Paris ainda é uma festa? Saiba o que Hemingway, Carrère e Houellebecq têm a dizer
26 setembro 2026 às 21h00

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Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção
Participando do projeto “Paris é uma festa!”, dentro do Circuito Literário do Sesc-Goiás, no último dia 19, falei sobre o tema “Relações perigosas: literatura francesa pós-Charlie Hebdo”, ao lado dos escritores Martim Vasques da Cunha e Tainá Côrrea, mediados por Ademir Luiz. O que se segue é uma síntese da minha palestra.
Há alguns anos visitei, na costa da Flórida, perto de Navarre, um dos bares que Hemingway frequentava. Minha filha, meu genro e meus netos americanos moraram ali por uma temporada. Apreciando o mar e degustando um drink em família, pensei na medida do que devo ao autor norte-americano: a prosa seca, a persona que soube construir e suas contradições, como a conversão ao catolicismo contada de tantos modos diferentes; e, sobretudo, o suicídio que projeta sombra sobre toda a sua obra.

Em 1926, cem anos atrás, ele publicou “O Sol Também se Levanta”, com uma epígrafe que atribui a Gertrude Stein a sentença que resumiria uma geração: “Vocês são todos uma geração perdida”.
Miss Stein e Hemingway ainda eram bons amigos quando a autora de “Três Vidas” fez a observação sobre a geração perdida. O prosador americano conta em “Paris É uma Festa” que ela levara o carro a uma oficina para consertar, devido a um contratempo com o arranque do velho Ford modelo T que dirigia na época. Ora, o rapaz que cuidou do serviço, que tinha combatido no último ano da guerra, não fez um trabalho competente, e o gerente do lugar, diante do protesto de Stein, repreendeu o mecânico dizendo que gente como ele era uma “génération perdue”.
Gertrude Stein disse para o amigo Ernest Hemingway: não discuta comigo, Hem. Não adianta nada. Vocês todos são uma geração perdida, exatamente como o dono da garagem disse
Foi essa frase de oficina que Stein repetiu a Hemingway, aplicando-a a ele e a toda a sua turma de jovens escritores que haviam servido na guerra: “Vocês não têm respeito por coisa alguma. Vocês bebem até morrer”.

Hemingway perguntou à autora de “A Autobiografia de Alice B. Toklas” se achava mesmo aquilo; ela insistiu, sem ceder um milímetro. Ele revidou, sugerindo que quem provavelmente estava bêbedo às onze da manhã era o dono da garagem, “e por isso dizia frases tão encantadoras”. Stein encerrou a discussão de modo autoritário: “Não discuta comigo, Hem. Não adianta nada. Vocês todos são uma geração perdida, exatamente como o dono da garagem disse”.
Mas a réplica de verdade só lhe ocorreu naquela noite, caminhando para casa: pensou no rapaz da oficina e se perguntou se ele não teria sido, ele mesmo, um dos feridos transportados nesses velhos Fords convertidos em ambulância, que desciam estradas de montanha com os freios fumegando, engrenados na primeira e às vezes até na marcha à ré. E pensou: veja só quem chama os outros de geração perdida.
Foi essa mesma geração, a de Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos, e. e. cummings e a própria Stein, que a Paris do pós-guerra acolheu com generosidade quase imprudente: música, livrarias, cafés, champagne, liberdade para beber, amar, escrever e errar. Uma cidade inteira disposta a fingir, por alguns anos, que a guerra não tinha acontecido. Foi dessa experiência que Hemingway tiraria, décadas depois, o título de suas memórias parisienses: “Paris é uma Festa”, livro que só terminaria de escrever no fim da vida e que sairia, publicado por sua viúva, três anos depois de sua morte.

A pergunta que me ronda é se essa mesma cidade, um século depois, ainda é capaz do mesmo gesto. Ou se hoje é ela própria quem busca reconstruir um sentido que sente escapar.
A literatura deixou de tratar identidade, religião, imigração e liberdade de expressão como temas, e passou a tratá-los como sintomas de uma pergunta maior: quando uma sociedade deixa de acreditar na própria continuidade?
No dia 7 de janeiro de 2015, duas coisas aconteceram na França ao mesmo tempo, e a coincidência é sinistra demais para ser ignorada. Chegava às livrarias “Submissão” (Alfaguara, 256 páginas, tradução de Rosa Freire D’Aguiar), de Michel Houellebecq, que cria uma distopia, onde a França do futuro próximo se entrega, quase sem resistência, a uma nova ordem religiosa e política. Nesse mesmo dia, dois homens armados entravam na redação de um jornal satírico (a revista semanal “Charlie Hebdo”) e assassinavam doze pessoas em nome de uma fúria sagrada. A literatura tinha, sem saber, antecipado o pesadelo que o jornalismo registraria horas depois.
A partir desse momento a literatura francesa deixou de tratar identidade, religião, imigração e liberdade de expressão como temas, e passou a tratá-los como sintomas de uma pergunta maior: quando uma sociedade deixa de acreditar na própria continuidade?

Dois pensadores formularam essa angústia com precisão quase cirúrgica. Marcel Gauchet pergunta: como sustentar uma comunidade sem transcendência, como manter unidas pessoas que já não compartilham um horizonte além de si mesmas?
Alain Finkielkraut inquiriu: como sustentar uma cultura sem transmissão, como preservar um patrimônio simbólico quando cada geração nasce mais desconectada da anterior?
Marcel Gauchet vai além: a retirada da transcendência não deixou vazio nenhum, ela migrou. Foi o próprio combate contra o que ele chama de “partido da obediência sacral” (a Igreja) que fez a luta pela liberdade crescer a proporções quase sagradas; a soberania popular, o gesto de o homem dar a si mesmo as próprias leis, herdou a intensidade emocional daquilo que combateu. e o edifício republicano, erguido para negociar e conter uma autoridade metafísica forte, ficou sem inimigo à altura. A França não se tornou mais livre e sim mais desorientada.

O problema decorrente dessa troca é que todo o edifício cívico republicano foi erguido, precisamente, para responder a esse combate: negociar, conter, delimitar uma autoridade metafísica forte.
Assim, é como se a França estivesse sendo deserdada da condição que a tradição lhe atribuiu por séculos: a de fille aînée de l’Église, a filha primogênita da Igreja. O título remonta ao batismo de Clóvis, convertido ao cristianismo por influência da esposa, a rainha Santa Clotilde, depois de uma promessa feita na batalha de Tolbiac (cerca de 496 d.C.); com ele, cerca de 3 mil guerreiros francos também foram batizados. Não é força de expressão lembrar que, em 1980, no aeroporto de Le Bourget, o próprio papa João Paulo II formulou a pergunta que Gauchet, décadas depois, retomaria em termos seculares: “França, filha primogênita da Igreja, o que fizeste do teu batismo?”
Sabe-se que o direito de rir de tudo, inclusive do sagrado, vem de uma longa tradição francesa de contestar reis, de bispos e padres, o espírito de Voltaire permaneceu numa charge tanto quanto num tratado. Mas esse direito, cultivado durante séculos dentro de uma tradição nacional, passou a operar num mundo em que a ofensa circula em segundos e alcança leitores que não compartilham os mesmos pressupostos.

O filósofo político australiano Kenneth Minogue, num livro pouco lido no Brasil, lembra que a laïcité nasceu de uma briga doméstica: Estado e Igreja, adversários que falavam a mesma língua e aceitaram negociar um acordo em 1905. Essa experiência ensinou à República que um conflito se resolve por concessão. O risco é aplicar a mesma receita quando o interlocutor não negocia de boa-fé, apenas ganha tempo. É a mesma lógica do apaziguamento diante de Hitler, resumida na frase atribuída a Churchill sobre Chamberlain: “Você podia escolher entre a vergonha e a guerra. Escolheu a vergonha e terá a guerra”.
Nós, brasileiros, também vivemos perguntando o que nos mantém unidos. Mas há uma diferença de tom entre as duas nostalgias. O francês lastima uma realização: perdemos o que fomos. O brasileiro lastima uma promessa: perdemos o que poderíamos ter sido. Não a posse que se esvai, a possibilidade que não se cumpriu. Duas melancolias distintas, ambas formas de amor contrariado por um país.
É uma primavera cultural que Goiânia se oferece a si. Se 2015 ensinou como um ritual pode ser destruído numa só manhã de violência, encontros como o do Cerrado ensinam o inverso: como um ritual se constrói sem alarde
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, sugere que uma civilização é, antes de tudo, uma comunidade de ressonância. Essa imagem permite distinguir três eixos: o vertical, que liga o indivíduo a algo que o transcende; o horizontal, que o liga aos outros; o diagonal, que o liga às coisas, aos livros, aos objetos herdados. Um atentado contra uma redação de jornal fere os três eixos ao mesmo tempo: a transcendência que não admite ser ridicularizada, a comunidade de leitores e colegas, o próprio objeto em que essa comunidade se reconhecia.

Talvez seja por isso que voltamos, ano após ano, a mesas como esta em que palestrei e debati esse tema. Não é um jornal semanal como o” Charlie Hebdo”, é uma primavera cultural que Goiânia se oferece a si mesma. Se 2015 nos ensinou como um ritual pode ser destruído numa só manhã de violência, encontros como esse ensinam o inverso: como um ritual se constrói devagar, sem alarde, livro a livro, ano após ano.
Na sua palestra no mesmo debate, o escritor Martim Vasques da Cunha — doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade de São Paulo — trouxe leituras interessantes de Houellebecq e de Emmanuel Carrère, sobretudo o Carrère de “V13”. Sintetizou os dois quase como um par: um profético, outro cronista dos fatos. Para ele, “Submissão” deixara de ser apenas uma distopia literária: antecipara, com uma precisão desconfortável, a lógica de avanço e radicalização que hoje se vê em setores extremistas na Europa.
Fez questão de frisar, porém, uma ressalva: não são todos os que escolhem, para usar a expressão do próprio Carrère em “V13”, a “loucura em nome de Deus”.

Se Houellebecq imaginou esse futuro antes que ele se impusesse, Carrère o acompanhou quase em tempo real: em “V13”, relata, dia após dia, o julgamento dos acusados pelos atentados de 2015 contra o “Charlie Hebdo”, o Bataclan e os arredores do Stade de France, tentando entender como a Justiça francesa dá contorno jurídico a um trauma que a literatura já vinha, havia anos, tentando nomear.
Nesse mesmo debate, a partir de um comentário do próprio Martim Vasques da Cunha sobre a crise civilizacional que rasga hoje o véu da cultura francesa, arrisquei uma provocação. Disse que talvez, mesmo correndo o risco de sermos chamados de católicos de direita, tivesse razão o judeu Éric Zemmour, o polêmico autor de “O Suicídio Francês”.
Fiquei esperando a polêmica. Ela não veio. E talvez isso também diga algo sobre aquela noite: que ainda é possível, numa mesa de debate, arriscar uma ideia incômoda sem que ela vire trincheira. A civilização, mais do que à espreita, persiste — está presente.
Há uma imagem do poeta francês contemporâneo Jean-Michel Maulpoix que condensa o que resta desse sagrado que se retira sem desaparecer por completo. Está em dois livros seus, “Une histoire de bleu” (1992) e “L’Instinct de ciel” (2000), publicados depois reunidos num só volume.
Ali, o poeta escreve que sonhamos com estuários, marés, o canto inesgotável do mar que sobe e reflui em nós, assim como vai e volta o estranho desejo que temos do céu, do amor, e de tudo que jamais poderemos tocar com as mãos. É no azul, cor do horizonte, daquilo que se avista, mas nunca se alcança, que ainda habitam, para o poeta, Deus e o sagrado. Não a fé, mas o instinto do céu. Talvez seja essa a imagem mais honesta do que nos resta: não a crença, mas o apetite por ela; não falar de Deus, mas do azul onde ele um dia esteve.
Volto ao ponto de partida: a coincidência de janeiro de 2015, um romance e um atentado surgindo no mesmo dia, como se literatura e história tivessem marcado encontro. Talvez seja essa a tarefa mais nobre da literatura, não adivinhar o futuro, o que seria pretensioso, mas perceber antes dos demais o tremor sob nossos pés, e dar-lhe nome antes que se reduza a uma manchete.
Adalberto de Queiroz, poeta e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.


