Paula Fox, no romance “A Costa Oeste”, reflete sobre o sentido da vida e dos nossos sonhos

Annie atinge a maturidade ao se mudar para a região de Hollywood. Livro contém relato repleto de sensibilidade e personagens intensos

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

Annie é jovem, tem apenas 17 anos. Foi abandonada pelo pai, um roteirista de cinema de categoria menor, em Nova York, e passou a infância aos cuidados do tio. Sem dinheiro no bolso e nenhuma perspectiva de vida, munida apenas da coragem daqueles que têm pouco a perder, ela consegue uma carona que a leva até Los Angeles, na Costa Oeste dos Estados Unidos. Mas, ao contrário de muitas pessoas que procuram a Califórnia em busca de fama e dinheiro em Hollywood, Annie nada almeja desse tipo. Ela deseja apenas seguir vivendo.

Os cinco anos de Annie na Califórnia, onde se torna mais madura, ocorrem com ela rodeada de personagens intensos, a maioria gravitando em torno do mundo do cinema. Esse é o foco do romance “A Costa Oeste” (Companhia das Letras, 500 páginas, tradução de Sonia Moreira), da escritora norte-americana Paula Fox). Ela é autora de obras para adultos e crianças e de duas memórias. Possui reconhecimento na área de literatura infantil. A autrorafaleceu em 2017. Mas antes, em 2011, teve o nome incluído no Hall da Fama dos Escritores do Estado de Nova York.

Embora reconhecida pela literatura infantil produzida, sua produção para os leitores adultos só reforça o trabalho de qualidade que Paula Fox desenvolveu ao longo de sua carreira. Em “A Costa Oeste”, a escritora descreve, com mestria, a vida de uma jovem solitária nos Estados Unidos da década de 1940. Nessa época o país estava prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No enredo do livro são citadas as reuniões dos trabalhadores ligados ao Partido Comunista, a vida glamorosa dos artistas de cinema, e as dificuldades daqueles que não conseguem realizar o sonho americano em Los Angeles.

No meio dessa roda viva, descrita com rara sensibilidade, Annie parece que tem sua vida levada pelos demais personagens. Até seu breve casamento, com o ator, militante comunista e marinheiro Walter Vogel, dá sinais de acontecer com outra pessoa, como se ela fosse puxada por uma onda arrebatadora da qual não tem forças para se opor, e sequer pretende fazer isso. Também assim são suas outras aventuras amorosas e sexuais, como se acontecessem com outra pessoa.

As pessoas passam pela vida de Annie, com seus desejos, frustrações e sentimentos, ao mesmo tempo em que vemos a protagonista seguindo pelas páginas do romance, sem passado, presente ou futuro, apenas vivendo o dia a dia da melhor forma possível. A força da literatura de Paula Fox dá uma dimensão quase etérea a essa anti-heroína, que nada mais é do que uma pessoa comum, sem grandes planos, projetos e ambições, que, no entanto, tem uma riqueza interior diferente.

De forma subliminar, Paula Fox inclui em sua obra o debate sobre o racismo, o antissemitismo, o suicídio, as opções políticas, a busca pela fama, os dramas da guerra e a luta pela sobrevivência diária. Annie vai participando de todos esses debates de uma forma distanciada, e ao mesmo tempo intensa, porque são os dramas de amigos e amantes que vão surgindo ao longo de sua experiência californiana.

Paula Fox: escritora americana | Foto: Reprodução

O final do romance também é surpreendente, por não ser convencional e tampouco conclusivo. Mais uma vez a escritora demonstra o poder de sua literatura ao brincar com o leitor, apontando um momento de esperança da protagonista, mesmo que seja com a perspectiva de um recomeço também difícil, como foi anteriormente na Califórnia. Com esse desfecho, a autora convida à reflexão sobre o sentido da vida e dos nossos sonhos.

Trecho do romance “A Costa Oeste”

“Uma vez por semana Annie ia a uma reunião do partido. Tinha completado seis semanas de frequência na escola do partido e lera apenas trechos de livros que deveria ler de cabo a rabo. A escola ficava no quarto andar de um velho edifício de Los Angeles. As janelas eram cobertas com tela de aço. Havia uma sala de aula e uma secretaria. Foi lá que Annie conheceu Ethel Schaeffer. De vez em quando Ethel a levava a uma leiteria, onde, debaixo de um ventilador lento que soprava moscas languidamente de um lado para o outro do teto de zinco, Annie provou kasha (espécie de mingau de trigo sarraceno, típico da cozinha do Leste Europeu) e sopa de bola de pão ázimo. A voz de Ethel era como um riacho murmurante, ela falava com jeito suave, continuamente, e suas conversas não tinham começo nem fim, fluindo sem esforço.”

Mariza Santana, jornalista, é crítica literária.

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