“Ponte sobre o Drina”, de Ivo Andrić, é um libelo em favor da diversidade

O escritor bósnio, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, escreveu uma crítica à intolerância e, sobretudo, literatura de primeira linha

Mariza Santana

Em um local distante, precisamente em Vichegrad, uma cidade da Bósnia e Herzegovina, situada na fronteira com a Sérvia; e em tempos também distantes, no século 16, um homem sequestrado quando criança pelos turcos otomanos e obrigado a mudar de nome, cultura e religião, e já na condição de grão-vizir, decide determinar a construção de uma ponte.

A obra arquitetônica, sobre o Rio Drina, se torna a presença mais constante e imutável da localidade pelos séculos seguintes. Já a cidade passa por mudanças constantes, assim como o destino de seus moradores, sejam sérvios, turcos, judeus ou austríacos. Isso principalmente devido à sua localização geográfica, nos Balcãs, região de conflitos, invasões e guerras, na confluência do Oriente e Ocidente, local de disputas históricas entre religiões e culturas distintas.

Com a ponte na condição de protagonista, e também sendo a principal testemunha dos acontecimentos da cidade, ao longo dos tempos, vão desfilando todos os tipos de personagens. As narrativas individuais se mesclam e os dramas se desenrolam, retratando o período do domínio do Império Turco Otomano, até a ocupação por outro império — o Austro-Húngaro, e culminando com os eventos da Primeira Guerra Mundial.

Ivo Andrić junto à ponte sobre o Rio Drina | Foto: Reprodução

O livro “Ponte Sobre o Drina” (Grua Livros, 448 páginas), do escritor bósnio Ivo Andrić, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1961, reflete bem aquela ideia de Púchkin e Tolstói: fale de sua aldeia e sua comunicação terá alcance mundial. Trata-se de uma obra de rara qualidade literária, que por si só já comprova que o Nobel de Literatura foi merecido (não conheço outras obras do escritor, que produziu textos em verso e prosa). O romance demonstra vigor, humanismo e atualidade.

Mesmo tendo sido escrito em 1944, e sendo publicado no ano seguinte, é possível vislumbrar no romance as sementes do que viria a culminar na Guerra da Bósnia, ocorrida entre 1992 e 1995. O conflito desencadeado pela independência desse país dos Balcãs foi também um conflito étnico entre croatas, sérvios e bósnios,

Retornando ao romance de Ivo Andrić, a obra começa com o relato da construção da ponte de pedra sobre o Rio Drina, concluída pelos turcos em 1571, por ordem do grão-vizir Mehmed Paxá Sokolovic. Essa autoridade era, na realidade, um garoto sérvio, levado à força para Istambul, onde foi islamizado, mas que conseguiu construir uma carreira bem-sucedida no serviço aos sultões otomanos. A partir daí, com o surgimento da ponte, a face da cidade muda drasticamente.

A célebre ponte sobre o Rio Drina | Foto: Reprodução

O autor relata o episódio da grande inundação (momento ímpar, que uniu todas as comunidades étnicas e religiosas devido a um desastre da natureza). Dramas pessoais se mesclam a momentos históricos, da dominação otomana à conquista do território pelos austríacos, descrevendo o desenvolvimento do comércio e a chegada da ferrovia, assim como o surgimento dos novos pensamentos políticos na Europa do final do século 19 (como o socialismo), e o começo da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)), já no início do século 20.

O tradutor da obra, Aleksandar Jovanovic, explica bem em seu posfácio: Ivo Andrić “trabalha o conceito do paradoxo simultâneo de exclusão e inclusão vivido pelos habitantes de sua Bósnia natal (mas extensivo, em muitos aspectos, a toda a Europa Centro-Oriental)”.

Em uma região em que o Cristianismo e o Islã se encontraram e se confrontaram, onde dois impérios totalmente distintos dominaram, os efeitos dessas ocupações coloniais sobre as pessoas, gerações e grupos étnicos criaram cicatrizes ainda perceptíveis, e barreiras difíceis de transpor.

Um artesão da narrativa

O tradutor também denomina Ivo Andrić de “artesão da narrativa”, título adequado diante da prosa envolvente a respeito dos dramas humanos, sem perder de vista o contexto histórico. O escritor morreu em março de 1975, aos 83 anos de idade, em Belgrado.

Ele era (sua obra permanece) um verdadeiro humanista, uma voz lúcida contra a intolerância e a favor da diversidade (bandeiras ainda hoje atuais e mais do que nunca necessárias). O próprio Ivo Andrić viveu em um dos momentos mais turbulentos do século 20, que foi a Segunda Guerra Mundial(1939-1945), e testemunhou os horrores do regime nazista e do conflito bélico.

Ivo Andric: Nobel de Literatura de 1961 | Foto: Reprodução

Em “Ponte Sobre o Drina” mudam os personagens e também o destino da cidade bósnia de Vichegard. Mas a ponte de pedra segue impassível, repousando sobre o curso do rio, cumprindo seu papel de ligação entre regiões. Diz o autor: “E a ponte continuava de pé, como sempre estivera (…)”. Embora avariada pela guerra, segue impávida, conforme ele narra no último parágrafo do livro: “A ponte parecia condenada, mas permanecia intacta na essência, ilesa, entre dois mundos em guerra”.

Depois de uma pesquisa na internet, comprovei que a ponte do Drina ainda existe em Visegrad (a grafia da cidade é um pouco diferente da apresentada na obra literária). A ponte Mehmed Paxá Sokolovic é atualmente ponto turístico de interesse da cidade e continua testemunhando o destino de seus moradores.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

 

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