Plutarco é uma das principais fontes da história greco-romana e Alexandre um grande personagem histórico
18 julho 2026 às 21h00

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“Privilegiar a vida é não colocar a morte a seu serviço.” — Dr. Viktor David Salis
Para saber o que leva um governante a receber o epíteto de “o Grande”, fui consultar o também grande, o maior escritor da antiguidade, Plutarco. E não foi sem emoção que folheei suas páginas, escritas dois mil anos atrás. O entendimento do mundo não contava ainda com todas as informações que a ciência nos oferece hoje. Havia o encantamento.
Não se sabe exatamente as datas de seu nascimento e morte, mas ele viveu no primeiro século da era cristã, tendo nascido em Queroneia, na Beócia; portanto, era grego. Grande conhecedor de história, filosofia e literatura, ministrou palestras em Roma sobre esses temas. Sua influência se fez notar na população grega e romana de sua época e transcendeu o seu tempo através de seus escritos (mais de duzentos livros), que levaram às gerações seguintes, e até hoje, conhecimentos históricos, filosóficos, morais e biográficos de grandes personalidades.

Plutarco escreveu numerosas obras, denominadas “Moralia” (obras morais), em número de oitenta, nas quais manifesta seus conceitos filosóficos e preocupação com os costumes e aspectos morais da sociedade. Iniciou o gênero literário ensaístico, tendo influenciado grandemente autores como Montaigne e Shakespeare. Contudo, Michel de Montaigne é considerado o iniciador do gênero “ensaio”, por sua pertinácia e sistematização do estilo ensaístico tendo sido, porém, influenciado pelo grego Plutarco.
Foi, no entanto, com “Vidas Paralelas” que Plutarco se popularizou. Ele foi o iniciador do gênero de biografias comparadas, tendo escrito 23 pares de biografias, sendo cada par composto por uma personalidade grega e uma romana.
Além de Plutarco, outros gregos foram os iniciadores de diversos gêneros literários, como Homero, na poesia épica; Heródoto, na história, chamado por Cícero de “pai da história”; a tríade Sófocles, Eurípedes e Ésquilo, no teatro trágico; Aristófanes, na dramaturgia cômica; Sócrates e Tales de Mileto, na filosofia ocidental; na matemática, Tales de Mileto, Pitágoras e Euclides e, quiçá, outros não citados.
Em “Vidas Paralelas”, as mais conhecidas são as biografias de Alexandre, o Grande e Júlio César, respectivamente grego e romano.
Plutarco é considerado por muitos historiadores como a melhor fonte da história grega, muito embora ele não se considerasse historiador, mas biógrafo. Mesmo assim, suas biografias vêm amparadas por informações históricas de grande valia. A distância temporal entre ele e Alexandre é de mais ou menos 400 anos. Alexandre nasceu em 356 a. C. e morreu no ano 323 a.C.

Caio Júlio César nasceu no ano 100 a.C. e faleceu em 44 a.C., portanto, sua vida transcorreu em uma distância de menos de 100 anos até o nascimento de Plutarco.
No início da descrição da vida de Alexandre, Plutarco narra todas as histórias fantásticas que preconizavam a vinda de um ser excepcional; ele mesmo acreditava naquelas histórias, como também acreditava que o pai de Alexandre, o rei Filipe II (382 a.C. -336 a.C.), descendia de Hércules, um personagem mitológico. Sendo muito religioso e supersticioso, cria nos sortilégios dos adivinhos, que liam a sorte nas vísceras e nos voos das aves. Afinal, era um homem de seu tempo.
Alexandre Magno, ou o Grande, foi criado dentro de uma aura de excepcionalidade. Aristóteles foi chamado para ser seu preceptor, e o iniciou nos estudos literários e no conhecimento filosófico até a idade de 16 anos.
Alexandre era conhecedor e apreciador da “Ilíada” de Homero, a qual serviu-lhe de inspiração e estímulo para suas futuras conquistas. Aquiles era seu grande herói.
A personalidade de Alexandre era forte, e logo mostrou aptidão para o poder e ânsia pela glória, chegando a dizer: “Meus amigos, meu pai vai tomar tudo, e não deixará nada de grande e de glorioso para eu fazer um dia”.

Segundo palavras de Plutarco, o que ele desejava era “receber das mãos do pai um reino no qual tivesse guerras que fazer, batalhas que travar, em suma, um campo para sua ambição” (“Alexandre e César”, Plutarco, Nova Fronteira, 192 páginas).
Quando seu pai, Filipe II da Macedônia falece, inicia-se a carreira de Alexandre como rei e conquistador. Começava aí, com apenas 20 anos, a corrida para conquistar o mundo e os holofotes da humanidade. De início, sua tarefa foi manter as cidades gregas sob seu poder absoluto. Atacou e destruiu Tebas, matando mais de 6 mil pessoas e vendendo 30 mil.
O objetivo de Alexandre era adentrar a Ásia e conquistar todos os povos, se possível o mundo, como ele mesmo dizia.
As guerras travadas contra os persas deixaram milhares de mortos espalhados pelos campos de batalha. Encetou perseguição sistemática a Dario III, cujo império, com suas riquezas e pujança, estimulavam a cobiça de Alexandre.
Segundo Plutarco, o rei Dario III era considerado um homem de beleza inigualável, o mais belo do mundo conhecido. Também sua mulher e as filhas eram donas de extrema beleza, tendo Alexandre se casado com uma das filhas em segundas núpcias.
Com a morte do rei Dario, em consequência da guerra, a Pérsia passou a ser dominada por Alexandre. Hoje, percebe-se que o povo iraniano tem a beleza como herança ancestral. Olhando para as cativas, Alexandre disse que “as mulheres da Pérsia eram o tormento dos olhos”.
De acordo com Plutarco, Alexandre tinha uma formação moral rígida, o que nunca lhe permitiu abusar de mulher alguma.
As conquistas de Alexandre continuaram no Egito e se estenderam ao povo árabe, chegando até a Índia, e só pararam pela sua morte precoce.

Ele teve gestos de generosidade para com seus amigos, presenteando-os com ouro, vilas e cidades inteiras, e algumas vezes para seus inimigos, como Dario, a quem proporcionou exéquias de pompa. Dezenas de milhares de soldados inimigos morreram nos combates com o exército de Alexandre e, no final, seus soldados já estavam em exaustão.
Napoleão e Solano López: seguidores
Alexandre foi o modelo para muitos dos grandes conquistadores em todas as épocas. Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi seu ardoroso admirador e discípulo, e a “Vida de Alexandre” era seu livro de cabeceira.
Francisco Solano López (1827-1870), presidente do Paraguai e que levou seu país à guerra com o Brasil, dizimando a maior parte da população masculina, quando de sua permanência na França tornou-se um ardente admirador de Napoleão, tentando, na volta ao seu país, repetir as façanhas do imperador francês em terras sul-americanas. Por tabela, foi um seguidor de Alexandre.
Victor Hugo, em “Os Miseráveis” (“Os Miseráveis”, Martin Claret, 1510 páginas), dedica um capítulo inteiro à batalha de Waterloo e às suas funestas consequências.
O próprio autor vai, a pé, até o campo onde se desenrolou a tragédia; quis pisar na terra que, há bem pouco tempo, fora encharcada com o sangue de seus compatriotas e ingleses; percorreu o vale das sombras da morte, impactado pela experiência, e imaginou e localizou os lugares onde montanhas de ossadas foram enterradas; viu o poço, de onde as tropas tiravam água para matar a sede, e que foi transformado em túmulo de 300 soldados, cujos corpos foram jogados lá dentro e à noite de lá saíam gemidos dos que foram atirados ainda com vida.
Corpos de homens e cavalos permearam todo o campo, aos milhares, onde se deu a trágica batalha. Antes dessa experiência o grande literato já conhecia, passo a passo, tudo que acontecera lá, e seu olhar pôde, ao vivo, reconhecer lugares e fatos que mudaram o destino da Europa.
O escritor Victor Hugo (1802-1885), refletindo sobre a luz impiedosa da história, faz a seguinte reflexão: “Babilônia violada, diminui Alexandre; Roma acorrentada, diminui César; Jerusalém destruída, diminui Tito. A tirania segue o tirano. Desgraçado o homem que deixa atrás de si a sombra de sua forma”. Suas palavras ecoam até aqui, revestidas de verdade e de senso de justiça.
É bem verdade que Alexandre usou de seu poderio para helenizar os povos, por ele chamados de “bárbaros”. Aproximou-se de sua cultura e esforçou-se em modificar muitos dos hábitos deles. Separou 30 mil crianças, às quais forneceu professores que lhes dessem educação e ensino do grego.
Contudo, o conceito de “Grande” é, como se vê, relativo. Refere-se, sobretudo, a poderio bélico, subjugação de povos e exaltação do conquistador.
Uma concepção mais ampla incluiria preceitos morais e éticos, humanísticos, sociais e desenvolvimentistas.
Apesar das qualidades inerentes a Alexandre, tão bem descritas pelo estudo minucioso do admirável escritor Plutarco, ele pertenceu a outra era, ao mundo do poder absolutista, mas serviu e ainda serve como exemplo a muitos pretendentes à tirania.
Plutarco, como biógrafo e cidadão de uma era onde os conceitos de democracia não tinham saído ainda do âmbito do pensamento filosófico, fez um registro correto da vida e obra de Alexandre, sem questionamentos que ultrapassassem a realidade factual.
A visão de um paraíso terrestre, onde o respeito à vida de todos e à natureza fosse regra geral, diluiu-se irremediavelmente a uma distopia e não existirá, nem sequer, na outra esquina (o poeta inglês John Milton [1608-1674] escreveu uma das mais lindas e importantes epopeias “Paraíso Perdido” — baseada nos relatos bíblicos, referente à queda do homem e à perda do paraíso).
Quem sabe Alexandre, o Grande, não tenha sido tão grande assim, apesar de seus feitos espetaculosos; quem sabe tenha sido, acima de tudo, um vaso de vaidade e orgulho. Que o digam os historiadores e humanistas.
Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.



