Qualidade de sua pintura criativa e variada pode garantir eternidade artística a Roos

Daqui a 100 anos, um século, dificilmente se saberá quem foi o prefeito de Goiânia em 2019. Mas é provável que o pintor Roos será uma referência de Goiás e do Brasil

Roos, cidadão do mundo nascido em Ipameri: faleceu, este mês, aos 71 anos

Todas as manhãs um aeroporto nos dá lições de partir. Temos de aprender com os aeroportos, insistiu o poeta Manuel Bandeira, a partir de uma vez, “sem medo, sem remorso, sem saudades”. Sair à francesa, sem burburinho ou alarde das manchetes dos jornais. Sem o último beijo, aquele que nos segurará covardemente pelo braço. Sem lenço, sem documento, sem carta de despedida. Recusar educadamente o “Último Tango em Paris”. Pular a “Última Ceia”. Abdicar da Extrema Unção. Talvez essa seja a fórmula adequada para se partir em paz. Aceitar que as partidas deveriam/devem ser tímidas e são sempre solitárias.

Wicca: quadro de Roos inspirado em a Dança, de Matisse: a influência que não é simulacro | Fotos: Reproduções

É provável que Roosevelt de Oliveira Lourenço, o pintor consagrado como Roos, tenha aprendido essa lição com os aeroportos da vida. Quem sabe, com o velho-remoçado Santa Genoveva, lançando seus pássaros de ferro de quando em quando sobre o antigo Bairro Popular, onde o artista viveu quando jovem, no hoje conhecido centro da cidade. Timidamente e sem alvoroço, foi como Roos partiu, no último dia 6 de junho deste 2019, avassalador. A surpresa dos que ficaram foi grande. Mas como? Assim, de repente? Um amigo tinha combinado um almoço com o desenhista semanas antes; não deu tempo. Roos não avisou ninguém. Partiu sem dizer adeus. Bem à moda de sua personalidade quieta e elegante mas incisiva. Algo do tipo: “Mas eis que chega a roda viva/ E carrega o destino pra lá”.

São Francisco, de Roos: homenagem não apenas a um símbolo da Igreja Católica, mas a um homem que pregava a paz e a defesa da natureza| Foto: Reprodução

O pintor e pesquisador Amaury Menezes não consegue falar sobre o colega sem tremer a voz. Pura emoção. Uma amizade de mais de 50 anos — meio século. Quantas memórias e dramas e derrotas e vitórias compartilhadas? Amaury Menezes lembra do Roos que não media palavras, que fazia piada de tudo, principalmente de si mesmo (o que, segundo os gregos, é sinal de sanidade). O traço seguro e característico do artista parece ser sempre escrutinado pelo parceiro de criação artística.

Roos desenha Dom Quixote e Sancho Pança: o retrato de quem ousava o impossível | Foto: Reprodução

A opinião é unânime: um Roos é inconfundível, reconhece-se um Roos a quilômetros de distância. Independentemente das cores, da temática, da técnica, sobre tudo isso se elevam as linhas fortes, simples e decisivas de Roos. Numa folha qualquer, com cinco ou seis retas, o desenhista trazia vida a um castelo de qualidade e técnica. Um gênio dos quadros, da mistura das tintas-cores — a unanimidade inteligente das artes plásticas brasileiras.

“São Sebastião”: Roos reinventa um ícone dos pintores | Foto: Reprodução

Nas lembranças do ex-senador e escritor Iram Saraiva, o artista estava sempre sorrindo, atirando ironias sobre o colo dos amigos, enquanto gerava em guardanapos o próximo quadro melancólico. Quem conhece a obra de Roos irá apontar, com toda certeza, os palhaços tristes, os São Franciscos de Assis, os Dom Quixotes de La Mancha. Pois não importava a fase ou a técnica que Roos experimentava em cada circunstância, esses temas sempre voltavam às telas, como uma obsessão artística. Talvez uma característica de seu profundo e íntimo humanismo.

O autorretrato de Roos | Foto: Reprodução

Quando damos um trabalho por completo? Quando ficamos satisfeitos ante a nossa própria criação? A natureza evolui indefinidamente. Adapta-se, é aperfeiçoada, cria resistências. Assim também o artista retorna compulsivamente aos seus argumentos favoritos. O próximo palhaço dirá algo novo, algo melhor. O próximo palhaço revelará um segredo inédito, um olhar ainda mais profundo, uma emoção ainda mais completa.

Palhaço: uma das obsessões de Roos

Pintor com formação intelectual

O poeta, prosador e crítico Brasigóis Felício evoca a lembrança de quando perdeu um ônibus para Caldas Novas. Culpa da genialidade de Roos. Que pintou e repintou um mesmo quadro mais de 15 vezes num curto período de horas. O bardo recorda que uma “madame” da high society tinha encomendado uma pintura para ilustrar um catálogo de moda. Ross não se dava por satisfeito. Assim que terminava o desenho, passava uma demão de tinta branca e começava tudo do zero. Camada por camada. Brasigóis Felício saiu ofuscado. Tonto. Perdeu a hora da viagem. Estava assombrado diante de tanta arte sendo criada, destruída e refeita. A aflição do artista que se explora a exaustão. A dor da exigência, que sempre clama por mais um retoque.

Meia Rosa, de Roos | Foto: Reprodução

Todos os amigos exaltam a capacidade intelectual de Roos. Ele era um artista que lia. Literatura de peso. Que conseguia circular entre a erudição e a trivialidade cotidiana. Sem afetação. Saía de seu ateliê à caça da aventura noturna, encontrava inspirações e amores entre a boemia goiana. Como o pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), o artista também foi iluminado pelo cenário dos bares e becos da cidade. Deu lugar de destaque à figura dos garçons. Assim como os palhaços, eles também estavam ali atuando, devidamente uniformizados.

Santa Ceia: diálogo de Roos com a tradição clássica | Foto: Reprodução

Um notívago. O romancista, contista, poeta e crítico de arte Miguel Jorge observou, com fascínio, a impulsividade de Roos, que preferia o silêncio da noite para criar. Pelas vielas da capital, o artista atravessou a cidade para pintar a madrugada ao lado de Frei Confaloni (1917-1977) e Amaury Menezes. Extremamente crítico e ácido. Não aceitava nenhuma resposta pronta, nenhuma teoria sem contestação. Gostava de debater. E podia ser explosivo. Ah, sim. Por trás de sua timidez, havia verve e sangue quente latino-americano (Belchior explicitou: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ Sem dinheiro no banco sem parentes importantes/ E vindo do interior”).

Amaury Menezes: artista plástico

Amaury costumava aconselhar o amigo para mudar o comportamento. Se fosse homem, Roos agredia. Se fosse mulher, Roos cantava. Havia no homem-artista a criança que habita todo ser humano e que precisa experimentar a vida à flor da pele. O artista, que transforma a experiência em fantasia (quiçá um dom Quixote das tintas, da ambiguidade da vida). Manipula o meio para criar drama e emoção. Nada passa batido para os olhos do artista. Ross observava a cena, alterava objetos de lugar, conduzia os assuntos, remanejava as sensações e se afastava novamente, para contemplar, de longe, a cena de seu próximo quadro. A vida como arte e a arte como vida. Juntas e misturadas.

Siron Franco: companheiro de jornada de Roos | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Roos era essa contradição, um personagem de Henry James que corria ambivalente por ruas reais, as de Cervantes, quem sabe. É descrito pelos amigos como uma figura introvertida e extremamente observadora (por sinal, os íntimos falam de uma pessoa que está mais viva do que morta. E eles estão certos: a arte não permite que seja olvidado, e quem não é esquecido permanece — não “era”, e sim “é). Vivia sozinho em uma casa humilde (examinada pelos olhos do consumo, porque, como dizem os amigos, uma casa com Roos no interior é sempre sofisticada, um vulcão criativo). Quase não saía. Preferia ficar no seu canto, recluso, sempre pintando, expondo apenas o necessário. Ainda assim, há também todo esse outro lado do artista risonho e piadista, soltando um chiste por segundo, fazendo a plateia delirar de rir. Talvez aí possamos compreender o interesse inusitado do pintor pelos palhaços. A capacidade que só os comediantes têm de doar toda a alegria ao grande público. Ao ponto de esvaziarem-se por completo, restando apenas uma tristeza silente e dolorosa sobre a compreensão da vida.

Brasigóis Felício: impressionado como talento de Roos

A angústia do artista que muito viu, viveu e sentiu. A dor de saber demais e, sim, de querer saber mais. São as ferramentas necessárias para a criação. O artista contempla a fome, é capaz de fazer piada ante a miséria humana, vai pra casa de estômago vazio, transforma a tristeza em arte. O feio se torna belo. O belo é subjetivo e superlativo.

Na “Santa Ceia” de Roos, encontramos amigos e personagens da vida real do pintor. Qualquer um seria bem recebido no banquete do artista. Que não se esgotava. Sentia prazer em descobrir novas técnicas. Estudava arduamente. Mas sem se apegar a uma escola em particular. Gostava de misturar, de experimentar. Era livre. Isso sem deixar de ser fiel ao seu traçado. O escritor Guimarães Rosa anotou: “Não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia, ciência linguística, foram inventadas pelos inimigos da poesia”. Pois Roos conhecia as gramáticas dos pintores, suas linhagens e regras, mas, quando criava, livrava-se, talvez parcialmente, da angústia da influência e, em definitivo, prevalecia o artista plástico Roos.

D. J. Oliveira: mestre de Roos

Capaz de transitar entre os pintores franceses Paul Cézanne (1839-1906) e Henri Matisse (1869-1954), Roos trafegava do clássico ao moderno.

O artista plástico Alexandre Liah recorda do pintor apreciando a obra de Jean-Michel Basquiat (1960-1988): navegando por muitos horizontes e técnicas. Agregando, mesclando, fundindo. Sempre indo e vindo, em uma miscelânea de inspirações. Mas sempre original e nunca um simulacro. Aprendia para desaprender e criar um novo ciclo.

Iram Saraiva: Roos era um gênio da arte e da simplicidade | Foto: Jornal Opção

Fases criativas de um pintor

Na primeira fase, nos deparamos com seu lado figurativo, deslumbrado pelo contexto da mitologia. Em seguida, o artista encontra aquela que seria sua paixão mais constante — a iconografia, pintando santos, Dom Quixotes e palhaços. Ora mais expressionista, ora mais impressionista (ou, como diz um pintor, “roosnista”). O artista, então, retorna ao figurativo e o descontrói na terceira fase. Para, logo em seguida, se deparar com a potencialidade do abstracionismo. Tendo absorvido também dos fauvistas as cores fortes e alegres para seus personagens icônicos. Pincelando referências de outros pintores, com sua linguagem idiossincrática. Misturando influências e criando seu próprio sendeiro.

Não tinha paciência para esperar a tinta a óleo secar. Por isso preferia a acrílica. Sem se importar com a mensagem ou a função social. Roos não tinha intenções de protesto. Queria pintar o seu íntimo. Precisava do desenho para expressar a si mesmo. Sua luta era mais humana. Como Dom Quixote, digladiava consigo mesmo, na procura desenfreada de explicar o caos das emoções. Seu embate era a tela branca. O pincel sua lança. As tintas, o escudo. A técnica, uma verdadeira armadura. A obra acabada, o alívio no beijo de Dulcinéia.

PX Silveira: Roos era um mestre do desenho| Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O poeta, biógrafo, crítico de arte e marchand PX Silveira engrandece o maior dom de Roos: o desenho. O que é uma dificuldade para muitas artistas, Roos fazia como se estivesse brincando. Podia desenhar de olhos fechados. As mãos leves o guiavam em linhas simples, mas marcantes. Com poucos traços, o desenhista dava vida ao contorno sensual de uma mulher. Criava com rapidez e facilidade quase que mágica. Roos era mesmo o grande artista do traço. O talento era tão grande que, quando desenhava, não parecia se esforçar. Mas talvez se possa dizer que talento resulta, no mais das vezes, de anos de esforço concentrado, de observação atenta. O poeta João Cabral de Melo Neto diria que a inspiração precisa da transpiração para se firmar como arte.

Quando surge Roos, o gênio criativo? Tudo começou na década de 1960, pós-Bossa Nova. Siron Franco e Roosevelt tinham 13 anos e trocavam figurinhas na sala de aula. Estudaram juntos. Sonhavam lado a lado. Nas aulas de matemática, escapavam da lição e perdiam-se no universo mental dos desenhos. Voltam-se para dentro. Rabiscavam o livro inteiro. Precisavam criar. Gerar vidas aos múltiplos personagens que habitavam suas quimeras infantis. As mãos pareciam guiadas por um Picasso tropical.

Alexandre Liah: Roos apreciava Basquiat  | Foto: Jornal Opção

Os adolescentes, então, conhecem o mestre D. J. Oliveira. Dele, recebem as primeiras ferramentas técnicas e acadêmicas para aprimorar seus estilos individuais. A faculdade de Roos foi o ateliê de D. J. Lá, o artista autodidata aprendeu a produzir e a tratar arte como trabalho. No entanto, a ambição, tão característica de vários artistas, não encontrou morada no coração simples e tímido de Roos. Fiel a sua introspecção, o pintor não cedeu ao mercado. Educadamente recusava exposições. Nunca procurou pelos holofotes. Sentia-se bem em seu canto. Onde podia encontrar paz para pintar o que bem desejasse, da maneira como bem queria.

Em sua última fase, Roos escolheu a natureza abstrata. Pintou enquanto pode. O último quadro evidencia sua simplicidade graciosa: um vaso de flores sobre uma mesa branca. O nome Roosevelt, além da referência ao 32º presidente americano (Franklin Delano Roosevelt), tem origem holandesa. Significa “campo de rosas”. Assim, oferecendo flores, Roos partiu. Timidamente. De Ipameri para Goiânia. Da capital goiana para o Brasil. Com uma qualidade internacional, Roos poderia, sim, ter sido mais reconhecido em vida. Ainda pode. Sempre há tempo e as obras de arte duram mais que a vida dos homens. Como se disse acima, a arte deixa Roos vivo. Você sabe quem era o prefeito de Paris quando Flaubert escreveu “Madame Bovary”? Não? Nem nós sabemos. Pois, daqui a 50 ou 100 anos, quando perguntarem o nome do prefeito de Goiânia em 2019, é provável que ninguém saiba responder. Mas Roos, com sua arte única e reverberante, certamente estará mais vivo do que nunca — como Cervantes e Flaubert. Daqui pra frente, a pintura de Roos será mais bem estudada e, assim, será mais conhecida, assimilada e, por certo, admirada. O futuro de um artista depende, em larga medida, tanto de sua própria arte, de sua qualidade intrínseca, quanto da densidade e amplitude da crítica que a examina. O tempo elevará a estatura de Roos como artista plástico, ou, como dizia, “pintor”.

Mesa: último quadro de Roos | Foto: Reprodução

Partir dói. Abre chagas de saudade. Nelson Cavaquinho sabia o quanto era doloroso ver um palhaço se afastar do palco (“Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor”). A plateia reclama a volta de Roos. Mas devemos aprender a partir. No caso, sabendo que a arte, ficando, Roos também, de algum modo, fica — para sempre.

Todos os dias algum aeroporto, em alguma parte do mundo, nos ensina a ir embora. “Sem medo, sem remorso”. O que fica além de suas obras — o cerne da criação de um artista? A gargalhada da plateia. Que teve a honra de apreciar o bom humor, a simplicidade e o talento inigualável de Roos.

O quadro pintado em seu instante final, no entanto, ninguém nunca saberá. Não será exposto, não poderá ser colocado à venda. Não tem preço. É valioso demais para ser colocado na sala de estar. Apenas os olhos pintam as cores e as emoções de uma partida como esta. A imagem dura segundos e provavelmente será o quadro mais impressionante do artista.

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Nonatto Coelho

Uma síntese oportuna de um artista singular na nossa historia! Parabéns Ana Luiza Andrade.