inicial do livro, na tradução da Editora Intrínseca

Salto alto no assoalho

“Lá vai a coitada se arrebentar nele. Como uma onda se arrebenta nas pedras. Um pouco de espuma, e já era. Será que não percebe que ele nem se dá ao trabalho de lhe abrir a porta? Submissa, mais do que submissa.

E para que esse salto alto e esses lábios vermelhos aos 45 anos? Com a sua categoria, filha, com a sua posição e os seus estudos, por que se comporta como uma adolescente? Se o pai estivesse aqui…

Ao entrar no carro, Nerea olhou para a cortina da janela detrás da qual, deduziu, sua mãe a estaria observando como de costume. E, sim, embora não pudesse ser vista da rua, Bittori a olhava com tristeza e o cenho franzido; falava sozinha, sussurrando lá vai a coitada, um brinquedo nas mãos desse esnobe que jamais cogitou em fazer alguém feliz. Ela não percebe que uma mulher tem que estar muito desesperada para tentar seduzir o próprio marido depois de doze anos de casamento? No fundo, é melhor mesmo que não tenham tido filhos.

Nerea agitou a mão brevemente em um aceno de despedida antes de entrar no táxi. Sua mãe, no terceiro andar, escondida atrás da cortina, desviou o olhar. Por cima dos telhados, avistava-se uma ampla faixa de mar, o farol da ilha de Santa Clara, nuvens tênues ao longe. A garota do tempo tinha anunciado que faria sol. E ela, ai, estou ficando velha, voltou a olhar para a rua, mas o táxi já havia desaparecido.

Então buscou, para além dos telhados, para além da ilha e da linha azul do horizonte, e para além das nuvens remotas, e ainda mais além, no passado perdido para sempre, cenas da festa de casamento da filha. E a viu de novo na catedral do Bom Pastor, vestida de branco, com seu buquê e sua felicidade excessiva, e assim, ao olhá-la na saída, tão esbelta, tão sorridente, tão bonita, teve um mau pressentimento. De noite, quando voltou sozinha para casa, por pouco não se sentou diante da foto de Txato e confessou seus temores. Mas estava com dor de cabeça e, além do mais, Txato ficava todo sentimental sobre questões de família, sobretudo quando se tratava da filha. Era muito chorão aquele homem, e sei muito bem que fotografia não chora, mas mesmo assim.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.