Outono no norte da Espanha

A chuva, quando cai suave, anuncia a chegada do outono, uma das estações mais bonitas na Espanha

Celeste Gomes del Salto

De Madri

Acordei com o barulho da chuva que caía fora, era um desses dias que a única vontade que temos é passá-lo numa cama, escutando as gotas caírem. Mas não estava ali para dormir o dia inteiro. A verdade é que foi difícil abandonar o conforto da cama. Reuni toda vontade que pude e me levantei. Caminhei em direção à porta de vidro que dava para a sacada do quarto, a abri protegendo meu corpo atrás da cortina, e estiquei minha cabeça para olhar fora. Vi o céu tapado por uma espessa nuvem que cobria a cidade de Pamplona, a deixava sóbria, algo tristonha. Em frente, estava a praça que tantas vezes vi as imagens na televisão, cheia de pessoas de todas as nacionalidades, que corriam na frente dos touros. Eu nunca quis assistir as famosas e tradicionais festas de sanfermin. Além de ser multitudinária, não sou partícipe da utilização dos animais na diversão das pessoas.

Estava alojada num hotel no centro da cidade, na Praça Consistorial. Era um dos hotéis boutique, temáticos, confortáveis e bonitos. E no mês outubro o preço era bastante acessível.

Depois de passar um tempo observando e escutando as fortes gotas da chuva cair, comecei a pensar num nome que poderia dar a esse efeito. O barulho dessas gotas é tão melancólico e romântico, que parecem cair ao ritmo dos nossos sentimentos. Como pode não ter um nome, assim como tem nome o cheiro que exala quando a chuva encontro com a terra, o petricor.

Escutar a chuva é como escutar uma melodia com a capacidade de acalmar nossos cérebros. Às vezes cai como se fossem lágrimas de anjos, outras vezes como se os deuses enviassem sua fúria para a terra, é um barulho que nunca passa despercebido. Escutá-lo faz emergir em mim as recordações mais memoráveis e mais guardadas. A chuva, quando cai suave, anuncia a chegada do outono, uma das estações mais bonitas na Espanha.

O outono, no entanto, tem um nome poderoso. É uma estação chuvosa e isso o torna tão melancólico a ponto de exercer uma grande influência nos nossos sentimentos. Foi na Europa que vi pela primeira vez a exuberância do outono. A maioria dos dias, o sol se esconde sob nuvens espessas. Embora, o mais bonito dessa estação é a mutação das árvores, é o momento que suas folhas verdes se transformam em amarelas ou marrons, e caem ao chão formando um conjunto de cor ocre. O outono nos oferece a possibilidade de ver suas folhas cobrirem o chão como se fosse um tapete colorido. Algumas pessoas consideram uma estação triste, eu a vejo preciosa. De fato, para mim, é a estação mais bonita, tão cheia de cores e mudanças. Também tem dias ensolarados, embora o sol brilhe um pouco mais tímido.

Começavam as minhas férias de outono, sempre gostei de aproveitar para viajar nesta temporada, durante vários anos tive a oportunidade de visitar lugares onde o outono se torna mais visível e especial. Naquele ano, em 2018, uma colega me comentou sobre o Parque Natural Urbasa e Andía em Navarra, no norte do país. Vi algumas fotos e imediatamente achei que era um bom plano, além de ver o parque, podia aproveitar para conhecer a linda cidade de Pamplona. Aquele dia, como estava chuvoso, passearíamos na cidade e no dia seguinte, dependendo do tempo, se estivesse ensolarado, aproveitaríamos para conhecer o parque.

Após tomar o delicioso café da manhã do hotel, com a sombrinha na mão, partimos de excursão pelo centro de Pamplona, percorremos seus aconchegantes arredores, visitamos as praças, igrejas e alguns dos importantes monumentos, com algumas paradas para tomar um vinho e comer os aperitivos (tapas) oferecidos nos bares e tavernas. À tarde, visitamos o interior da muralha pamplonica e encerramos o dia com um jantar especial em um dos restaurantes da Praça do Castelo.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e fomos conhecer o parque formado pelas montanhas Urbasa e Andía, e separado pela falha de Sunbeltz.

Começamos nossa caminhada pela Serra de Urbasa, havia poucas pessoas por ali e as que encontramos nos disseram que o caminho principal estava cheio de lama. Tínhamos ido aí para conhecer essas paisagens, ver o outono em toda a sua glória e não seria um pouco de lama que nos ia impedir. O caminho estava realmente cheio de barro e era escorregadio, então arriscamos andar fora dele, começamos a caminhar e chegamos a um impressionante campo totalmente forrado por um tapete cor ocre, tudo ali estava coberto pelas milhares de folhas caídas de faia e carvalho. As vistas pareciam contos de fada, tudo era tão colorido que iluminava nossos olhos.

A magia das cores no chão era uma festa da natureza, por onde olhava estava coberto de folhas. Chegamos ao rio Urdera, com águas cristalinas e beleza indescritível, foi um momento de paz e união entre mim e a natureza. Aquele foi um dia especial, senti uma intensa harmonia comigo mesma. Essas foram, sem dúvida, as vistas mais bonitas daquele outono.

Celeste Gomes del Salto, jornalista, é colaboradora do Jornal Opção. 

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