Os mortos pela ideologia, ou os perigos do desejo de uma “perfeição terrena”

Se tivéssemos aprendido algo com a religião, saberíamos que o homem é propenso ao pecado, que é falho, imperfeito e que o resultado das sociedades “perfeitas”, que foram anunciadas com várias revoluções, estava fadado ao fracasso

Historiador francês Alain Besançon, autor de “A Infelicidade do Século” | Foto: Divulgação

Tobias Goulão
Especial para o Jornal Opção

O historiador francês Alain Besançon, em um trecho do livro “A infelicidade do Século: sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoa” (Betrand Brasil, 144 páginas), faz uma longa descrição das mortes causadas pelas ideologias nazista e comunista, tratadas por ele como “gêmeos heterozigotos” (expressão tomada de Pierre Chau­nu). Vejamos o que ele nos diz:
“O modo de execução não é um critério de avaliação. É preciso resistir à tentação de julgar uma morte mais atroz em si mesma do que outra; nenhuma pode ser vista de perto. Ninguém pode saber o que sentia uma criança ao inalar o gás zyklon B ou ao morrer de fome em uma cabana ucraniana. Uma vez que se matavam pessoas à margem de qualquer justiça, é preciso afirmar que todas elas morreram horrivelmente, tanto umas quanto as outras, porque eram inocentes. É quando há justiça que se pode imaginar que algumas execuções são mais honrosas – a espada, por exemplo, mais que a corda. Mas uma vez que os extermínios do século foram alheios à ideia de honra, classificar os suplícios é impossível e indecente.”
Besançon observa que a forma de execução não é critério de avaliação. É necessário que haja justiça na forma de condenação antes de se tentar encontrar “honra” no modo como se elimina o condenado. Para ele, que expõe em seu livro as semelhanças entre o nazismo e comunismo e as formas de perseguição e execução que ambos utilizaram, não há uma justificativa para tentar aliviar ou aumentar a culpa. Seja nas câmaras de gás em Auschwitz, ou pela fome, como ocorreu na Ucrânia, e até por facões no Camboja, todos são responsáveis por não respeitarem a menor justiça, ou por não possuir o mínimo de honra ao criarem inimigos públicos, por conta de uma raça ou categoria financeira e/ou política. São, simplesmente, execuções que se mostraram abomináveis.

As justificativas para que se possa fazer avaliações e manter algumas execuções e dominações políticas hediondas e outras, maleáveis, são puramente ideológicas. E, aqui, leia-se “ideologia” como sendo uma forma de fuga da realidade em prol de uma visão política utópica, posto que homens como o historiador e filósofo alemão Eric Voegelin, o filósofo e teórico conservador estadunidense Russell Kirk e o próprio Besançon tratam a ideologia dessa maneira.

Essa validação da catástrofe, do genocídio, da aplicação da barbárie em nome do ideal de um mundo perfeito é o que fez muitos intelectuais serem condescendentes ou até mesmo apoiadores dos crimes cometidos. Pois bem, foi em nome da perfeição mundana, através da qual pensavam poder realizar na Terra a construção de um Paraíso, que matanças quase incalculáveis puderam ocorrer – ainda hoje os números dos mortos vítimas dessa tentativa de “perfectibilizar o mundo” são flutuantes. E tudo isto foi feito em nome de um sistema de crenças políticas que obstruiu a realidade, criou crimes e inimigos para sustentar sua narrativa de caminho para a paz; populações de países inteiros foram mantidas sob constante vigilância e impedidas de se desenvolverem.

Com as denúncias, como as fotos do sonderkommando de Auschwitz, o relato do escritor italiano Primo Levi e do psiquiatra austríaco Viktor Frankl (ambos sobreviventes dos campos de concentração nazistas) hoje conseguimos manter uma memória latente do que foi o sistema de morte industrial nazista. Nin­guém, em sã consciência, apóia hoje o sistema levado a cabo pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Não se deixa morrer a me­mória dos seus crimes. Há, em nossos dias, uma tentativa de fazer o mesmo com os crimes cometidos pelo comunismo. Na Europa, al­guns países dentre aqueles que ficaram sob o domínio soviético tratam igualmente as duas ideologias. O difícil é que há ainda muitos “dinossauros” que defendem as velhas cartilhas do partido comunista. Há certa hegemonia ideológica que ainda quer nos fazer crer que exista a possibilidade daquele mundo perfeito e utópico ser possível. Ideologia esta que ainda alimenta uma grande amnésia em torno do que aconteceu no “lado vermelho” do mundo, tornado-o aceitável justamente por causa da ação dos vários intelectuais que “atualizam” as ideias, mas, claro, não retirando delas a sua essência.
E nisso consiste a ação ideológica: construir, em nossa mente, uma realidade alternativa, perfeita, distante de qualquer ação justa, moral, sendo que, em nome dessa causa, desse mundo que será perfeito, pode-se validar os mais absurdos crimes como massacres e genocídios. Não precisamos fazer uma regressão histórica ou sair do Brasil para termos exemplos disso, pois temos na figura de líderes políticos, pessoas que falam que “o bom conservador merece uma boa bala e uma boa cova”. Visitando manifestações (a destra e a sinistra) do país veremos, naqueles que estão dominados pelo pensamento ideológico, ações e palavras que podem justificar qualquer atitude que não respeite a realidade, a justiça e a honra.

Percebe-se que ainda hoje, longe de buscar entender nossa realidade, nossa condição complexa, temos cada vez mais exemplos de afastamentos da verdade e de entrega a algum tipo de ideologia política/social. Talvez seja o fenômeno do vazio causado pela crise de sentido do homem pós-moderno e a consequente necessidade de preenchê-lo de alguma for­ma. Quando abandonamos Deus, processo iniciado nos tempos iluministas e confirmado hoje, na pós-modernidade, acabamos por buscar refúgio em outras possibilidades de perfeição: a ideologia elaborou a perfeição terrena, na qual tudo é válido para alcançá-la.

A questão é que, se tivéssemos aprendido algo com a religião, saberíamos que o homem é propenso ao pecado, que é falho e imperfeito. Logo, o resultado das sociedades “perfeitas” que foram anunciadas com várias revoluções estava fadado ao fracasso.

Temos, como nos faz ver Besançon, que rememorar as catástrofes dos dois irmãos e com isso estar, como falou Voegelin, distantes do pensamento ideológico. Devemos ver que os projetos erigidos pelos maiores representantes da ação ideológica aberta são criminosos. Não é possível tentar amenizar um ou outro, porque são mais queridos por uma casta que se julga representante de um idealismo racionalista tido como “científico”; eles continuam sendo impossíveis e indecentes, como expresso no livro de Besançon.

O que não podemos deixar que ocorra, novamente, é a tentativa de submeter pessoas, países inteiros, a transformações violentas de comportamento na esperança de criar um sistema político perfeito baseando-se em uma pretensa “racionalidade” alimentada apenas pela construção ideológica. Os cadáveres criados são as provas contrárias aos movimentos ideológicos. Se ainda perguntarem a ti, leitor, se as ideologias, sejam nazistas ou comunistas, são igualmente criminosas, responda como Besançon: conhecendo os “auges em intensidade no crime do nazismo (a câmara de gás) e em extensão do comunismo (mais de 60 milhões de mortos), o gênero de perversão das almas e dos espíritos operado por um e por outro, creio que não se pode entrar nessa discussão perigosa, que precisa ser respondida simples e firmemente: sim, igualmente criminoso”. É absurdo aceitar a defesa de tais insanidades, mesmo que hoje tenham mudado de roupa e remodelado agentes revolucionários. Ambos são desgraças indefensáveis.

Tobias Goulão é historiador e colaborador do site Santa Carona

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