Quadros Provincianos – Poemas urbanos de Wagner Schadeck

Inspirado nos “Quadros Parisienses”, de Charles Baudelaire, poeta curitibano traz à tona a experiência íntima do indivíduo marcado pela transitoriedade temporal e outros temas associados

“O pensa fazer, tão intrépido e indômito,/contra essa imensa grei? À turba, sem embargo,/ avança resoluto, estufa o ventre largo,/ lançando a todo mundo o nojo de seu vômito”, versos do poema “Vingança”, de Wagner Schadeck

Wagner Schadeck
Especial para o Jornal Opção

As ruínas de Roma foram obsessão poética. Poetas como Janus Vitalis, Du Bellay, Spencer, Quevedo, entre outros (Cf. RAMALHO, Américo da Costa. Um epigrama em Latim imitado por vários. Revista Humanitas, nº 4, 1952.), dedicaram versos para revelar uma Roma imortal soterrada pelas ruínas de outra, desbarata pelo Tempo, como diria Camões. Mas é com o “Ao contemplar o crânio de Schiller” (“Bei Betrachtung von Schillers Schädel”) que o motivo do transitório e da revelação do eterno consolida-se. Como na famosa cena de Hamlet, neste poema, Goethe eleva esse motivo ao universal, tendo como alegoria, não mais Roma, mas as ruínas da matéria morta.

O seguinte ciclo Quadros provincianos (título inspirado no extraordinário “Quadros parisienses”, de Baudelaire) retoma essa tradição. Nele o leitor encontrará a experiência íntima do indivíduo marcado pela transitoriedade temporal, pela decrepitude de ideais de progresso e igualdade e por um país assolado.

 

O POMBO

No recreio escolar, a malandragem
Pega um pombo, esse pássaro boboca,
Parceiro de trapaça e vadiagem,
Que circunda os carrinhos de pipoca.

Jogado ao tabuleiro de xadrez,
É o príncipe de jogo, obeso e arisco.
Bispos, peões, rainhas, torres, reis…
Ele os derruba ao vasculhar um cisco.

As suas fezes são causa de engulhos!
Do bico às asas é peste e piolhos!
Alguém quer seduzi-lo com arrulhos.
Outro com um prego quer furar seus olhos.

O poeta é semelhante a um gordo pombo:
Fugindo aos pés, esquiva-se do azar;
Ciscando na calçada, sofre um tombo:
Os miolos impedem-no de voar.

NUMA PRAÇA

Nestas ruas há pedintes,
pernetas, putas, velhacos
vendendo alheios barracos,
logrando os contribuintes.

Nas esquinas, os seguintes
são catadores de cacos,
donas desfilam casacos,
pastores com seus ouvintes.

Aonde irá toda essa grei?
Que sigam. Eu ficarei
num busto brônzeo da História.

E assim, no futuro, às vezes,
pombas na festa das fezes
irão batizar-me à glória.

VINGANÇA

Vai ébrio de ódio. Mas equilibra-se. Em ambas
as mãos há um garrafão. No meio-fio tropeça
e em trôpego bailado bate com a cabeça
numa placa de trânsito. Ao pisar muambas

espalhadas no chão, parece gingar sambas.
Não há ninguém que o avise, ninguém que o impeça
do próprio pé molhar, mijando-se sem pressa.
Prossegue. O passo é duro, embora as pernas bambas.

Opera uma manobra, oculto atrás dos postes.
Marchando em plena rua, investe contra as hostes.
O pensa fazer, tão intrépido e indômito,

contra essa imensa grei? À turba, sem embargo,
avança resoluto, estufa o ventre largo,
lançando a todo mundo o nojo de seu vômito.

CINDERELA

Nas pálpebras pinta
A noite. E se espelha
A espetar na orelha
A estrela distinta.

Perucas, piolhos,
Máscara de giz,
Lábios de verniz,
Lentes para os olhos.

Enquanto recorta
Pestanas compactas,
Seus cílios são patas
De uma aranha morta.

Em peles de esquilos
E asas de morcegos,
Na fisga de pregos,
Isca os dois mamilos.

Flashes instantâneos
Em poses de Kali,
Em sua nuca vale
um colar de crânios.

Perfume de flores
E frutos mortiços,
Devem ser postiços
Até seus rubores.

Tendo faces glabras,
Sem buço, no entanto,
Traz na bolsa o encanto
Dos abracadabras.

Caixa de Pandora
Guarda. Mas espera
Por flerte e paquera
Enquanto namora…

Logra uma trapaça?
Abre a caixa. E alcança
Poeiras de esperança.
Eis feita a desgraça!

E a sorver sem água
A hilariante droga,
Com a qual se afoga,
Ela olvida a mágoa?

Tomando a cosmética
Por cosmologia,
Dietas de anemia
Tornam-na esquelética

Na língua a destreza:
“Beldade balofa”.
Cospe a unha e mofa
Da madrasta obesa.

E aguardando o ensejo
Das damas de fama
(não de honra), reclama
De esperar cortejo.

A trupe se apura.
Eis Josefa em cuja
Boca de coruja
Dança a dentadura.

A seguinte chega
como salamandra,
Chama-se Leandra,
E é de um olho cega.

A última consterna!
Como rã, Gertrude
A mancar amiúde
Arrasta uma perna.

Tricotam fofocas
E poções malignas
Nas caldeiras ígneas
De suas torpes bocas.

E o que o horror incita!
É assim que essas Greias,
Por serem tão feias,
Tornam-na bonita.

No festivo início,
Ela entre os lacaios
Simula desmaios
A nutrir seu vício.

De prantos fingidos
Ao lamber os dentes,
Pisca aos pretendentes
Tramando tecidos.

Nas pernas de garça,
Quando alguém a encontra,
Sorri como lontra,
Enquanto disfarça

Qualquer estultícia.
À mostra, despacha
Seios de borracha,
Vendendo malícia.

Acre e melancólica,
De alta gradação,
A quem dá a poção
Passional e alcoólica?

À meia noite, é hora
De partir. Ao menos
Entre outros venenos
A vida evapora.

A carruagem volta
À abóbora. À estrada
Foge desgrenhada.
A bruxa está solta!

O homem que por ela
Procurar, mesquinho,
Traz só um sapatinho
À coleção dela.

ÉDIPO

Nesta cidade de almas enlameadas,
Como dentes que saltam dos cavoucos,
Os paralelepípedos aos poucos
Podres deixam banguelas as estradas.

Os seus sonhos são lâmpadas queimadas
Num corredor de hospício cujos loucos,
Com colchas no pescoço e gritos roucos,
Em fuga se enforcaram nas sacadas.

Em sua entrada, à luz de olhos alertas,
Que piscam pela madrugada adentro,
Por praças e avenidas mais desertas,

Nos muros e edificações do Centro,
Meu olhar nos hieróglifos constringe:
Como decifro esta voraz esfinge?


Wagner Schadeck nasceu em 1983, em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN), entre outros. Em 2015, organizou a reedição de “A peregrinação de Childe Harold”, de Lord Byron, pela Editora Anticítera. Pela mesma editora, em 2017, publicou a tradução de “Odes”, de John Keats.

Uma resposta para “Quadros Provincianos – Poemas urbanos de Wagner Schadeck”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.