Poemas da Pandemia – uma antologia de mestres

O tema pandemia e suas vertentes, como não poderia deixar de ser, rendeu algumas coletâneas pelo Brasil e pelo mundo. Um fato histórico com a magnitude da Covid 19 planetária mereceria mesmo, além dos estudos médicos e sócio-históricos, visões literárias do evento, e é isso o que propõe o livro Poemas da Pandemia. Conforme nos diz acertadamente na apresentação da obra o organizador da antologia, Ademir Luiz: “a poesia é necessária para pensar, expor, ressignificar e estetizar todos os aspectos da experiência humana, inclusive as tragédias, pessoais ou coletivas, como a pandemia da Covid 19”. Daí a se conseguir o feito de reunir num só volume textos poéticos de grande valor literário é algo mais complicado que Poemas da Pandemia, para satisfação dos leitores, consegue alcançar. A obra surgiu da ideia proposta pelo jornalista Euler de França Belém, foi implementada em parceria com a União Brasileira de Escritores Seção Goiás (UBE – GO) e conta com nomes de peso do cenário literário goiano, incluindo muitos vencedores da Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, além de novos talentos que encararam bem a missão dada. O grande mérito do livro foi o de receber tais talentos que, com estilos variados, perpassam pelo tema muitas vezes com tanta sutileza que fazem com que o leitor, ao invés de ter uma experiência melancólica ou pesada, tenha um agradável tempo de fruição. Dessa forma, pareceu-me injusto citar alguns nomes em detrimento de outros que constam na obra, por isso, optei por apresentar, nessa resenha, pequenas amostras dos textos presentes no livro.

Miguel Jorge, autor de Veias e Vinhos, é o decano que abre a coletânea com Eis aqui o humano homem, no qual diz:

“Eis aí o humano homem!

Possui-se agora, o que se descarta amanhã.

É só o que se tem o que se chega o que se resta.”

Embora em todo esse poema não haja uma única menção à pandemia, temos aqui a exposição da fragilidade humana, a pequenez dos desejos humanos (o rei que desejava ser) diante do inesperado do destino (fica subentendido tratar-se da pandemia).

O belo poema é seguido de outro de Edival Lourenço, ganhador do prêmio Jabuti com o livro Naqueles morros, depois da chuva. Em seu O soneto da morte enfurecida, Edival faz uso dessa forma poética clássica e de difícil composição, para mostrar que embora haja um mal, uma peste a rondar o mundo, na natureza tudo aparenta a mesma calma de sempre:

“Numa tragédia que ninguém previsse

A nova peste um cão feroz gerisse

Para que um maior número matasse.

A morte vem qual lâmina rapace

O horror da vida mostra a fera face

E o condor plana à tarde na planície.”

Outra poeta de renome, Leda Selma, em seu Fúria de Monstros faz, com ricas metáforas e personificações, a ligação entre o “monstro invisível faminto de dores e de gente” e o outro, que o leitor reconhecerá: “Do planalto, o monstro emerge. Crocitar de corvo.”

Delermando Vieira traça um paralelo entre o passado relativamente tranquilo: “Naqueles outros tempos, até então, eu só me movia e me ouvia, ao que paz e alegria me comovia o coração” com a dor trazida pela “la bete de somme” (besta em francês).

Em memória dos que se foram, Valdivino Braz fala da tristeza das perdas em “tempos burocratas, políticos e perversos”. Sim, a crítica social e política aparece em destaque no livro em vários poemas, mas é realizada de forma que a estética se sobreponha ao formato panfletário, como no poema de Ubirajara Galli: “No abatedouro de alvéolos, menos mal para Pilatos, que lavou as mãos”; no de Thaise Monteiro: “não haverá justiça/ aos que cedo partiram/ nem aos que ficaram atolados/ na lama de lágrimas sobre/ o solo deste país para onde/ se for, não vá/ que a paz colonizada/veste mortalha verde e amarela/como o canário abatido/ pelo gesto/dos que com as mãos/ fizeram arma”; em Giovani Ribeiro Alves: “Até quando? Os detentores do poder brincarão/ com a vida humana?”; Eliézer Bilemjian em Hoje: “Hoje já tem gente lá fora/ não tanto por perder a hora,/ mas porque o capitalismo não para de mandar boletos”. Nilson Gomes escreve: “Vírus colheu tanta flor/ que a primavera acabou/ dor é a única estação”.

Também há o olhar sobre o sentimento individual, subjetivo, por vezes (e com razão) pessimista: a angústia pelo o que virá, os amores afastados pela pandemia, as ausências, ou as aflições individuais misturadas ao sentimento coletivo. Rogério Rocha escreve: “Mas não reclamo nem sofro: sobrevivo”. Ana Carolina Coelho noz diz que “sonhar é luxo,/ viver, ilusão em tela desbotada.” Em seu poema, Cristiano Deveras diz: “A dor que trago em dobro, / é a dor de quatrocentas mil famílias,/ pela suposta solidez da vida/ que se esvai como um sopro.” Rafael Fleury, fazendo um intertexto com Manuel Bandeira, chega à conclusão de que: “Não há hora, não há quem: quando a indesejada deseja alguém…”

Maria Helena Chein fala sobre o afastamento de um casal: “Por caminhos diferentes/ nossos passos se afastaram, /e recolheram o silêncio e o absurdo/ da saudade que não desiste”, assim como o fez Sônia Elizabeth: “instalou-se nesse mundo/ um vírus sem leveduras: / você fica na sua casa,/ eu fico na casa minha.” Já o poema de Tarsilla Couto de Brito começa assim: “o amor acaba/ a mancha de água sanitária/ no tapete CASA DE GENTE FELIZ/aumenta.”

Getúlio Targino se vale do soneto para dar um sentido esperançoso ao triste evento: “Sim, pois aqui, na hora da partida, / a dor estonteante que te humilha/ É a ponte que te leva à nova vida.”

Fabrício Clemente utiliza-se de várias figuras de linguagem para descrever a mortandade perpetrada pela pandemia:

“Sem máscara e sem cara. Sem ar puro.

A foice faz dançar os algarismos:

Féretro pornográfico de abismos

Na carantonha onde não há futuro.”

Já Maria Clara Dunck fala sobre o sentimento de impotência de uma mulher ao perceber que suas vaidades ficaram obsoletas num mundo onde a morte ronda: “Num mundo onde domina o grotesco/pintar os lábios para seduzir a imagem no espelho/ Não há rubro tão intenso que dê conta/ de alargar minha boca/ tão pequena e inútil”

Outros autores optaram por textos nos quais o tema se dilui mais, na qual, portanto, uma associação deverá ser feita pelo leitor, como Fernanda Marra, em De ouvido, Léo Prudêncio em Poema para cartaz, lambe-lambe, José Fábio da Silva em Ot cep sorte rounit noc (contínuo retrospecto lido de trás para frente), e Solemar de Oliveira: “O menino, que se isola, vê o mundo da janela./ Da sua janela./ E, também, de janelas ao inverso”. Hélverton Baiano assim também o faz: “vai sumindo gente/ pelo mundo pouco/ fugindo ao rumo/ que sangra o sufoco.” Em Quarenta dias, José Umbelino Filho se utilizará de um paralelismo poético, a repetição de “um dia’ para demonstrar os diferentes sentimentos que nos acometeram durante os dias incertos (da pandemia), para finalizar com o que pode nos ficar de lição: na vida, não há certezas, devemos viver um dia de cada vez.

O que Poemas da Pandemia faz, além de ficar como um memorial literário da pandemia, é mostrar que Goiás tem ótimos escritores. O leitor poderá desfrutar de uma boa leitura, mesmo diante de tema tão espinhoso. Por isso, creio que essa obra não ficará datada, pois além de cumprir a missão poética de “pensar, expor, ressignificar e estetizar” esse tempo difícil de nossa História, ainda o faz com louvor. Ainda bem que existem a poesia e os poetas para nos salvarem da realidade, conforme nos diz Divino Damasceno: “o poema é só um apoio/o poema é alguma coisa/ para descansar depois.” E Itaney Campos: “desfralda o seu verbo, poeta, desata a sua verve, que só essa é capaz de iluminar a secura da relva.”

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