Poemas que leio, poetas que admiro: Pier Paolo Pasolini

Além de cineasta, ativista político e intelectual público, Pier Paolo Pasolini foi também um poeta de grande talento

Cineasta e poeta Pier Paolo Pasolini | Wikipédia Commons

Cineasta e poeta Pier Paolo Pasolini | Wikipédia Commons

Rafael Teodoro
Especial para o Jornal Opção

Muito conhecido por seus filmes, o italiano Pier Paolo Pasolini foi também um intelectual de obra multifacetada. Participou ativamente da vida pública, tentando conciliar três característicos inarredáveis da sua personalidade: era cristão, marxista e homossexual assumido. A conjugação desses fatores tornou-o uma figura controversa, sobretudo na Itália fascista onde cresceu e viveu. É célebre a celeuma em que se envolveu nos jornais da época, quando, acusado por Italo Calvino de ingenuidade e saudosismo do mundo pré-burguês, escreveu a sua famosa “Carta aberta a Italo Calvino”, na qual rebateu as críticas às suas posições políticas e estéticas, a sentenciar lindamente seu rechaço à crescente superfluidade do consumismo no mundo. “Aqui fique claro que os bens supérfluos tornam supérflua a vida”, escreveu Pasolini. (Ao leitor interessado nesse debate intelectual, a versão integral da carta pode ser lida em: “Scritti Corsari”, de Pier Paolo Pasolini.

Contudo, além de cineasta, ativista político e intelectual público, Pasolini foi também poeta de grande talento. Sua obra inclui, por sinal, vários livros de poesia. Infelizmente quase todos eles ainda carecem de tradução no Brasil. Assim, ao leitor brasileiro resta socorrer-se das obras no original em italiano, a exigir obviamente o domínio do idioma, ou das traduções publicadas em Portugal.

Abaixo, separei o poema “I primi che si amano” (no original em italiano e na tradução para o português realizada por Rubens Zárate) qual homenagem a esse grande intelectual italiano, cuja carreira cessou ante seu assassinato brutal no ano de 1975. O poema que destaco foi publicado no livro “Teorema”, de 1968, e revela a força de versos que denunciam o hermetismo da arte inacessível — uma das polêmicas, entre tantas outras, nas quais Pasolini meteu-se, a destacar a “vanguarda histórica” dos anos 1960 do século 20 e seu espírito libertador das “fotografie ingiallite” dos “poeti i pittori dela generazione precedente”.

Rafael Teodoro é advogado e crítico de música e literatura.

Os primeiros que se amam — Pier Paolo Pasolini

Os primeiros que se amam
são os poetas e os artistas da geração anterior,
ou do início do século; eles ocupam
em nosso espírito o lugar do Pai, tornando-se,
no entanto, jovens como fotografias amareladas.
Poetas e artistas para os quais não havia
vergonha alguma em ser burguês.
Filhinhos de papai.
Roupas pobres com sabor de Rebelião e de Mãe.
Poetas e artistas que se tornariam famosos
lá pela metade do século,
ao lado de algum desconhecido amigo de grande talento,
mas impotente para a poesia, por covardia talvez
(os verdadeiros poetas morrem jovens).
Calçadas de Viareggio ou de Viena! Cais
de Florença ou de Paris!
Os fatos ecoando nos passos das crianças
que calçam botas pesadas.
Os ventos da desobediência têm perfume de cíclame
sobre as cidades aos pés dos poetas jovens.
Os poetas jovens que falam e falam
depois de alguns copos de cerveja,
independentes, livres como a pequena burguesia
— locomotiva abandonada, mas ardente,
por certo tempo obrigada a apreciar
a lentidão da juventude:
a firme certeza de mudar o mundo podre
com quatro palavras apaixonadas e um caminhar de revoltosos.
As mães, como em ninhos
em seus pequenos lares burgueses,
bordam os jasmins das árias
com o sentido da luz privada da família
e seu lugar em um país repleto de festas.
As noites, então, ressoam apenas os passos dos filhos.
A melancolia tem infinitas tocas.
Tão infinitas como as estrelas
em Milão ou em outra cidade
onde se respira o ar dos aquecedores.
Pelas calçadas percorremos casas do século XVIII,
pinturas descascadas com sacrossanto destino
(as estradas da nação tornando-se uma civilização industrial),
com um distante odor românico de estábulos gelados.
É assim que os rapazes poetas sofrem a experiência da vida.
E têm de dizer o que dizem os outros,
os rapazes que não são poetas (senhores também da vida
e da inocência)
junto às mamães que cantarolam
nas janelas dos pátios
(fossas que fedem para as estrelas).
Onde perdemos esses passos:
não basta uma grave página de lembranças,
não, não basta — talvez o único poeta não seja poeta,
ou o único artista não seja artista,
talvez ele tenha morrido antes ou depois de uma guerra, em qualquer
cidade durante legendária passagem,
as noites realizadas, com autenticidade.
Ah, esses passos — os filhos
das melhores famílias da cidade (aquelas
que seguem o destino da nação
como uma horda de animais seguindo cheiros
— dracena, canela, beterraba, cíclame —
em suas migrações) que passam a poetas
com seus amigos artistas, batendo as ruas,
falando e falando.
Mas se é esse o modelo, é outra a verdade.
Repete, filho meu, aquelas outras crianças.
Sente saudades delas em teus dezesseis anos.
Mas fica ciente desde já
de que ninguém antes de ti fez qualquer revolução;
que os poetas e artistas antigos ou mortos,
apesar dos ares heroicos de suas auréolas,
são inúteis e não te ensinam nada.
Goza tuas primeiras experiências ingênuas e teimosas,
tímido dinamitador, senhor das noites livres,
mas não te esqueças de que estás aqui apenas para ser odiado,
para destruir e para matar.

via Revista Bula

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