Protagonistas negros nos contos de Cuti

Em “Contos Escolhidos”, autor se revela um prosador hábil e conhecedor da alma humana, abordando questões como violência urbana, inveja, desejo de vingança, marginalidade juvenil, ciúme, racismo e questões de identidade racial

Cuti (1951): um dos expoentes da geração de autores negros; no final dos anos 70, começou a publicar poemas marcados por uma voz descontente com a situação do povo negro no Brasil | Foto: Divulgação

Geraldo Lima
Especial para o Jornal Opção

Meu primeiro contato com a obra literária de Cuti deu-se através da poesia, mais pre­cisamente com seus poemas pu­blicados nos “Cadernos Ne­gros”, do coletivo Quilombhoje-Li­teratura – do qual ele foi um dos fundadores –, e no livro “Introdu­ção à Literatura Negra”, de Zilá Bernd.

No livro de Zilá, no capítulo intitulado “A literatura negra brasileira: suas leis fundamentais”, a au­to­ra cita a poesia de Cuti, assim co­mo a de Oliveira Silveira, Ele Se­mog, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, entre outros, como exemplo de poesia negra, ou seja, a produção poética em que o negro bus­ca assumir-se criticamente co­mo sujeito da enunciação.

Não mais a poesia falando so­bre o negro, ao modo de Castro Al­­ves e Jorge de Lima, mas, sim, “um-eu-que-se-quer-negro, evidenciando uma ruptura com uma or­de­nação anterior que condenava o ne­gro a ocupar a posição de objeto ou, melhor, daquele de quem se fa­la”, nas palavras de Zilá.

Atendo-se à realidade brasileira e à produção literária de autoria ne­gra, Zilá aponta a predominância da poesia sobre o conto e o ro­man­ce até então. Há um discurso poético dando conta do “processo de transformação da consciência ne­gra”, mas não há, ainda, uma nar­rativa nesse mesmo padrão.

A causa disso é que “para a ma­tu­ração de um romance negro brasileiro, algumas etapas ainda precisam ser vencidas, como o resgate da sua participação na História do Bra­sil, sobre a qual tantas sombras se projetam, e a definição de sua pró­pria identidade. Para que exista um discurso ficcional do negro é pre­ciso que o negro defina a imagem que possui de si mesmo e que con­solide o processo já iniciado de cons­trução de uma consciência de ser negro na América”.

“Introdução à Literatura Negra” é de 1988. De lá para cá, muita coisa mudou em relação a isso, inclusive com o aumento no número de pessoas que, segundo as últimas pesquisas realizadas pelo IBGE, têm se reconhecido como negras.

Partindo então deste raciocínio, podemos entender o crescente número de escritores negros brasileiros que trazem a público narrativas em que homens negros e mulheres negras são protagonistas. É o caso, aqui, de Cuti, com seu livro “Contos Escolhidos” (Editora Malê, 2016).

Questão racial
Cuti (pseudônimo de Luiz Sil­va), doutor em Literatura Brasileira pe­la Universidade Estadual de Cam­pinas (Unicamp), é um dos ex­poentes da geração de autores negros que, no final dos anos 70, co­meçou a publicar, de forma in­de­pendente, poemas marcados por uma voz descontente com a situação do povo negro no Brasil. Em “Contos Escolhidos”, ele se revela um prosador hábil e conhecedor da alma humana.

Contos escolhidos
Autor: Cuti
Editora: Malê (2016)
Preço: R$ 25,50

Nos dezesseis contos do livro, o leitor vai se deparar com uma te­má­tica variada – violência urbana, in­veja, desejo de vingança, marginalidade juvenil, ciúme, racismo, questões de identidade racial, dificuldade financeira –, vivida por protagonistas negros.

Para se ter uma ideia de como o au­tor trata a questão da identidade ra­cial a partir da narrativa ficcional, va­mos tomar como exemplo o con­to “O Batizado”, que abre o vo­lume. Neste conto narrado em ter­ceira pessoa, mas com o fluxo de consciência apontando o desespero que vai tomando conta de al­guns personagens, o protagonista Paulino, jovem e militante da causa negra, critica duramente o fato de te­rem colocado no sobrinho um no­me que não tem ligação alguma com a cultura africana.

“Ouçam o nome do meu adorado sobrinho: Luizinho… Já não chega o sobrenome Oliveira? Luiz é nome de qual ancestral? Refere-se a qual matriz cultural? E, minha gente, o nome é de origem francesa. Significa defensor do povo… que não é nosso povo. O meu sobrinho é, pelo significado do nome, defensor do povo francês. E o seu povo?”

A atitude radical cria, como se po­de imaginar, um clima tenso e pe­rigoso durante a comemoração do batizado. Naquele momento de fes­ta e alienação, sua postura é a do chato, do estraga-prazer que vem anunciar uma verdade incômoda, a qual todos querem ignorar. É em meio a essa tensão familiar, de confronto entre visões de mun­do opostas, que a narrativa deixa claro a fratura presente na for­mação da nossa identidade ra­ci­al, que começa, obviamente, no instante em que os africanos são trazidos à força para o Brasil.

Como estratégia de dominação imposta pelos brancos escravagistas, são renomeados de acordo com a cultura dos seus senhores. Em­bora a atitude de Paulino possa pa­recer exagerada e sem propósito, rei­vindicando que os negros brasileiros passem a adotar nomes de origem africana, ela nos faz refletir sobre essa perda de identidade cultural que propicia a dominação de um povo por outro.

O tema do racismo está presente, de modo mais explícito, em dois contos: “Preto no Branco” e “Conluio das Perdas”, ambos narrados em primeira pessoa. No primeiro, temos aquela famosa situação do negro que começa a namorar uma mulher branca e tem de enfrentar a resistência da família de­la, neste caso, a resistência mai­or, com efeitos trágicos, vem do cunhado.

No segundo conto, a situação de racismo é bem corriqueira, aquela em que o indivíduo negro é sempre visto como bandido. Neste caso, ao ser confundido com um dos bandidos que assaltam um banco, o jovem Malcolm fica traumatizado e decide tomar outro rumo na vida quando já estava na iminência de prestar vestibular para Engenharia.

A decisão de Malcolm afeta so­bre­maneira a vida do seu pai, narrador dessa história e cuja existência é marcada pela perda e pela vivência também de situações de racismo.

Domínio da técnica
Alguns aspectos de carácter li­te­rário e estilístico devem ser destacados nos contos que formam es­se volume, pois são eles que re­ve­lam, aos nossos olhos de leitores, o escritor em pleno domínio da técnica narrativa. Em dois contos, “Dupla Culpa” e “Não Era uma Vez”, Cuti mostra-se um hábil criador de tensão psicológica, dessas em que o personagem, à deriva, vai nos arrastando junto para dentro do seu desespero e do seu torvelinho mental.

Com frases curtas, torna ainda mais acelerada e asfixiante a situação do protagonista. A tensão é sem­pre grande e a expectativa do que vai acontecer não nos deixa aban­donar a leitura. Nesse caso, Cuti pode ser colocado, sem receio algum, ao lado de Machado de As­sis, Dostoiévski, Graciliano Ramos e Dyonélio Machado.

“Contos Escolhidos” é sem dúvida alguma um convite para mergulharmos nas questões étnicas e nas contradições sociais que marcam a formação do nosso po­vo. Mas, acima de tudo, é um convite à leitura de textos ficcionais que nos remetem à reflexão e nos ar­rancam da cômoda posição de en­xergarmos a nossa realidade ape­nas de um ponto de vista, o dos prosadores brancos e, geralmente, de classe média. l

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista

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