Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

Siô Quincas e Siô Mundico eram compadres de muitos anos. Tinham crescido juntos, pescando no Rio Vermelho, apartando bezerros e correndo atrás de novilha alheia, sempre mais ligeira do que eles. Havia muito tempo que não se encontravam.

Foi na porta da venda.

— Ô Sinhô!… Mas não é o Mundico?

— E não é o Quincas! Homem, pensei que ocê já tivesse virado retrato pendurado na parede da sala de jantar!…

Abraçaram-se daquele jeito próprio dos velhos: mais cuidadoso do que carinhoso. Afinal, um aperto mais entusiasmado podia deslocar um ombro ou reclamar de alguma vértebra esquecida.

Sentaram-se à sombra de um pequizeiro, num banco de madeira em frente à venda. Ficaram um instante em silêncio, como fazem os amigos que não precisam ter pressa para conversar.

— E a saúde, compadre? Como é que vai? Quincas coçou a cabeça. — Uai… a saúde vai bem. Quem vai mal sou eu. Os dois caíram na risada

Foi Mundico quem quebrou o silêncio.

— E a saúde, compadre? Como é que vai?

Quincas coçou a cabeça.

— Uai… a saúde vai bem. Quem vai mal sou eu.

Os dois caíram na risada.

— Eu acordo cedo todo dia — continuou Quincas. — Não porque quero. Uma dor me chama de um lado, outra me empurra do outro, e a bexiga dá a ordem final. Se eu não me levantar, acabo mijando na cama. Tô achando que o melhor é comprar um penico.

Mundico concordou com um meneio de cabeça.

pintura sobre velhice por Graça Craidy 0k2
Pintura de Graça Craidy sobre velhice

— Aqui também tá desse jeito. Levanto tantas vezes de madrugada que, se continuar assim, vou acabar cobrando aluguel da cama.

Quincas animou-se.

— O pior é calçar a botina. Antigamente eu abaixava num pulo. Hoje, primeiro penso, depois faço um plano, rezo um Padre-Nosso e só então tento alcançar o pé.

— Eu resolvi o problema. Pus a botina em cima de um tamborete. Fica mais perto.

Riram outra vez.

Depois Mundico perguntou:

— E a memória? Como vai?

Quincas respondeu sem pensar:

— Tá boa demais…

Parou.

Franziu a testa.

Coçou a barba.

— …Só não me alembro do resto da resposta.

Mundico bateu no joelho de tanto rir.

— Minha muié vive dizendo que eu esqueço tudo.

— E ocê esquece?

— Num sei. Esqueci de perguntar pra ela.

Os dois quase escorregaram do banco de tanto rir.

— E ela ainda diz que eu tô surdo. Pior: diz que tenho surdez de conveniência. Só escuto o que me interessa.

Daí começou aquela disputa que só existe entre gente de idade.

— Fiz ressonância.

— Eu fiz duas.

— Tenho pressão alta.

— Eu tenho alta, baixa e, de vez em quando, nem ela sabe onde anda.

— Uso óculos.

— Eu também. Um pra ler, outro pra enxergar longe e outro pra procurar os dois.

— Pois é, compadre. Com a idade, não tem  monotonia. Todo dia aparece uma novidade.

Nesse momento passou um rapaz de motocicleta, acelerando como se estivesse fugindo do próprio juízo.

— A velhice é danada. Vai tirando a força das pernas, o cabelo da cabeça, os dentes da boca… e ainda deixa a gente feliz quando o exame vem dizendo que é “só umas coisinhas”

Quincas acompanhou o sujeito com os olhos.

— Nessa idade eu também fazia dessas valentias. Laçava, campeava, apostava corrida a cavalo… Ocê não se alembra?

Mundico sorriu.

— Alembro demais. E eu fazia até mais.

— E por que parou?

— Porque descobri que cair dói muito mais depois dos sessenta.

Os dois ficaram quietos por alguns instantes.

Então Quincas suspirou.

— Sabe duma coisa, compadre?

— O quê?

— A velhice é danada. Vai tirando a força das pernas, o cabelo da cabeça, os dentes da boca… e ainda deixa a gente feliz quando o exame vem dizendo que é “só umas coisinhas”.

Mundico levantou-se devagar, apoiando as duas mãos no banco.

— É… Mas ela também ensina uma vantagem.

— Qual é?

— Ensina que reclamar é de graça. E, pelo tanto que nós dois reclamamos hoje, já economizamos uma consulta.

Saíram caminhando rua afora, um esperando o passo do outro. Porque amizade de muitos anos tem dessas coisas: quando as pernas já não acompanham a vontade, quem passa a conduzir o caminho é a paciência.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.