Produção de longas ganha fôlego em Goiás e projeta o Estado como polo de produção

Estreia em circuito nacional de “Alaska”, do diretor Pedro Novaes, é um exemplo desta nova safra de títulos que exploram mais tempo de exibição e demandam produção mais elaborada. O que não ofusca o prestígio e espaço dos curtas

A produção audiovisual experimenta uma nova fase Goiás. Nela, a produção de longa vai ganhando fôlego e projeta o Estado como um polo relevante de produção cinematográfica. A cena, que até então era dominada pelos curtas, formato soberano na produção sem fins publicitários, passa a ser movimentada também por realizadores que chegam com títulos que exploram mais tempo de exibição e demandam produção técnica mais elaborada.  Um exemplo desta nova safra é o drama “Alaska”, dirigido por Pedro Novaes, que na próxima quinta-feira (21/3) estreia em 20 salas de cinema em 14 estados brasileiros, dentro da programação do “Projeta às 7”, iniciativa da rede Cinemark com a Elo Company.

A história gira em torno de Ana (Bella Carrijo) e Fernando (Rafael Sieg), com a deslumbrante Chapada dos Veadeiros como cenário. Anos após se separarem, Ana e Fernando decidem visitar mais uma vez a Chapada dos Veadeiros, que foi cenário de uma intensa história de amor entre os dois. A viagem é uma segunda chance para essa paixão. Mas o tempo passou e eles talvez não sejam mais os mesmos. A intenção foi incorporar a Chapada à narrativa não só nas paisagens, mas também por meio de personagens reais e não-atores da região.

Com produção da goiana Panaceia Filmes e co-produção da Sertão Filmes, Mandra Filmes e Tá na Lata Filmes, Alaska é, na avaliação do diretor, “uma ficção que flerta com o documental”. “Alaska é um filme sobre a relação entre amor e tempo, que fala da quase impossibilidade do amor diante do fato de que mudamos o tempo todo e muito rapidamente deixamos de ser as pessoas que se atraíram uma pela outra. Que o amor dure, nesse sentido, é um milagre”, comenta Pedro Novaes, que também foi produtor e roteirista, em parceria com Jarleo Barbosa. Sócio da Sertão Films, dirigiu e roteirizou o longa “Cartas do Kuluene” (2011) e é um dos roteiristas e produtores do longa “Hotel Mundial”, dirigido por Jarleo Barbosa.

O público goianiense teve, conquanto, uma prévia durante a mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”, que exibiu o longa no dia 22 de fevereiro, juntamente com outras cinco produções locais com o mesmo formato. “Tivemos na mostra deste ano sessões especiais de seis longas goianos. Todos produzidos por produtoras daqui, que já estão circulando pelo País ou começando a circular. Isso confirma que Goiás se tornou um polo de produção audiovisual bastante relevante. A produção de longas já é, há alguns anos, uma realidade. O desafio é que, assim como grande parte da produção nacional, a produção goiana tem dificuldades de circular nas salas de cinema, por causa do predomínio das grandes distribuidoras de Hollywood, que dominam o mercado”, avalia.

Pedro Novaes é presidente do Conselho Executivo da GoFilmes – Associação das Produtoras Independentes de Cinema e TV de Goiás, que em meados de 2017 publicou um catálogo da produção audiovisual recente no Estado. “À época, catalogamos 27 longas sendo produzidos e 26 séries para TV, em diferentes estágios de produção. A associação tem atuado em outras frentes também para fortalecer a produção”, comenta.

Pedro Novaes: há mais de 15 anos atua no audiovisual goiano

Pedro destaca que reflexo deste novo momento é o destaque que as produções goianas estão alcançando no circuito dos festivais. “Na mostra de cinema Tiradentes, que é um dos principais festivais brasileiros, os dois principais prêmios foram ganhos por produções goianas: o longa ‘Vermelha’, do Getúlio Ribeiro, e ‘Parque Oeste’, documentário de Fabiana Assis. Já faz quatro anos que Goiás marca presença com longas na mostra principal do festival de Tiradentes, além de outros festivais importantes no Brasil e exterior, como Berlim, no ano passado, Guadalajara. Teve o documentário da Marcela Borela que foi para o Cinema do Real, em Paris, entre outros”, enumera.

Pedro destaca que a produção audiovisual brasileira e de Goiás tem ganhado novas oportunidades proporcionadas pela internet e a diversificação das plataformas digitais, de streaming e on demand, juntamente com a democratização da tecnologia de produção, que hoje é muito mais barata. Por conseguinte, houve um aumento exponencial da produção, o que fez a concorrência crescer. “Tem muito mais filmes hoje do que era feito no passado, há 5, 10 anos atrás. Se, por um lado, se tem mais janelas de exibição, a quantidade de filmes é maior, então a peneira continua sendo estreita”, pondera.

Mas o realizador se considera bastante otimista. “Acho que temos muito mais oportunidades de produzir e colocar na tela nossos projetos e ideias. A questão das salas de cinema continua sendo um gargalo grande, porque são espaços ainda muito importantes. Nem tanto como o lugar onde os filmes se pagam, mas onde os filmes ganham visibilidade e se divulgam para ir para outras plataformas, como a televisão. Ainda é importante os filmes irem para as salas de cinema. Nisto, as estratégias têm se adaptado. Em se tratando de filmes independentes, não se almeja ter um grande público, mas usar as salas de cinema para ganhar visibilidade na mídia, para o filme ser falado e ficar conhecido.”

Premiado em Tiradentes

Das locações no Setor Sudoeste direto para a aclamação na 22ª Mostra de Tiradentes. Este é um resumo da trajetória de “Vermelha”, do diretor Getúlio Ribeiro. Este é o primeiro longa-metragem da carreira do goiano de 27 anos, que dirigiu também seis curta, vários deles premiados. E o ‘debut’ não poderia ser mais positivo: o filme foi eleito o melhor pelo júri da crítica na Mostra Aurora, faturando o principal prêmio do Festival. Essa é a primeira vez que uma produção de Goiás é contemplada em 22 anos de história do evento, um dos maiores do Brasil, considerado uma espécie de “vitrine”.

Longa “Vermelha” fascinou publico e crítica do Festival de Tiradentes. Fotos: Divulgação

Para contar sua história, Getúlio adotou uma solução caseira, com elenco basicamente formado por amigos e familiares. “Acho que Vermelha traz uma atmosfera do caseiro, de um amadorismo íntimo da casa mesclado com a vontade de propor cinemão. Naturalmente já tende a essa intimidade que de alguma maneira dialoga com uma beleza amadora”, explica Getúlio.

Em uma narrativa não-linear, com cobradores, fantasmas e brigas corporais, “Vermelha” (nome da cachorra da família) mostra um dia de trabalho e do cotidiano de diferentes personagens. O pai, Gaúcho, reforma o telhado da casa com o amigo Beto, o cobrador Jonas bate no portão para cobrar dívidas. Paralelamente, dois homens vão até uma fazenda para desenterrar uma raiz de uma árvore, que depois será enterrada novamente no quintal da família. O estilo de narrativa gerou confusão e divertimento entre os espectadores em Minas Gerais, que diversas vezes interpelaram a equipe, ao longo da Mostra, para parabenizar e buscar respostas.

Gaúcho e Beto têm diálogos que remetem ao Brasil central, com temas sobre fazendas, telhados e brigas que alternam entre a violência e o humor. “Não é uma espécie de interrogatório que tem que se implantar ali para transcender essa matéria. Não é pela investigação direta, fazendo interrogatório, tipo num documentário mais tradicional. É justamente pela superficialidade de parar e olhar alguns minutos, observar alguns gestos de malandragem”, explicou o diretor ao portal Cine Festivais, um dos mais especializados em entrevistas com cineastas brasileiros. As figuras femininas do filme são a mãe e a irmã de Getúlio: Diva e Débora.

Já foram mais de 30 críticas e matérias de veículos nacionais, e até mesmo internacionais, publicadas sobre o longa. O jornal Folha de S. Paulo afirmou que “é um dos produtos cinematográficos mais originais que o cinema brasileiro (mundial?) já viu em anos”. O crítico Francisco Carbone, do blog Cineplayers, escreveu que “Getúlio acaba por fim criando não apenas um conjunto de possibilidades inúmeras de reinvenção e subversão narrativa – e acaba por realizá-las, destroçando as certezas a cada nova passagem – mas também compondo planos dos mais inspirados para cenas que nascem inesquecíveis”. No site Papo de Cinema, Robledo Milani destaca que o humor de algumas cenas é inerente à sinergia do filme. E, ainda, que a identificação dos personagens como pessoas comuns é um dos maiores méritos de “Vermelha”.

Curtas a toda prova

Isabela Eva e a cientista social Maria Angélica Peixoto

Isabela Eva é uma realizadora multitalentosa: escreve, dirige, atua e produz os projetos que participa. Não obstante, faz parte da banda de rock pesado Bella Utopia. Com significativa contribuição para o audiovisual, a realizadora foi uma das convidadas da mostra paralela “Primeiro Olhar”, dentro da programação da 12ª “O Amor, A Morte e As Paixões”, ao lado dos diretores dos filmes A Viagem de Ícaro (Kako Olímpio e Larissa Fernandes), Alô Maman (Michely Ascari) e Mistério de Mim (Éder dos Santos). Com curadoria de Pedro Novaes, o objetivo foi garantir o espaço dos curtas, cuja produção segue firme e forte no Estado.

“É bem importante esse apoio do Lumiére e da mostra. Mais do que em relação aos longas, os curtas tem uma dificuldade maior de se divulgarem, circular e, de serem distribuídos e de serem vistos. Basicamente estão restritos ao circuito de festivais que, com raras exceções, funcionam muito em torno do próprio meio de produção. O público dos festivais acaba sendo ‘nós mesmos’; por isso, a dificuldade de circular para um o público mais amplo. Já é a terceira que fazemos essas sessões, e mais uma vez, com um bom público e o retorno dos realizadores foi bastante positivo”, comentou Novaes.

Baseado em fatos reais, “Tráfico de Ilusões” aborda o tráfico internacional de mulheres. Neste intenso suspense de ação, jovens garotas se aventuram em uma viagem para a Espanha, em busca de uma vida melhor, iludidas por um negócio de tráfico internacional de mulheres, liderado por Mônica. Uma das garotas, Graziela, vê a sua tão sonhada viagem para o exterior transformar-se numa série de reviravoltas. Após a exibição, houve uma conversa com a cientista social Maria Angélica Peixoto.

A paixão pela sétima arte começou ainda criança, já com aulas de teatro, e acompanhando a mãe nos eventos encabeçados pelos primos famosos, os diretores de cinema Bruno e Fábio Barreto. Morou em cidades como Rio de Janeiro e Brasília, onde dedicou-se a estudos de interpretação com importantes diretores e pode atuar em companhias de teatro e como atriz de cinema. Foi na capital federal que surgiu a primeira oportunidade de atuar em seu primeiro longa. “O Luís Carlos Barreto me apresentou ao Nelson Pereira dos Santos e tive a oportunidade de trabalhar com ele”, recorda-se.

De volta a Goiânia, Isabela participou de vários projetos de curtas-metragens como atriz, ocasião em que começou também escrever roteiros e atuar na direção. Em 2016, lançou o curta “Quarto 10”, sobre o caso Pedrinho. Trabalha também com workshops de intepretação para cinema e formação de atores. Os participantes depois são escalados para trabalhar nos projetos de Isabela. “Percebi que existe uma grande dificuldade na transição do teatro para o cinema. É uma”. Após “Trafico de Ilusões”, Isabela já tem outro projeto nos planos: dirigir um curta com texto de Miguel Jorge.

Como realizadora, Isabela percebe que Goiânia ainda não está completamente inserida no mercado, a exemplo de São Paulo, mas que a evolução foi muito rápida. Não só pelos festivais que temos por aqui, como a própria “O Amor, A Morte e as Paixões”, Goiânia Mostra Curtas, Fica e Mostra da ABD, que tem dado espaço para produções locais. “A história do cinema goiano mostra pessoas, cineclubes, associações, que há muito vislumbraram e atuaram em prol de um movimento maior do cinema por aqui. E temos caminhado bem. Os filmes têm se destacado e feito bonito em festivais do Brasil inteiro. Acho que é isso: é fazer e ocupar os espaços. Se a gente não fizer, nunca vai chegar onde a gente quer”, argumenta.

Serviço:
Estreia do filme “Alaska” (Brasil, 2019 | Ficção, 72 min)
Data: Quinta-feira (21/3)
Horário: 19h
Local: Cinemark Brasil
Ingressos: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia)
Classificação indicativa: 14 anos
Direção: Pedro Novaes
Produção: Panaceia Filmes
Coprodução: Sertão Filmes, Mandra Filmes e Tá na Lata Filmes

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