Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Por que o Ano Novo cochila dentro do leitor

Poeta Carlos Drummond de Andrade, em sua receita de ano novo, constata que há muitos que insistem em sonhar com o champanhe e a birita para desvelar o que só o interior pode revelar: a fórmula de um bom Ano Novo

Marco Lucchesi, escritor, presidente da ABL

A tendência do cronista é fazer o que todos fazem nesta quadra do ano – um balanço do ano que nos anime a fazer promessas para o ano vindouro. Cheios de esperanças, nossa mirada dos campos parece de novo fresca e alvissareira, embora saibamos todos que o mutável é uma folha do calendário – como nos advertia Carlos em sua “Receita de ano novo[i]” –

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo
até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior),
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens […]

Drummond: “É dentro de você que o Ano Novo / cochila e espera desde sempre.

Sabe o cronista – e o repete com versos do poeta inglês Alfred Lord Tennyson, que o ano que ora se extingue não quer morrer – “Old year you must not die;/You came to us so readily,/You lived with us so steadily,/Old year you shall not die.
E afirmo que foi contigo, oh, ano 2017! onde, quando tanto plantei – que tantas sementeiras grávidas se anunciaram prontas para a colheita; aqui, amigo leitor, onde criamos um espaço de convivência, por obra do ano que finda, hei de continuar vindo, pois somos resistentes, os que produzimos e os que amamos a literatura, aqueles “dois em mil” que nos diz a poetisa polonesa Vislawa Szymborska; esses a quem é dado o tudo em meio ao nada; são os que não se contentam com a pletora de intrigas ou de tiroteios verbais; os que não se contentam em apreciar mortes e orgasmos mal-contidos em coletivos brazucas.

A você que está no rol desses leitores que “queimam pestanas” – que se inscreve entre os leitores petulantes (da boa lista de Augusto Meyer!) – você que lê com atenção, mesmo que o texto seja maior do que 140 caracteres, que se enfurece com a horda raivosa alhures, só com você fiz o pacto que me manteve ativo em Destarte durante mais de 135 dias. Não, não hei de fazer um balanço, mas somente reavivar a brasa inicial deste nosso cantinho literário.

Comecei nesse espaço, sob a égide do emérito crítico Franklin de Oliveira (1916-2000) enfatizando que “a região na qual a atividade do espírito é a mais alta atividade franqueada ao próprio espírito, é a da linguagem. Aquelas ´inumeráveis realidades vivas que Rodin viu na pedra, também Cassirer as surpreendeu na linguagem. Como os mármores de Rodin, pedras onde, segundo Rilke, tudo é simultâneo e desperto…” Daí não podemos como leitores esquecermo-nos que: “a linguagem, a arte e a religião integram o universo simbólico no qual se move o homem”.

É nessa região em que navegamos, dileto leitor – este cronista e você que se dispões ao novo e acompanha com interesse essas crônicas. Pois, hoje, tenho sobre a mesa este livro que é uma das mais belas edições de livros brasileiros de 2017 – trata-se de “Moradas” (Angelus Silesius), na tradução de Marco Lucchesi; mas nesta crônica de final de ano, que fecha a série de quatro artigos sobre o Advento e a poesia, não me sinto disposto a elaborar um comentário mais consistente, mas deixo registrada a minha alegria em ter participado do lançamento desta obra em Goiânia. Prometo-lhe voltar com uma abordagem mais aprofundada no ano que vem.

Cabe, no entanto, constatar de pronto que, a par da beleza do livro, estamos diante de um fato relevante para nossa cidade, que sediou o lançamento (se posso dizer: nacional) de um livro daquele que dias depois seria alçado à presidência da Academia Brasileira de Letras (ABL), o Sr. Marco Lucchesi. Isso é bom para a nossa incipiente indústria editorial independente e para a vida da provinciana capital dos goianos. Não bastasse o tradutor de nomeada, estamos diante de quem talvez seja um dos melhores ilustradores do país (seguramente, o melhor de Goiás) – Lucas Mariano, a quem devemos esta joia que é a primeira edição brasileira de “Moradas”, de Angelus Silesius.

Ao passar por nossa cidade, Lucchesi mostrou-nos sua face de homem sábio, a todos atendendo não como um “literato da Metrópole”, mas sim como a lhaneza de trato que caracteriza aqueles que sabem e não precisam demonstrar o quanto e como; com uma humildade que nem mesmo a alguns escritores da província é dado tê-la. Lucchesi conhece quase tantos idiomas quanto “il miglior fabro” (Ezra Pound) e tem um curriculum que o dispensa mesmo de ser apresentado ao leitor mediano e, menos ainda, ao especialista. É tradutor, poeta, romancista. É escritor na mais profunda acepção do termo.

Um de seus romances (“O bibliotecário do imperador”) tem a província de Goyaz como referência histórica; em prosa de ficção, tem ainda o genial “O dom do crime”; e, contando os demais gêneros, supera a uma trintena de livros de poesia, ensaios, além das inúmeras traduções do italiano, alemão, do árabe etc. Seus poemas foram, por sua vez, vertidos ao italiano, ao alemão, o romeno, o espanhol e o persa.

Não devo aqui traçar o perfil do escritor e acadêmico Marco Lucchesi – tarefa que foi muito bem desempenhada pelo site web da ABL – só desejo ressaltar que o escritor Marco (Americo) Lucchesi nasceu no Rio de Janeiro em 1963. É poeta, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ensaísta e tradutor. Publicou, entre outros livros, “Sphera” (2003), “Poemas Reunidos” (finalista Prêmio Jabuti 2002), “A sombra do Amado: poemas de Rûmî” (Prêmio Jabuti 2001), e “Bizâncio” (finalista Jabuti 1999). Publicou livros, também premiados, em italiano. Suas traduções alcançam, entre outros, Umberto Eco, Rûmî, Hölderlin, Juan de la Cruz e Rilke, além deste Angelus Silesius.

Emblemático que Lucchesi, em sua posse como presidente da ABL, tenha dito:

Penso o Brasil como um livro em construção, e desde um ponto zero, talvez, em cujas páginas segue o desejo de inclusão de muitas vozes, num concerto polifônico, estridente, a princípio, e fora do compasso, fruto de uma espera infinita pelo fim da desigualdade. Continuemos juntos. A tolerância é um bem que se constrói em rede, em torno de estatutos de emancipação. Sonho um livro de muitas páginas, votado a uma vasta vocação republicana, pela qual lutaram tantos Acadêmicos. Não sei dizer onde começam e terminam os grafites urbanos, os poemas que redimem a crispação de nossas almas e de nossas casas, os desenhos rupestres da Serra da Capivara, a liberdade esboçada nas paredes dos presídios, a leitura do mundo das crianças do asfalto e da favela, das terras quilombolas e das nações indígenas, com suas quase 300 línguas praticadas ainda hoje.  Um livro sem escravos análogos e digitais”.

Dele disse o poeta-tradutor Ivo Barroso: “Marco linguista. A teologia, a astronomia, a física quântica. Haja territórios do saber que lá encontraremos Marco”.

Sobre o tradutor, disse Fernando Py que “a experiência de traduzir o poeta russo Khliébnikov (1851-1922) não consiste em tarefa tranquila. (…) em busca de mais expressividade, e não raro de musicalidade, Khliébnikov cria e distorce vocábulos, conseguindo assonâncias e ressonâncias de palavras e versos, num trabalho meticuloso e que exige a mesma minúcia criativa do tradutor. (…) podemos verificar o quanto Marco Lucchesi se sai bem da tarefa. […] Demonstra não apenas um bom conhecimento do idioma russo (…) como uma extraordinária capacidade de manter o alto nível da poesia de Khliébnikov ”.

Fica, pois, registrado a passagem desse anjo bom por nossa cidade – que, além de um agradável papo no evento de lançamento de “Moradas”, brindou-me com a notícia de um de seus amigos – Padre Paulo Dal´Oglio que, hoje desaparecido, tanto lhe deu, quando mais não fosse pela grande visão universalizante e, assim mesmo, brasileiríssima – de um poeta e homem de ação, o que escreve, traduz e lê-relê, mas que distribui aos presidiários uma centelha de seu (dele) talento.

E o poeta gaúcho Carlos Nejar arrematou, a respeito de Lucchesi: Poderoso é o silêncio da pedra” – diz [Georg] Trakl. E poderosa é a linguagem que sabe ser silêncio, pedra, mantendo o poder da soberana poesia”.
Findemos, pois, mais um ano deste século XXI de tanta vileza consumada e que deve envergonhar no túmulo o “tanguero” Carlos Gardel, autor da expressão “Siglo veinte, cambalache, problemático y febril” – pois, este já o supera sobejamente… deixo-lhe, dileto leitor, estes versos de Camões, esperando vê-lo aqui em 2018, com uma prece a emoldurar meu canto, que navegação maior não hei de empreender – pois que aqui ergo “minha torre solitária e calma” à maneira de Franklin de Oliveira, de saudosa memória, este espaço vai se construindo como o do Lusitano:

 “E faz, a quem o tem, amado e caro.
Destarte vai fazendo a gente, amiga,
Co rumor famosíssimo e perclaro.
Já … em desejos arde todo
De ver da gente forte o gesto e modo.

Afinal, sei, sabemos com Drummond, que:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

(*) Adalberto de Queiroz, 62, é jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação”, 2ª. ed., Editora Caminhos, 2017. Email para o autor: [email protected]


Serviço: Livro: “Moradas” [36 poemas]. / Angelus Silesius. Tradução de Marco Lucchesi, introdução de Faustino Teixeira. – Goiânia: martelo casa editorial, 2017
(col. Cabeça de poeta 07). 88 páginas. Edição bilíngue português/alemão.
Preço: R$35,00  e pode ser comprado online em http://www.livrariacaminhos.com.br/
Créditos: a coordenação editorial da martelo é de miguel jubé (atenção, Leitor: o jovem editor e poeta miguel jubé assina seus trabalhos em minúsculas como e.e. cummings!); a direção de arte é de Lucas Mariano.
—–
Fontes: [i] ANDRADE, Carlos Drummond de. “Discurso de primavera e algumas sombras”, posfácio Sérgio Alcides – 1ª. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014, pág. 147.

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César Miranda

Excelente texto e ótimo balanço desse ano com grandes promessas para o mundo editorial, quem diria, de Goiás que tem muito a oferecer para a cultura brasileira. A assinalar algo na minha área, a música, é que, na verdade, Cambalache não é de Carlos Gardel e sim de Enrique Santos Discépolo (https://pt.wikipedia.org/wiki/Enrique_Santos_Disc%C3%A9polo), grande compositor argentino, também grande tanguero. Essa é uma canção com vasto passeio pela MPB com gravações de Caetano Veloso, Raul Seixas (que fez a versão para o brasileiro) e Ângela Rô Rô, além de se encontrar no YouTube ótima gravação ao vivo dela com Gilberto Gil. Essa… Leia mais

Maria Helena Chein

Você tem plantado, e muito, caro Adalberto, e tenho acompanhado e aproveitado a colheita.
Nesse excelente artigo, Marco Lucchesi, Angelus Silesios, Drummond, Nejar foram lembrados ou comentados, de maneira que os leitores possam usufruir de tão importantes fatos. E a receita de ano novo, de Drummond, é mágica!